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Vocação para o cálculo

Eng. Estevão Bicalho Pinto Rodrigues - Edição Nº. 30 - Fevereiro/10

O engenheiro Estevão Bicalho Pinto Rodrigues herdou do pai a vocação para tornar-se engenheiro de estruturas. Sujeito simples, o pai trabalhava sozinho, tendo feito inúmeros projetos para a então Companhia do Vale do Rio Doce, fazendo projetos, como ele mesmo dizia, “de ótima qualidade e péssima apresentação”. Na verdade, croquis completos com todas as informações necessárias para a execução das estruturas, como ocorreu nas minas de Conceição e Timbopeba, destacando-se pela capacidade intelectual e memória prodigiosa. A partir da experiência inicial, Bicalho traçou sua própria trajetória, enveredando para a área acadêmica e especializando-se também no campo de projetos para a construção civil. Essa atuação conjunta, segundo o engenheiro, permite a atualização constante do profissional aliada ainda ao uso de modernas ferramentas, como softwares. Apesar de considerá-los fundamentais, o engenheiro destaca que a formação profissional do engenheiro é que vai garantir a qualidade do projeto.

Como se deu sua escolha pela área de engenharia e especificamente pelo cálculo estrutural? Alguma influência especial?

Meu pai era calculista de estruturas industriais em concreto armado e professor de diversas disciplinas no Departamento de Engenharia de Estruturas da Escola de Engenharia da UFMG. Eu sempre tive muita facilidade com disciplinas ligadas à matemática e à física e tornar-me um engenheiro civil foi um caminho natural. Entrei para a Escola de Engenharia da UFMG em 1971, e a minha turma foi a primeira a ter um currículo novo, em que a disciplina “Programação para Computadores” era dada logo no primeiro período. Encantei- me profundamente por esse assunto e, por três períodos, trabalhei como estagiário na área da informática, começando como programador e depois analista. Terminados os dois anos de ciclo básico, vi-me obrigado a tomar uma decisão: se iria me dedicar efetivamente à área da informática ou trabalhar como engenheiro. Optei pela área de Engenharia, mas trazendo comigo toda uma bagagem de programação e análise de computadores.

O senhor começou a atuar em algum setor específico de cálculo: residências, edifícios, indústrias?

Decidido a me tornar efetivamente um engenheiro, experimentei durante o quinto, o sexto e o sétimo período trabalhar na área de transportes e na área de cálculo em estrutura metálica, mas acabei decidindo mesmo pela área de projetos em concreto armado. Fui então, no oitavo período, fazer um estágio no escritório do meu pai, que trabalhava absolutamente sozinho, sem nenhum funcionário, calculando e fazendo ele mesmo os seus desenhos. Ele trabalhava quase que exclusivamente para a Vale do Rio Doce, fazendo projetos “de ótima qualidade e péssima apresentação”, como ele mesmo dizia. Na verdade, considero que ele fazia “croquis” que tinham todas as informações necessárias para a execução das estruturas. Muitas das estruturas de concreto armado das Minas da Vale do Rio Doce (tais como Conceição e Timbopeba), foram feitas por ele, que era um projetista com capacidade intelectual excepcional e memória prodigiosa. Fiquei trabalhando com ele durante um ano e, neste período, projetei sozinho casas, prédios e também algumas estruturas industriais, mesmo não tendo ainda me formado.

Como era essa fase?

Neste período, nós dois desenvolvíamos pequenos programas para dimensionamentos variados em concreto armado e cálculo de fundações, para as máquinas HP-97 e HP-67, que eram as grandes novidades. Utilizávamos também o programa “STRESS” da IBM em um computador IBM-1130 de 8 K de memória, que ocupava quase um andar inteiro do prédio da Escola de Engenharia da UFMG. Durante o quinto período, no 1º semestre de 1973, o acaso fez-me encontrar a minha grande paixão, que é ser professor. Estando então com 20 anos, fui convocado para cobrir temporariamente a ausência de um professor de física do primeiro ano científico do Colégio Santo Antônio, um dos melhores colégios de Belo Horizonte. Acabei sendo efetivado, lecionando essa matéria por mais dois anos e meio, até me formar em julho de 1975, quando então comecei a dar aulas na Escola de Engenharia da UFMG, onde leciono até hoje. E nestes 34 anos como professor na UFMG, dedico-me principalmente à área de Teoria das Estruturas. Meu trabalho e minha dedicação são reconhecidos e recompensados pelos alunos, os quais muitos se tornaram grandes amigos.

Que trabalhos o senhor destacaria e por quê?

Formei-me em julho de 1975 e fui trabalhar em uma empresa de projetos que já não existe, a Exacta Engenharia de Projetos, onde fiquei até o início de 1977, quando saí para fundar a minha própria empresa. No período da Exacta, projetei muitas unidades da expansão da Companhia de Cimentos Cauê, em Pedro Leopoldo. Nesta empresa, tive também a oportunidade de criar o embrião de um Centro de Processamento de Dados, aproveitando a minha experiência nesta área. Na minha empresa, fundada em 1977, sempre tive a preocupação de fazer projetos relacionados a várias áreas, para não ficar refém de eventuais oscilações do mercado. Dessa forma, projetava desde esta época estruturas hidráulicas para a Copasa/ MG, estruturas industriais para diversos clientes e também prédios residenciais e casas. Todos os projetos foram e são importantes, mas acredito que entre os meus projetos mais conhecidos estão: projeto estrutural de três dos cinco lotes da canalização do Ribeirão Arrudas, feitos para o Consórcio Sagendra/ Marins; os novos prédios da faculdade de Farmácia e da Escola de Engenharia, no Campus da Pampulha, para o projeto “Campus 2000” da UFMG e os inúmeros prédios feitos para a MRV. Hoje a MRV é uma das maiores construtoras da América Latina, sendo minha cliente desde 1979, apresentando uma trajetória de sucesso que eu acompanhei desde um pequeno escritório de 30 m2 até o grande complexo que é hoje, fazendo obras em vários estados do Brasil.

