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Ritmo industrial

Eng. Carlos Melo - Edição Nº. 29 - Agosto/09

Escritório Carlos Melo & Associados aproveita brecha para crescer na área industrial aproveitando e difundindo a aplicação do pré-moldado de concreto.

Desde pequeno, Carlos Eduardo E. Melo decidiu-se pela engenharia. Vindo de uma família composta por professores de matemática, percebeu, logo de início, sua vocação para o Cálculo Estrutural. O destino o levou a experimentar caminhos paralelos inserindo-se no universo dos pré-moldados, em que literalmente pôs a mão na massa. A vivência nessa área rendeu um livro e virou o principal fator competitivo de seu escritório, a Carlos Melo & Associados, gerando inclusive um software em parceria com a TQS para calcular empregando o pré-moldado.

Como surgiu a engenharia na sua vida?

Meu pai sempre foi um apaixonado pela engenharia civil. Desde a época do colegial, eu já sabia que iria para a engenharia. Mas a engenharia civil não foi a minha primeira opção, e sim a engenharia elétrica, que estava na moda. Mas não passei e fui para a segunda opção. Eu entrei na Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (USP) e me formei em 1990.

E como foi o primeiro contato com a Engenharia de Cálculo?

No começo do quarto ano, eu conheci o professor França (Ricardo Leopoldo Silva e França) e solicitei a ele um estágio. Na época, o escritório ainda se chamava França & Ungaretti, hoje é França & Associados. Eu entrei como estagiário, em fevereiro de 1989, fazendo verificação de projeto. Somente em 1990, é que comecei a fazer trabalhos de cálculo estrutural.

Foi um caminho natural?

Eu já sabia que iria para essa área de projeto, de cálculo de estrutura, pois minha família toda, tias e minha mãe, eram professoras de matemática. Existe uma ligação minha com essa coisa do cálculo, de se dedicar aos estudos. Eu já estagiava no escritório e, com o fim do estágio, acabei sendo efetivado, permanecendo lá por 11 anos. Mas depois disso, comecei a procurar por coisas novas, ver como estava o mercado. Foi então que surgiu o convite da Munte Construções Industrializadas, uma empresa de pré-moldados, para ser gerente de projetos.

Foi uma reviravolta na sua vida?

A empresa estava passando por uma reestruturação, deixando de ser pequeno de porte para transformar-se em grande porte, aproveitando os ventos de industrialização da construção. Ela queria expandir o mercado e contratou além de mim uma equipe, focando os projetos de prémoldado. Foi assim que eu pude conhecer esse sistema mais de perto, pois, no escritório do França, o prémoldado não era o foco principal. Pude ter uma vivência rara de projeto e de execução, e uma grande oportunidade de desenvolvimento. Todos nós crescemos junto à empresa.

Você acompanhava a fabricação?

Eu estava na área de projeto, mas tinha muito contato com a fábrica, com a execução da peças. Talvez até menos do que eu gostaria. Estar no dia-a-dia de uma fábrica é diferente de apenas executar o projeto. Isso permite ver o projeto de outro ângulo, pois o papel aceita muita coisa, mas às vezes elas não se encaixam. Acompanhar isso de perto permite o aprendizado mais real, ver de fato um projeto em que você colaborou, e esse feedback é muito importante.

Isso não é muito comum, não é mesmo?

No Brasil, o projetista fica em geral muito dissociado da obra. O retorno é muito pequeno. Os problemas que ocorrem na obra são resolvidos por lá mesmo e o projetista nem fica sabendo. Quem resolve também é um engenheiro, também é um profissional com competência para resolver esses problemas, mesmo que não tenha se especializado nisso. Mas o bom senso em engenharia é o mesmo, o problema é que o projetista não tem retorno sobre seu projeto.

Quanto tempo você ficou por lá?

