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Ética na engenharia

Prof. Eng. A. C. Vasconcelos - Edição Nº. 20 - Janeiro/05

Revolto-me todas as vezes que leio nos jornais ou vejo, na televisão, explicações finais sobre um desabamento, sobre um acidente ou sobre um defeito divulgado pela imprensa. Tais julgamentos são feitos sem qualquer contato com os autores ou participantes da obra, sem conhecimento prévio do que está sendo visto pela primeira vez. É dada a interpretação imediata, num passe de mágica, mostrando conhecimento absoluto da matéria e criticando quem fez. Críticas de engenheiros especializados em outros assuntos, sem conhecimento técnico específico, que tomaram conhecimento do ocorrido naquele instante, e já cientes de tudo: projeto, materiais, resistência, causas.... A imprensa não quer saber o que aconteceu. Quer que alguém invente na hora qualquer história que possa interessar ao grande público....

É lastimável que colegas nossos, com os mesmos direitos profissionais, somente com o objetivo de aparecerem nos meios de divulgação, se prestem a um procedimento tão mesquinho.

É comum nas obras ouvir críticas de um profissional subalterno, por exemplo, um assentador de azulejos, ao serviço feito por um colega. Nunca ouvi um elogio, somente críticas destrutivas. O ciúme impera sobre a razão. Sem conhecer o motivo da imperfeição (falta do material adequado, pressa, imposição do superior), o serviço é logo criticado como incompetência, negligência, falta de interesse. Não existe aprovação para o que tenha sido feito por outro.

Com os engenheiros, está acontecendo atualmente, exatamente o mesmo. Estamos nos nivelando a uma classe mais baixa em relação ao comportamento frente a outros profissionais de nível social inferior, com aprendizado fora das escolas. Isso nunca poderia acontecer. No currículo das escolas de engenharia, deveria existir uma matéria de ensino do comportamento ético.

Não interessa explicar o que é a ética profissional, o que significa o ethos de Platão. Qualquer divagação filosófica só tende a obscurecer o problema. O essencial é explicar o que está acontecendo em nosso dia-a-dia com exemplos típicos. Naturalmente, local, data, nomes, devem ser modificados para evitar identificação. Quem se enquadrar que vista a carapuça.

Faço freqüentemente a pergunta: o que custa fazer um elogio? Isso vai diminuir o valor de quem o faz?

Um elogio sincero constitui um apoio a quem despendeu enormes esforços para sua realização. Ao invés de um elogio, ouve-se: parece- me que já vi algo semelhante a isso em algum lugar.... (somente para minimizar o valor do que foi apresentado). Isto constitui uma depreciação do trabalho. E se for verdade, para que serve a citação?

Como proceder diante de um fato reprovável, sem ofender a quem cometeu a falha? Deve-se silenciar a respeito e deixar que algo aconteça? E se nada acontecer, com que desculpas V. vai explicar que estava errado ou interpretou diferentemente o problema? Não teria sido melhor ficar calado?

É obrigação do engenheiro evitar que aconteçam desastres? O assunto deve ficar somente entre quem critica e o autor, ou ser divulgado para todo mundo?

Quanto menos aquele que critica aparecer, melhor. O importante é evitar que algo de ruim aconteça. Ao invés de tentar justificar o que foi feito errado, o autor vai tentar consertar o que fez, sem divulgar quem chamou a atenção para o problema e o mais rápido possível. Surge imediatamente com a frase: Analisando mais detalhadamente o problema, julguei que funcionará melhor assim.... Com tal procedimento, tudo ficará bem: o autor não será penalizado, o crítico conseguiu evitar o desastre (sem precisar se enaltecer!), a sociedade ganhou com o procedimento ético. É o que todos querem!!!

Todos nós, sem exceção, tendemos a amenizar as falhas dos amigos e exagerar os erros dos inimigos. Fazemos isso inconscientemente. Os erros dos outros poderiam ter sido evitados se houvesse mais cuidados, mas os nossos erros foram casuais, aconteceram...

É preferível mostrar fatos reais do que filosofar a respeito de casos imaginados.

O Prof. Héctor Gallegos da UPC (Universidade Peruana de Ciências Aplicadas, de Lima) publicou, em 1999, um livro maravilhoso, que todo engenheiro deveria ler: La Ingeniería ÉTICA. Ele menciona vários casos de desastres que poderiam ter sido evitados se houvesse divulgação, por parte de engenheiros colaboradores, de defeitos que poderiam ser corrigidos a tempo. Para não ferir suscetibilidades, ficaram omissos. Pergunta- se: Esse engenheiro feriu a ética profissional, por ter silenciado diante do comportamento de seu superior, que o advertiu para ficar calado e não levantar suspeitas? Ele deveria ter “posto a boca no trombone” e ser penalizado por tal comportamento?

