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O Paradigma do Engenheiro na Sociedade: Funcionalidade, Segurança e Durabilidade

Eng. Paulo Chaves de Rezende Martins* - Edição Nº. 8 - Janeiro/98

Ser engenheiro é um processo em três tempos: a escolha, a formação e a prática.

Escolher ser engenheiro é algo muito pessoal e suas motivações são múltiplas, às vezes, prosaicas: influência familiar, perspectiva de dinheiro fácil em negócio já estabelecido, desejo de realizar algo positivo, atração pelos objetivos da profissão, idealismo de servir aos outros e de transformar o mundo, etc...

Formar-se engenheiro já é outra coisa. É preparar-se para ser agente transformador da natureza em favor do homem. Isto começa na nossa formação básica, continua no curso profissional e prolonga-se pelo resto de nossas vidas.

Cabe aqui uma palavra sobre as escolas de Engenharia e as universidades, locais onde nos formamos engenheiros. Elas não são e não podem ser um mero conjunto de prédios bem ou mal conservados, onde circulam alunos passageiros e trabalham professores descomprometidos com a sociedade e em processo de esclerosamento progressivo. Elas são um organismo vivo e devem ser o eco da sociedade que as sustenta e onde estão inseridas, considerando que, no caso do modelo educacional brasileiro, cabe ao Estado assegurar-lhes a existência. O quadro de professores, pela sua qualificação e produção técnico-científica; o quadro de funcionários, pelo eficiente profissionalismo com que faz funcionar sua máquina técnico-administrativa; e o corpo de alunos, pelo seu engajamento no processo de aprendizado e de crítica renovadora do conhecimento, é que fazem de uma escola a primeira de sua categoria.

Não se fazem escolas públicas de Engenharia com inércia, burocracia, lamúrias e empreguismo. Elas são feitas com esforço e seriedade. Se podemos reclamar do Estado, como representante da sociedade, o compromisso de dar às universidades condições de trabalharem e produzirem, temos que reclamar de seus membros. A produtividade que deles espera a sociedade que os financia é a razão de nossa existência.

Não se fazem escolas privadas de Engenharia com mercantilismo, busca irrefreada de lucro, outorga de diplomas sem conteúdo. O ensino privado é legítimo e livre numa sociedade democrática, mas deve-se impor pela qualidade que apresenta e por sua capacidade de preencher, com responsabilidade social, os vazios que o Estado não pode ou não consegue preencher.

Uma sociedade não pode ficar à mercê da chantagem de ser obrigada a utilizar o ensino privado por falta de bom ensino público. Nem pode ser obrigada a aceitar escolarizar-se numa rede pública absolutamente ineficiente por falta de uma política educacional realista do Estado (incluindo-se aí salários dignos, projeto pedagógico, formação cívica, instalações condizentes, alimentação e assistência médica).

Ao final de pelo menos cinco anos de árduos estudos, chegamos ao nosso diploma e à carteira de habilitação profissional. Isto após havermos vencido, não raro às custas de duros sacrifícios, as barreiras dos cursos fundamental e de segundo grau.

Tornamo-nos, então, profissionais de engenharia, destinados a explorar nossa capacidade criativa e não fadados a nos tornarmos meros repetidores do já feito. A profissão de engenheiro não é uma profissão de poltronas confortáveis, carpetes macios, atmosferas perfumadas e refrigeradas. Nós lidamos com a natureza. Nós a transformamos para benefício do homem. Trabalhamos com o barro, a areia, a pedra, a cala, o cimento, o ferro, a madeira. Trabalhamos com as matérias plásticas, as fibras de carbono, o alumínio, as ligas compostas. São os elementos da natureza modificando-se em realizações do homem. Esta é a grandiosidade de nossa obra.

A partir do cérebro humano, pode-se vislumbrar a existência de uma pirâmide do Egito, de um palácio de Versailles ou de uma Ponte Rio-Niterói, de um ábaco chinês a um super-computador; de uma gaivota de papel a um avião supersônico. São obras que foram construídas para a eternidade. Este é o nosso objetivo: eternizar o fruto de nosso trabalho em benefício do homem.

Assim é que devemos aplicar o melhor de nossos conhecimentos, seja para construir uma grande barragem, seja para construir uma pequena casa, um conjunto habitacional para populações carentes. Seja para fabricar um liquidificador ou construir um sofisticado aparelho de tomografia. Todos devem igualmente funcionar, serem seguros e durar. Este é o paradigma do engenheiro. Nós concebemos, projetamos, construímos e conservamos para que nossa obra seja funcional, seja segura, seja durável.

Seja funcional ao atender às necessidades daqueles para os quais estamos criando nossa obra: os seus usuários finais. Seja segura ao resistir, sem sofrer danos, às ações que, sobre ela, atuarão. Seja durável ao permanecer em condições de funcionamento e com boa aparência durante elevado número de anos.

Este deve ser o fruto de nosso duplo compromisso profissional e pessoal: um, conosco mesmos, na realização de uma vocação; outro, com a sociedade à qual prestamos nossos serviços qualificados.

Não se pode discutir qualquer atividade humana somente sob o prisma individual. Ela está necessariamente investida de um caráter social que lhe é indispensável e sem o qual ela se desfigura. A engenharia pressupõe que coloquemos todo o nosso engenho a favor da comunidade para a qual trabalhamos.

Quando se está projetando, construindo ou fazendo funcionar um produto qualquer de nosso trabalho, estamos lidando com patrimônio alheio, seja individual, seja coletivo. Não nos é dado o direito de desperdiçá-lo, seja por incúria, seja por desleixo. Só nos cabe fazer o melhor que nos é possível fazer, de modo que o resultado seja o que há de mais perfeito no atual estado da arte.

A sociedade não existe somente para nos pagar pelos nossos serviços e arcar com os custos de nossa imperícia ou ganância.

Ser engenheiro civil significa que estamos dotando uma sociedade de infra-estrutura básica para que ela possa se desenvolver; dos produtos e tecnologia que a fazem progredir. Significa que estamos dando à sociedade os meios para que os homens que a compõem possam ser e viver melhor.

Ser engenheiro é muito mais do que apreender alguns truques técnicos para fazer surgir alguma obra em algum lugar perdido de um país qualquer. É ser agente de um processo de desenvolvimento, da construção de uma nação. Não pode ser um engenheiro aquele que perde ou que, pior ainda, não adquire a dimensão social do exercício da engenharia.

Ser engenheiro significa trabalhar para o desenvolvimento de um povo, estejamos onde for. É a causa da humanidade que está em jogo. Não estamos a serviço dos poderosos. Estamos a serviço de todos os homens.

*Engenheiro civil, mestre pela Coppe/UFRJ, doutor ECP, professor adjunto da URFJ