Home » TQS News » Consulta » Entrevistas » Alvenaria estrutural: um sistema adequado à realidade brasileira
Alvenaria estrutural: um sistema adequado à realidade brasileira

Eng. Arnoldo Augusto Wendler Filho - Edição Nº. 31 - Agosto/10

O engenheiro Arnoldo Augusto Wendler Filho, em mais de 30 anos de atividades a frente do escritório que leva seu nome, respondeu por mais de três milhões de metros quadrados de obras, notadamente na área residencial. Formado em engenharia civil pela escola Politécnica da Universidade de São Paulo em 1977, ele, desde a época acadêmica, direcionou seu interesse profissional em aprofundar-se na construção residencial. Após concluir a especialização em Engenharia de Estruturas, definiu assim sua carreira, aglutinando conhecimento na área do Cálculo Estrutural e buscando especialização nos sistemas construtivos que viabilizassem a construção residencial em larga escala. Pelas suas características técnicas, viáveis para a realidade brasileira, o sistema de alvenaria estrutural ganharia, a partir daí, um forte aliado, estudioso de seu potencial, e difusor, por meio de uma intensa atividade acadêmica, de sua aplicação. Wendler tornou-se um dos principais especialistas, não somente do sistema de alvenaria estrutural, como do uso do concreto armado (paredes de concreto). Ele acredita que, respeitando-se as características de cada um dos sistemas, ambos poderão corresponder positivamente à demanda atual pela redução do déficit habitacional, que exige velocidade de construção e custos razoáveis à realidade brasileira.

Podemos comprovar a forte expansão da alvenaria estrutural no mercado imobiliário de alto padrão de SP, antes só visto nos empreendimentos populares. A que se deve essa mudança de comportamento do mercado?

A alvenaria estrutural vem sendo usada fortemente em empreendimentos habitacionais da classe B e C há muitos anos. A região de SP - Jundiaí - Campinas, tem empreendimentos de 15 a 18 pavimentos tipo há mais de 15 anos. Na região Sul e Centro-Oeste já existem empresas que só se utilizam desse sistema construtivo que vem sendo cada vez mais usado em todo o Brasil. Como a alvenaria estrutural é um sistema que na maioria das vezes, tem um custo inferior aos demais, ela foi o sistema que mais cresceu na recente expansão do mercado imobiliário. Essa expansão ocorreu principalmente pela incorporação da classe C ao potencial de compra imobiliária. Um sistema tradicional, seguro, de baixa patologia e ainda de baixo custo era tudo que o mercado queria. Assim, mesmo as grandes empresas empreendedoras e construtoras voltaram-se para o sistema.

Há limitações para o uso do sistema em edifícios acima de 10 pavimentos, em termos de projeto?

A faixa de utilização da alvenaria estrutural é bem ampla e, como todo sistema, para atingir seu potencial ótimo, precisa de uma grande integração de toda a cadeia de projetos. Essa cadeia não se inicia, como poderíamos pensar, no projeto arquitetônico. Ela tem início no departamento de produto do empreendedor, que deve compreender que existe sempre um sistema construtivo ideal para cada produto que vai atender a cada mercado. No caso do atendimento à classe C, temos um mercado que praticamente nunca modifica o imóvel e, portanto, o produto não precisa oferecer essa possibilidade. Quanto ao projetista de arquitetura, ele deve trabalhar em ligação direta com o projetista estrutural ou já conhecer todas as necessidades do sistema: modulação, paredes alinhadas nos casos de edifícios mais altos, esquadrias respeitando sempre a modulação.

Com estas considerações podemos dizer que, nos projetos mais tradicionais de quatro apartamentos por andar, o famoso H, para a maioria das arquiteturas, podemos utilizar a alvenaria estrutural, economicamente, até 18 ou 20 pavimentos, com uma faixa ideal de até 15 a 16 pavimentos. Até 8 a 10 pavimentos podemos trabalhar quase sem armaduras verticais. Com as arquiteturas mais recentes de 6, 8 ou até mais apartamentos por andar, a relação entre a arquitetura e a estrutura ficou mais sensível, e estes limites podem ser alcançados e até ultrapassados, mas somente em casos muito bem estudados. E é isto que o mercado está fazendo hoje.

O mercado possui projetistas especializados que dominam o conhecimento desse sistema, para esses novos usos?

Sim, temos vários projetistas experientes em diferentes pontos do Brasil. Existe uma concentração natural no mercado em São Paulo, pois aqui utilizamos a alvenaria estrutural há mais tempo. Outro ponto importante é que temos hoje, no Brasil, várias faculdades com departamentos dedicados ao sistema. Podemos citar a Universidade de São Paulo, tanto a Escola Politécnica, como a Escola de Engenharia de São Carlos, a Universidade Federal de São Carlos, a Universidade de Campinas (Unicamp), a Universidade de Ilha Solteira, todas no estado de São Paulo, além da Federal de Santa Catarina e Federal de Santa Maria, no Rio Grande do Sul, entre outras tantas. A própria TQS, pelo seu poder aglutinador de mercado, exerce um papel preponderante nesta preparação dos profissionais da área. Ao utilizar o sistema CAD/ Alvest e entender a sua conceituação, os projetistas já dão um grande passo no conhecimento do sistema.