Trabalhei por quase dois anos na fábrica em Itapevi, tendo contato, principalmente, com projetos para obras industriais, que exigem rapidez. Isso mudou muito a minha visão, porque o projeto de pré-fabricado tem de ser rápido, ele só é viável se tiver um prazo curto. E isso gera um certo estresse em função da quantidade de trabalho, de prazos apertados de entrega de projetos e das peças, de diferenças de projeto. Não é aquele processo lento de encaminhar o projeto para o cliente e aguardar o retorno. Além disso, o projeto em si também é diferente, pois tem muitos detalhes, alguns da experiência do processo; é diferente do moldado in loco.

O pré-moldado requer uma especialização?

Se a ciência do cálculo estrutural já é uma especialidade, o projeto de pré-moldado é uma especialidade dentro da especialidade. Trata-se de um segmento muito restrito e eu acabei enveredando por esse caminho naturalmente, me aprofundando no assunto sem ter planejado isso. Fiquei na empresa por quatro anos trabalhando como gerente e isso foi fundamental para o expertise que tenho hoje nessa área.

Como você voltou para a área de projeto?

Mais uma vez o destino guiou o meu caminho. Estávamos com problemas em uma obra, que tinha o prazo muito apertado, a ampliação do shopping Aricanduva. As coisas estavam meio complicadas e os projetos tinham de sair, mas não estávamos conseguindo atender aos prazos. Foi então que eu e a empresa adotamos uma solução de comum acordo: eu saí da gerência da empresa especificamente para cuidar desse projeto, colocando a mão na massa, fazendo parte do projeto. Na mesma época, meu filho tinha acabado de nascer, e uma das condições propostas é que eu fosse trabalhar em casa. Foi uma boa maneira que encontramos para agilizar o projeto, e ao mesmo tempo, me permitir ficar mais tempo em casa, cuidando do meu filho junto com minha esposa. Esse foi realmente um momento divisor na minha vida, pois depois disso percebi que queria realmente me dedicar à área de cálculo estrutural; era isso que eu realmente gostava de fazer.

Você abriu um escritório após a conclusão do projeto?

Depois de terminado esse trabalho do shopping, percebi que não queria mais voltar à gerência na fábrica, mas a empresa convidou-me para desenvolver um trabalho diferente de reorganizar todo o seu acervo técnico criando os procedimentos do Departamento Técnico de Qualidade. Era um processo de normatização interna, que levaria um ano, sendo o início do escritório. O trabalho ganhou um volume surpreendente de informações e acabou tornando-se um livro.

A empresa e eu decidimos, então, desenvolver e lançar no mercado uma publicação mostrando o passo a passo de um projeto de pré-moldado, à maneira da Munte.

Isso ajudaria a difundir a técnica?

Justamente. Nessa época, também a norma técnica dos pré-moldados estava sendo revista, eu me candidatei e fui eleito presidente da comissão de revisão da norma pela Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT). Isso me ajudou também a reunir esse material, embasando o livro.

Não havia essa informação disponível?

Percebemos que havia essa falta de informação. De disponível, na época, só uma publicação do professor Munir, que é mais teórico, sobre o pré-fabricado. O nosso livro tinha o teor de manual prático e os procedimentos de como utilizar o pré-fabricado de maneira simplificada. Esse livro foi lançado em 2004 e, nessa época, eu já estava trabalhando em casa. Assim, ele encerrou minha atuação na Munte. Depois disso, fiquei desenvolvendo projetos em casa, algumas vezes em escritórios de pessoas amigas, até efetivamente montar meu próprio escritório.

Como projetista, seu foco desde o início era atuar com prémoldados?

Quando eu terminei o livro, praticamente eu encerrei a minha contratação exclusiva e, assim, abriria meu escritório para o mercado. Então, desde o início, pensei em utilizar o conhecimento técnico e prático dos pré-moldados como fator diferencial nos meus projetos. No Brasil muito se faz, mas em geral esse conhecimento não é catalogado, não é repassado. Ele fica confinado a algumas pessoas, ou a empresas. Além disso, tem essa característica do mercado, de terceirização dos projetos, seja em qualquer área, ou seja, muito desse conhecimento fica preso aos escritórios. Mesmo assim, atuando como terceirzado, no projeto de pré-moldado é preciso atuar como se estivesse lá dentro da fábrica e, ao mesmo tempo, no canteiro de obras.