Julgo oportuno aqui reproduzir os casos levantados por Gallegos, deixando a interpretação a cargo de cada um por si mesmo.

1º caso: A explosão do foguete Challenger em 26 de janeiro de 1986.

Todos os jornais do mundo noticiaram o acidente ocorrido 73 segundos depois da decolagem do foguete tripulado, de Cabo Kennedy, na Flórida. Se o foguete tivesse suportado mais 47 segundos, teria se livrado de sua parte impulsora, e, já descarregado de combustível, teria navegado tranqüilamente pelo espaço e retornado à Terra.

Morreram 7 astronautas, dentre os quais a primeira astronauta mulher e o programa espacial americano atrasou-se 5 anos na averiguação das causas do acidente. O acidente aconteceu depois de 4 lançamentos com êxito, diante da pressão política na competição com a Rússia, acelerando o programa.

O que se pode constatar foi que o lançamento foi feito num ambiente que registrou a mais baixa temperatura, abaixo de 0ºC, diferentemente dos 4 lançamentos anteriores. A origem da falha foi identificada como a perda de flexibilidade do selante anelar em baixa temperatura, deixando de cumprir sua função de evitar o vazamento. O combustível sólido, ao se esquentar, causou a dilatação do cilindro de aço que o continha, não acompanhada pelas partes frias.

A empresa particular encarregada da fabricação dos impulsores de combustível sólido foi a Morton Thiokol, que possuía o engenheiro chefe Bob Lund. Um dos engenheiros de Bob Lund era Roger Boisjoly, que havia lutado durante o projeto para resolver o problema material do selante. Não tempo tido tempo de resolver o problema dentro do prazo político estipulado, advertiu seu chefe, sem ser levado a sério pela Morton e pela administração da NASA. Um dos gerentes principais da Morton ridicularizou- o em público: “Tire o seu capacete de engenheiro e coloque na cabeça o da Morton!”

Boisjoly não perdeu o emprego mas foi afastado do projeto. No final de julho de 1986, um mês após o término da comissão presidencial, Boisjoly renunciou ao seu emprego na Morton.

O desenrolar dos fatos sugere diversas perguntas relacionadas com a ética da engenharia. Eis algumas delas: Qual o papel correto de um engenheiro diante de problemas de segurança? Deve um engenheiro aceitar prazos para resolver um problema? Quem deve decidir uma ação final, a engenharia ou a administração da empresa? É correto para um engenheiro, em situações críticas, divulgar informações reservadas da empresa?

2º caso: O automóvel Pinto

Em 10 de agosto de 1978, ocorreu um desastre numa rodovia de Indiana, USA, onde morreram duas jovens dentro de um automóvel compacto, inovador, da Ford. O carro se incendiou depois de um abalroamento por outro carro em sua traseira. Durante os 7 anos da introdução do produto no mercado, ocorreram cerca de 50 casos com demandas judiciais e pagamento de danos. No primeiro caso, entretanto, houve a morte de duas pessoas. A Ford perdeu a causa e vários engenheiros pertencentes à equipe responsável pelo projeto deveriam ser presos. Durante o julgamento ficou patente que os engenheiros conheciam a vulnerabilidade do veículo por choques traseiros. A solução proposta por eles foi recusada pela empresa com as seguintes alegações: a solução aumentava o custo do carro; atrasava o início da fabricação e prejudicava o ritmo de produção. Isto iria contra o alvo da empresa: derrotar os competidores.

As perguntas éticas neste caso são: a responsabilidade de um engenheiro em relação à sociedade deve ser subordinada à sua responsabilidade diante de seu empregador? Pode um engenheiro submeter sua independência à empresa? Qual deve ser sua atitude no processo judicial?