Quais os cuidados elementares para um projetista que nunca trabalhou com projetos de alvenaria estrutural?

A primeira coisa importante é entender que a alvenaria estrutural é um sistema construtivo e, portanto, as decisões nunca devem ser dadas exclusivamente por um dos projetistas, pelo empreendedor ou pela construtora. Somente chegamos na utilização ideal do sistema com a integração de todos. Em segundo lugar, temos de lembrar que se trata de um sistema bastante racionalizado e, portanto, deve ser planejado em todos os seus detalhes, com desenhos claros de todos os elementos que possam interferir um nos outros.

Especificamente na área do projeto estrutural, devemos lembrar que os elementos portantes, as paredes de alvenaria, trabalham como painéis integrados e travados com as lajes do sistema. O sistema de painéis tem um comportamento quanto às cargas horizontais bem diferente da estrutura reticulada de concreto armado. Além disso, é muito importante, justamente devido a este funcionamento, preocupar-se com as modificações ao longo do projeto. Ao mudar uma janela de lugar, estamos mudando o painel e o conjunto todo deverá ser modificado e reprojetado. Os demais cuidados aparecem sempre: conhecimento das Normas e a atenção voltada para todos os carregamentos possíveis e suas envoltórias.

A expansão de empreendimentos populares também tem tido como base o uso de paredes estruturais, em virtude da rapidez. Esses projetos são mais padronizados e industrializados. Mesmo assim, requerem cuidados. Poderia mencionar alguns?

A utilização das paredes de concreto está em franca expansão. É um sistema que depende de grandes conjuntos, com alta repetitividade e grande rapidez. Como todo sistema, tem as suas características próprias e elas levam a todo um conjunto de projetos e controles de obra específicos. Neste sistema a modulação é ainda mais importante, pois trabalhamos com um elemento muito caro que tem de ser otimizado ao máximo: as fôrmas, principalmente as de alumínio, que são as mais utilizadas no mercado atual. O detalhe mais importante no projeto é a especificação do concreto, e também o seu controle vai ser um ponto de destaque na obra. No detalhamento das armaduras, não devemos esquecer os pontos críticos, como aberturas de portas e janelas. No caso dos prédios mais altos, necessitamos de uma análise muito cuidadosa do modelo de cálculo adotado, pois não temos ainda uma Norma para nos balizarmos. Ela está sendo desenvolvida em um grupo de trabalho coordenado pela Associação Brasileira do Cimento Portland.

Esse momento de forte expansão exige uma mudança de postura dos profissionais de projeto, que são mais cobrados em termos de tecnologia, economicidade, etc. Como o senhor vê essa questão?

Na realidade, estamos sempre nesta mudança. Nesses momentos tudo se acelera em função do mercado. Estamos hoje passando por duas grandes mudanças, a técnica e a organizacional. Na técnica, temos o aperfeiçoamento limite dos sistemas existentes e uma série de novos sistemas que estão entrando no mercado. São sistemas que estão tentando ser mais industrializados de maneira a cobrir a falta de mão-de-obra nas obras. Assim, a maioria utiliza uma boa dose de pré-fabricação. A mudança organizacional é interna aos nossos escritórios que têm de dar conta hoje de um grande número de projetos simultâneos, com boa coordenação entre todos os projetistas. Além, é claro, das eternas modificações que aparecem no meio do caminho. Isto só é possível pela informatização tanto do projeto, cálculo e desenho, como dos sistemas de controle de desenhos e suas revisões.

O senhor tem um trabalho educacional. Como analisa a formação dos novos profissionais diante do novo panorama de mercado? Quais são as principais deficiências, a seu ver?

A formação de nossos profissionais continua sendo a mesma ao longo dos anos. É difícil generalizar em função de tão diferentes realidades entre nossas universidades. Sentese nas universidades uma mudança de mentalidade nos alunos que agora vêem como possível formarse e trabalhar na área escolhida. Isto está levando, alguns alunos, a uma tentativa de aproveitar melhor a oportunidade que a academia dá. Mas a formação ainda é precária. Imagine que há 30 anos estudávamos 5 anos, com pouco tempo de estágio e hoje, depois de 30 anos acumulando novos conhecimentos, sistemas construtivos diferentes e toda a tecnologia da informática, continuamos formando nossos alunos com até menos horas aula que antes. Com isso, a formação continua no início da vida profissional e o estágio passa a ser uma ferramenta fundamental, mesmo antes do estágio oficial de último ano. Em nosso escritório, estamos formando estes profissionais desde o terceiro ano.

Como o uso das novas tecnologias na área de informática tem atuado na qualificação destes profissionais, na sua preparação?