Hoje o sistema é seu foco principal?

Ele representa 80% do core business do meu escritório, e às vezes chega a 100%. O pré-fabricado muitas vezes pede obras complementares em que não é interessante usar as peças prontas, sendo adequado o uso do moldado in loco, mas a verdade é que naturalmente somos escolhidos para projetar obras que estão associadas com o pré-fabricado, mesmo sendo moldadas in loco.

Como se caracterizam essas obras?

Geralmente são obras industriais, de grandes empresas, o que pode variar conforme a época. Até setembro de 2008, estávamos com muitas obras industriais, mas depois da crise, elas praticamente se foram. Antes a maior parte eram os projetos de indústrias e alguns de varejo (shoppings). Depois da crise, percebemos que as obras de varejo não só continuaram como se acentuaram.

Pode citar alguns projetos?

Desenvolvemos o shopping Diadema/ Praça da Moça, e estamos com o shopping Via Brasil, no Rio de Janeiro, de aproximadamente 155 mil m2, localizado na esquina da avenida Brasil com a rodovia Presidente Dutra. Fechamos esse contrato em outubro de 2008 e ele está na montagem dos pré-fabricados, estamos também na obra do shopping Largo Treze de Maio, em Santo Amaro e desenvolvemos uma primeira fase do shopping da Savoy em Osasco, que foi inaugurado recentemente. Também atuamos em um conjunto de obras da Companhia Paulista de Trens Metropolitanos (CPTM).

Que tipo de projetos estão sendo realizados?

Trata-se do plano de expansão do governo do Estado de São Paulo, com a construção de estações novas, que originalmente tinham sido pensadas em concreto moldado in loco, mas mudou para pré-fabricados. Já fizemos quatro estações. Em alguns casos, o pré-fabricado não é a solução ideal, então foi utilizado o moldado in loco mesmo. Podemos citar as estações Jardim Romano, Comendador Ermelino, Vila Clarice e agora estou trabalhando na Linha 9, na estação Ceasa, Estação Villa Lobos e Estação Cidade Universitária. O trabalho inclui passarelas sobre a linha, algumas reformas de estação, salas de apoio, enfim, é um volume grande.

Como vão as obras industriais hoje?

Estamos com a reforma de um galpão, que pegou fogo, da fábrica da Santer. E estamos executando o projeto de um piperack e edificações de laboratórios em estrutura pré-fabricada para a Petrobrás. Além disso, temos sido muito chamados a fazer a verificação de projetos.

A Petrobrás é um campo para o seu escritório?

A Petrobrás pede um projeto com muitas exigências. Já tínhamos feito outros piperacks para a indústria química, conhecemos bem esse campo, e sendo de pré-moldados, não tem problema. Mas, sem dúvida, as especificações da Petrobras são diferentes, pois exigem maior detalhamento no projeto do que normalmente é pedido pelo mercado, além de diferenças também na apresentação do projeto.

Alguns desses contratos foram através de concorrência?

Sempre existe uma concorrência. É claro que, na área de Engenharia, também é comum a indicação de cliente para clientes, uma vez que já conhecem o nosso trabalho, e o escritório de projeto não deve ser escolhido apenas pelo seu preço. Nós concorremos porque nos enquadramos, pois temos o acervo técnico exigido para a realização dessas obras. Obras de licitação pública, onde as construtoras efetivamente entram nessa licitação, nos contratam exatamente por termos este acervo técnico. Como exemplo, as arquibancadas do Autódromo de Interlagos, da Empresa Municipal de Urbanização (Emurb), que exige qualificação para o desenvolvimento de projetos.

O mercado é carente de profissionais especializados nessa área?