3º caso: Central nuclear de Chernobyl

Perto da cidade Prypyat, na Ucrânia, ocorreu o maior acidente nuclear da história. Manejos incompetentes de partes defeituosas da usina ocasionaram em 25 de abril de 1986. Engenheiros operadores da fábrica tentavam uma experiência mal sucedida. Apagaram todos os sistemas de regulagem e emergência e retiraram todas as varinhas de controle do núcleo energético. Isso possibilitou que a central continuasse trabalhando com 10% de sua capacidade. Nas primeiras horas do dia seguinte, 26 de abril, a operação estava fora de controle. Ocorreram então várias explosões que destruíram os contendores de aço e concreto armado do reator. Enormes quantidades de substâncias radioativas entraram na atmosfera, provocando em 27 de abril a evacuação dos 30.000 habitantes de Prypyat. O governo russo tentou encobrir o ocorrido mas, em 28 de abril, os monitores suecos acusaram índices anormais de radiação no vento. Por pressão da Suécia, o governo russo foi obrigado a admitir o desastre.

Devido à contaminação morreram logo 32 pessoas. E centenas de milhares contraíram doenças. Destas pessoas, dezenas de milhares morreram e o restante contraiu câncer. Nos anos seguintes, nasceram vacas com sérias deformações. Árvores também foram contaminadas. A radioatividade atingiu até França e Itália.

As perguntas pertinentes ao caso são: Pode-se exercer a engenharia sem a competência tecnológica e a necessária experiência? Qual a responsabilidade da engenharia na manutenção dos objetos que criou? Qual a atitude da engenharia ao descobrir que os objetos criados são potencialmente perigosos? Qual a responsabilidade da engenharia no bem-estar humano, atual e futuro?

4º caso: Césio 137 em Goiânia.

No Brasil ocorreu um caso inadmissível de contaminação num ferrovelho, com uma cápsula de césio 137 que lá foi deixada por descuido. Várias pessoas morreram e muitas contraíram doenças ficando impossibilitadas de trabalhar. Ninguém foi julgado como causador do desastre... É ou não é um problema de ética profissional? Os responsáveis pelos equipamentos médicos podiam deixar cápsulas de material perigoso serem jogadas num ferrovelho sem qualquer advertência quanto a seu conteúdo?

Abrindo casualmente pastas antigas, deparei-me com um recorte de “A Gazeta” de 10.01.57, que noticiava a colação de grau da turma de engenheirandos de 1956. Havia sido publicado, na íntegra, o meu discurso de paraninfo. Esse discurso, que saia da regra geral de mostrar os progressos da Engenharia e o futuro dessa profissão no Brasil, transgrediu o costume, como aconteceu pela primeira vez, com a escolha de um professor subalterno e não um catedrático para a honraria de paraninfar uma turma de estudantes. O discurso mais parecia um conselho para os novos engenheiros. Um dos temas destacados foi justamente o da Ética Profissional, que aqui reproduzo.

“Freqüentemente o engenheiro terá que exercer atividades subsidiárias, ao lado da parte técnica. Tão importantes como seus conhecimentos técnicos, os únicos adquiridos na escola, são também seus conhecimentos de relações humanas, de psicologia e de comércio. No exercício dessas atividades o engenheiro precisa acautelar-se para não transgredir os postulados da ética profissional. É muito comum, infelizmente, ouvir-se um engenheiro menosprezar uma planta, um desenho ou um projeto de outro colega antes mesmo de se inteirar completamente do que se trata. Muitas vezes ridiculariza o que ele próprio costumava fazer até alguns dias atrás, só então tendo aprendido a solução acertada. Sempre que estiverdes em situação idêntica, lembrai-vos bem de que, além de ser essa atitude antipática e contra os ensinamentos da ética profissional, ela, em vez de vos beneficiar, poderá ser uma arma de dois gumes, pois quem ouviu a vossa crítica, ainda que não a transmita ao criticado, ficará de sobreaviso para criticar-vos posteriormente em casos análogos. Lembrai-vos bem de que, por melhor que seja vosso trabalho, existe sempre um ponto fraco em que ele possa ser criticado, e outros irão certamente criticá-lo pensando com isso em beneficiar a si próprios. Se minhas palavras puderem ser úteis em alguma situação, lembrai-vos sempre dessa frase: Nunca criticai um trabalho de um colega ainda que a crítica seja justa, pois, com esse procedimento, vós só tendes a ser mal vistos e nada usufruir da antipática atitude.

Quando estiverdes inclinados a proferir tais críticas, lembrai-vos dos vossos próprios trabalhos e colocaivos na posição de adversários. Não é possível evitar as críticas contra nós mesmos, mas é possível diminuir os seus efeitos nocivos procurando trabalhar com perfeição”.

Isto aconteceu há 50 anos e a situação continua a mesma. Podemos fazer alguma coisa para minimizar essa deplorável situação?