Ainda é muito pequeno o uso da informática nas universidades. Algumas são até contra a sua utilização. Mas temos usado muito a informática com nossos estagiários, iniciando com desenho e depois aprendendo gradativamente a utilização do modelador – (sorte deles não ter de saber a linguagem LDF para lançar uma estrutura!!!). A informática permite o aprendizado pela repetição, pelos grandes números de estruturas que podemos observar em pouco tempo. O conceito continua fundamental. Não dá para entender, e principalmente aprender com um resultado, se não tiver o conceito básico. Mas a informática nos permite aprender fazendo ajustes, verificando como pequenas mudanças interferem no resultado, e assim desenvolver a sensibilidade do sistema, que antes era puramente conceitual.

Alguns acreditam que os novos profissionais não se preparam para o uso da ferramenta com a consciência do desenvolvimento profissional real. Essa dúvida confere ainda nos dias de hoje?

Não podemos generalizar, mas a tendência hoje é cada vez mais termos profissionais melhor preparados. Mas, infelizmente, isto não acontece na velocidade que precisamos. Hoje o mercado demanda profissionais já com alguma experiência na análise de projetos, no uso da ferramenta de informática e principalmente em entender o funcionamento real da estrutura. Como encontramos em todos os manuais da TQS, a informática é apenas uma ferramenta. O engenheiro estrutural deve ter o conhecimento teórico, conceitual e experiência necessária para executar o projeto estrutural. Aqueles que querem simplesmente usar a ferramenta sem o devido cuidado de análise, em breve, estarão fora do mercado pois ele está muito competitivo.

Como é possível conciliar esses dois conhecimentos: de tecnologia e de projeto?

Antes de tudo, é necessário o conhecimento teórico e conceitual de como uma estrutura funciona. Vamos sempre, na informática, operar um modelo de estrutura. Se não tivermos a mínima idéia de onde queremos chegar, não teremos condição de analisar os resultados. Depois de tudo, ainda é preciso conhecer a estrutura de apresentação do projeto. Trabalhamos sempre com idéias. Elas só vão se materializar com a execução da obra. Portanto, temos que fazer os desenhos necessários para transformar a idéia que está em nosso pensamento em algo que outra pessoa, o executor, possa entender e construir da mesma maneira que imaginamos. Isto, às vezes, não é tão simples assim. Nosso universo de trabalho é extremamente variado e cada projeto tem as suas peculiaridades. Somente a experiência de cada um somadas na equipe de trabalho pode fazer a conciliação necessária.

Quem dá maior contribuição na formação de um profissional de projeto: a experiência ou as universidades?

Como temos repetido, as duas coisas são importantes. Para conseguirmos uma experiência sólida temos de ter os conhecimentos que nos são dados pelas universidades em seus diferentes níveis, graduação, pós-graduação, mestrados, doutorados, etc. O conhecimento total é muito amplo e não vão ser apenas cinco anos de graduação que irão nos preparar para tudo. Na realidade, estudamos a vida inteira. Com uma boa base, podemos desenvolver o nosso conhecimento através da experiência do dia-a-dia dos diferentes projetos que passam por nossas mãos. E eles passam cada vez em maior quantidade e maior velocidade com o uso da informática. Conforme evoluímos em nossa vida profissional, mais importante é o peso da experiência, desde que ela esteja sempre embasada naqueles conhecimentos inicias que adquirimos na universidade.

O mercado parece promissor no uso no uso dos sistemas de alvenaria estrutural e parede estrutural. O senhor acredita que esse uso poderá crescer ainda mais, com programas como Minha Casa Minha Vida?

O programa Minha Casa Minha Vida necessita de uma grande quantidade de habitações de baixo custo, para viabilizar a sua parte financeira. Com estas condições, fica claro que devemos utilizar maciçamente os sistemas estruturais que permitam atingir a esses objetivos. A alvenaria estrutural é sem dúvida o sistema de menor custo por metro quadrado e será usado exaustivamente em uma quantidade muito grande de empreendimentos de menor porte. O sistema de parede de concreto e várias outras alternativas pré-moldadas serão utilizadas, em grande número, nos empreendimentos de muitas unidades habitacionais praticamente iguais. Portanto, os dois sistemas, assim como todos os outros, serão necessários para atingir as metas corajosas do programa.

Como o mercado de construtoras e projetistas devem se preparar para uma expansão ainda mais forte que a que aconteceu até agora?

Com conhecimento e treinamento. Conhecimento adquirido na boa graduação de nossos estudantes, na reciclagem constante de nossos profissionais, com cursos conceituais e cursos práticos, enfim, devemos ter um embasamento muito bom do nosso conhecimento. E muito treinamento prático: treinamentos teóricos sobre o funcionamento das ferramentas informatizadas a utilizar, muita experiência adquirida em projetos. Precisamos de uma grande cruzada técnica em todos os níveis para poder atender à alta demanda do mercado. Os profissionais mais experientes deverão se reciclar ao máximo, os profissionais em início de carreira deverão investir muito em treinamentos e as universidades deverão aprimorar ao máximo a formação de seus alunos. Temos de trabalhar o mercado como um todo. Para cada profissional que subir na carreira, outro deverá estar pronto para ocupar o seu lugar e um terceiro, o lugar deste e assim por diante. O mercado é muito grande e todas as projeções dizem que se manterá por longo tempo. Portanto, mãos a obra, que há espaço para todos os bons profissionais.