Sem dúvida, a área de pré-moldados exige uma especialização maior. Mas a desvalorização de nosso trabalho e a queda de preços afastou por muito tempo o interesse dos profissionais pela área de cálculo. O boom que ocorreu entre o ano passado e o anterior fez ressurgir nos jovens profissionais o interesse pelo projeto, e nesse período, chegou a faltar tudo, até projetista. Também teve um outro lado, com muita gente sem boa formação que acabou entrando no mercado, o que acaba gerando projetos de baixa qualidade e por isso começaram a surgir muitos trabalhos na área de verificação de projeto. Temos sido muito procurados para esse tipo de trabalho, pois um projeto ruim pode gerar muitos problemas depois no canteiro, por isso as empresas optam por um trabalho de verificação.

Isso representa uma queda de qualidade do mercado?

Não há nada de mais em ouvir um outro profissional. Na Europa, a verificação chega a ser obrigatória, confere segurança e qualidade ao usuário. Não falo somente em termos de acidentes, mas de se evitar patologias que levam a retrabalho e custo, pequenos detalhes de flecha ou de fissuras que vão se refletir no desempenho da estrutura e nem sempre é por culpa dos profissionais. Há casos em que a construtora recebe um projeto sem procedência e ela precisa analisar a sua viabilidade. Isso tem acontecido em diversos segmentos, residenciais, comerciais, hotéis, indústrias. A procura por verificação tem crescido.

Através da verificação ocorre também uma seleção natural?

Através da verificação, vai ocorrer uma seleção natural do mercado, mas também vai acontecer um aperfeiçoamento natural, um incentivo aos profissionais para se especializarem. A melhora do mercado é um incentivo aos novos profissionais. Infelizmente, a crise modificou um pouco o cenário e alguns escritórios voltaram a demitir. Eu preferiria que houvesse um crescimento sustentável, menor e constante, para permitir a evolução gradual dos profissionais e dos escritórios.

Essa renovação tem acontecido, então?

Hoje eu sou um profissional jovem do mercado, principalmente se pensarmos em projetos de ponta. Fico feliz por estar atuando ao lado de concorrentes de muita experiência e de peso técnico, e, para isso, destaco a minha formação, a atuação no escritório do professor França e também o meu arrojo pessoal, de montar um negócio num segmento tão especializado como o dos pré-moldados.

Mas para montar um escritório, não basta apenas ter conhecimento técnico. É preciso também correr atrás dos clientes. Geralmente este não é o perfil de um projetista calculista, e acredito que tenho um pouco desse lado. Mesmo assim, muitos reclamam, acham que somos inflexíveis demais na parte comercial. Ainda guardo a cultura do cálculo exato, do pão-pão, queijo-queijo, mas é muito difícil manter um escritório, ter funcionário a pagar, impostos, custos, e é preciso ter um lado empresarial bem agressivo para sobreviver no mercado.

Que ferramentas informatizadas são usadas no seu escritório?

Durante muito tempo, não havia interesse em desenvolver softwares para essa área, dos projetos em pré-moldados, pois trata-se de algo muito específico. Existem programas estrangeiros, mas é algo muito caro, inviável para a nossa realidade. Muitos escritórios acabaram desenvolvendo programas com suas rotinas, o que também não servia para outros usuários. Só era possível fazer manualmente, utilizando no máximo o programa de Pórticos e planilhas em Excel. Assim, comecei a desenvolver junto com a TQS um software para projeto de cálculo com pré-moldados. O desenvolvimento levou um ano e agora estamos implantando o sistema no escritório. Hoje nós já conseguimos calcular um projeto inteiramente com o software. Eu acho que agora o programa da TQS vai suprir essa necessidade do mercado, não somente nossa, e vai permitir um grande ganho de produtividade.

O sistema poderá ser utilizado por outros escritórios também?

Sem dúvida. Eu não acredito nessa história de esconder o conhecimento, pois ele precisa ser difundido. Já pensava assim quando participei do livro da Munte e agora no software da TQS. Trata-se de algo genérico que pode ser implantado em outros escritórios. O importante é que permitirá a automação de vários procedimentos, aumentando a produtividade. E isso é fundamental para os escritórios, pois, com a crise no mercado, os preços também caíram. Então trata-se de mais uma evolução e acho que todos que quiserem podem aproveitá-la.