E na área acadêmica?

Sem dúvida, este é o trabalho que eu mais gostaria de destacar – a minha grande preocupação com a complementação dos estudos teóricos dos alunos de engenharia civil, com a aplicação na prática. Como sou um professor extremamente apaixonado pelo aprendizado, tenho a preocupação de proporcionar a alguns alunos de destaque a oportunidade de fazerem estágios conosco e hoje, em várias empresas de Belo Horizonte, encontramos engenheiros que se iniciaram na área de projetos na nossa empresa.

Quais seriam, a seu ver, as questões mais importantes que norteiam a carreira de um profissional do cálculo?

Na minha opinião, o profissional do cálculo tem de estar sempre atento às novidades da área técnica, e tem de procurar atender aos seus clientes da melhor forma possível, mas sem subserviência. Entregar os serviços no prazo, devidamente verificados e com uma solução técnica adequada, devem ser os objetivos principais desse profissional. Por outro lado, ele tem o direito de receber uma remuneração digna por este seu trabalho, e não ficar ao sabor dos verdadeiros “leilões” que algumas empresas contratantes fazem hoje antes da contratação dos projetos.

É importante ao profissional continuar se especializando?

O profissional de cálculo tem de se atualizar sempre. É exatamente em épocas de crise, em que o mercado fica mais seletivo, que os profissionais mais preparados se destacam. No meu caso, atuando como professor na UFMG, estou sempre me atualizando naturalmente. Além disso, fiz especialização em estruturas na UFMG em 1980 e, recentemente, em 2003, concluí o Mestrado em Estruturas, também na UFMG.

Qual o papel dos softwares para o desempenho de um projeto atualmente? Como o Senhor vê essa questão?

Como já destaquei, sempre gostei muito da área de informática e sempre procurei utilizar da melhor forma possível os softwares disponíveis. No final do ano de 1992, no Departamento de Engenharia de Estruturas da UFMG, em uma conversa na hora do café, tomei conhecimento da existência do programa TQS. Interessei-me muito pelo assunto, fui me informar a respeito deste software com alguns colegas que já o utilizavam e decidi então comprá-lo. Dentro da minha filosofia de trabalho, contratei a estagiária Luciana Camara, que tinha uma extrema habilidade com área de informática e propus a ela o desafio de participar comigo e com o engenheiro Fábio Caputo, que trabalhava em minha empresa na época, de um grupo de estudos para aprender a utilização do novo software e analisar os seus resultados. Hoje, na minha empresa, tenho várias licenças para usar o programa e muitos engenheiros, auxiliares técnicos e estagiários que o utilizam no dia-a-dia. Mas tenho a convicção de que a presença da engenheira Luciana, que se tornou minha sócia posteriormente, foi e ainda é fundamental para isso. Seu entusiasmo com o software, desde o início, contagiou a todos e ela é hoje a pessoa à qual todos recorrem em casos de dificuldades, e também é o nosso contato com a TQS para esclarecer as dúvidas quando elas aparecem.

Como o senhor vê a segurança e o processo de verificação dos projetos?

Com as normas hoje vigentes e o grande número de verificações que têm de ser feitas, tenho a mais absoluta certeza de que projetar hoje sem um software ficou impossível.

Além disso, o software permite experimentar várias alternativas para se atingir a solução mais adequada em um espaço de tempo reduzido. Antigamente, o trabalho a ser desenvolvido na análise de várias hipóteses inviabilizava que elas fossem estudadas.

O senhor acha que a remuneração tem a ver com essa maior “popularização” dos projetos?

Na minha opinião, uma empresa deve ter a opção de escolher no mercado o tipo de profissional que ela deseja contratar, assim como um comprador de automóvel tem à sua disposição desde modelos populares a modelos de alto luxo. Na área residencial, principalmente, as construtoras estão a cada dia exigindo mais e querendo pagar menos. E isto só acontece porque existem profissionais que se sujeitam a isso, muitas vezes por estarem na estreita dependência dessas construtoras. Muitas delas acabam contratando profissionais de pouca experiência, cuja remuneração é bem inferior, para desenvolver projetos para os quais eles não estão aptos. Por isso, acho que uma das profissões mais requisitadas do futuro será a de “bombeiro de estruturas” para tentar “salvar” estruturas projetadas de forma inadequada por profissionais que não têm o domínio absoluto do software e acham que ele “projeta sozinho”.

Que análise o senhor faz do cenário para o profissional de cálculo estrutural hoje?

A postura de um profissional desta área deve ser, a meu ver, a de se associar a seus colegas em entidades como a ABECE, a fim de que ele possa participar de palestras, debates e cursos sobre os mais variados temas de seu interesse. Ele deve procurar adquirir um software nacional, que dê suporte às suas dúvidas, para que ele tenha certeza das soluções que está adotando. E no relacionamento com o cliente, ele deve exigir uma remuneração justa (o que vai mostrar o respeito que o cliente tem com ele), e em troca, respeitá-lo também, cumprindo os prazos acordados e apresentando- lhe projetos com boas soluções. Além disso, ele deve se preocupar em corrigir os desenhos antes de enviá-los para a obra, para que seu trabalho não seja criticado por erros de apresentação. Acho que o crescimento do mercado abre espaço para todos, mas os bons profissionais sempre terão espaço em qualquer conjuntura.