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Entrevista com o Prof. Dr. Ricardo L. S. França

Prof. Dr. Ricardo L. S. França - Edição Nº. 15 - Junho/01

Ricardo Leopoldo e Silva França é um dos coordenadores da revisão da norma de concreto estrutural, ao lado de Fernando Rebouças Stucchi e José Zamarion Ferreira Diniz. O trabalho iniciou-se em 1993 e, de lá para cá, tem envolvido uma extensa comunidade de profissionais de todos os estados. Um aspecto inovador deste trabalho é que ela vai reunir as normas de Concreto Armado, Protendido e Concreto Simples, justamente para acompanhar o processo de integração de sistemas e racionalização que se processou na construção civil nos últimos anos. Nessa entrevista, Silva França fala sobre os avanços da norma, que traz várias orientações já absorvidas por diversas construtoras. Conta também sua participação no desenvolvimento dos programas de cálculo e faz um alerta a quem pensa que é fácil empregar estas ferramentas. "Não diz ele, acrescentando que não se pode dispensar a experiência". Diz ele que os profissionais devem agregar valor ao projeto, concebendo soluções mais adequadas às novas necessidades do mercado e enxergando o empreendimento como um todo.

O senhor é um dos coordenadores da nova norma de Concreto Estrutural. Como está este trabalho?

Nós começamos a fazer o texto base em 1992 - eu e o Fernando Stucchi, pelo Cobracon, e o José Zamarion, que é o engenheiro de estruturas pelo CB 18, Comitê de Cimento e Agregados, que é engenheiro de estruturas. O Zamarion é uma pessoa que faz bem às duas faces, a área de projeto e de tecnologia. Nós temos trabalhado nisso. A Comissão foi aberta em 1993 e a nova Norma deverá reunir os itens referentes ao Concreto Armado, Concreto Protendido e Concreto simples, que antes se encontravam em normas separadas. Então, essa revisão deverá juntá-las em uma só.

Porque o processo está demorando tanto?

O que está acontece é que a dedicação ao trabalho de elaboração de normas é voluntária. Essas normas têm porte muito maior do que as outras, abrangendo 200 páginas e sendo bastante complexas. O ideal seria haver uma estrutura específica para isso, uma comissão permanente. Porque ficar a mercê do trabalho voluntário dificulta muito o trabalho. No ano passado, tínhamos terminado os trabalhos e divulgado as conclusões em vários Estados, com apresentações em várias cidades do Brasil. Com isso incorporamos várias sugestões. E os rumos acabaram mudando um pouco. Surgiu um financiamento para a realização de um livro a ser publicado pelo Ibracon e Abece, que vai trazer as aplicações da nova Norma. Por esse motivo, decidimos enxugá-la e transferir uma série de comentários para o livro. Há vários profissionais trabalhando nisso. Dividimos o trabalho e estamos coordenando o livro, que está na etapa final. Para isso contamos com o auxílio da Inês, uma engenheira do CB 18 e da ABCP, expert em acertar a linguagem e o texto. Ela está fazendo uma nova leitura para deixar o trabalho bem ajustado. Ou seja, estamos incorporando sugestões e tentando enxugar onde é possível.

O que mudou nesse processo?

Antes era uma Norma restrita a comentários, que agora saem do texto e vão para o livro. Muito embora tenha sido demorado, o processo acabou sendo, de certa forma, mais democrático porque ao longo desses anos acabou sendo amplamente divulgado ao mercado. Isto é, a comunidade teve amplo conhecimento da sua evolução. E por esse motivo, o trabalho já está de certa forma causando impacto no mercado porque uma parte das orientações já está até sendo seguida pelas empresas. Muitos profissionais já assimilaram tais informações.

Que tipo de orientações seriam estas?

O próprio programa da TQS incorpora alguns itens que compõem a futura norma, como os fatores Gama Z, Alfa, que não existem na norma atual. Uma série de questões dela estão sendo usadas e até estudadas. Assim como essas ferramentas, também os textos em sala de aula já estão refletindo o caminho da futura Norma. E o mercado, como o de São Paulo, já absorveu as idéias. Uma das grandes modificações que está sendo introduzida é a preocupação acerca da durabilidade das obras, fator crucial à prescrição de um bom concreto.

Quais são as características de um bom concreto?

Um bom concreto não é só aquele que tem resistência, algo que se imaginava antigamente. Hoje se entende que o concreto precisa ter resistência. E para se obter-se um concreto pouco permeável é importante verificar o fator água-cimento. É isso que vai garantir a durabilidade. Se não tivermos essa preocupação com a durabilidade hoje, teremos no futuro mais problemas do que já tivemos no passado. E, paradoxalmente, isso ocorre justamente porque houve uma evolução do cimento. Atualmente conseguimos fazer concreto com menos cimento do que antigamente. Então, se eu não pedir um concreto mais compacto, menos permeável, eu terei problema de durabilidade porque ele só vai garantir a resistência. Antigamente, mesmo com resistências mais baixas, o concreto não era tão permeável. No entanto, hoje, como o cimento melhorou, conseguimos fazer um concreto com menor quantidade de cimento. E, embora com mais resistência, ele tem más características quanto à deformabilidade e a durabilidade, o que está correlacionado ao fator água-cimento.

Essa preocupação já pode ser observada em São Paulo?

Sim. Essa prerrogativa já está refletindo-se no mercado de São Paulo, onde a resistência mínima que se usa normalmente é de concreto 20 Mpa. A tendência do setor é caminhar para resistências mínimas do concreto de 25 Mpa. E a origem principal dessa mudança não é a necessidade de um concreto mais resistente mas sim um concreto mais durável. Mas ao mesmo tempo isso ainda não está se refletindo no resto do Brasil. A função do concreto é essencial no sentido de proteger a armadura contra a corrosão, o que só ocorre enquanto o PH for alto e o concreto for bastante alcalino. Se o concreto for bastante poroso, muito permeável, existirá uma reação ou com gás carbônico ou com cloro, o que diminui o PH. Com isso, o concreto deixa de proteger a armadura e passa a haver a possibilidade de corrosão nessa estrutura, principalmente se estiver em regiões marítimas. Em toda a costa do Brasil, se não for priorizada a questão da durabilidade, pode haver problemas no prazo de cinco, oito, dez anos nesse sentido, pois a agressividade desse ambiente é maior e o processo é mais acelerado. Nesses lugares, é preciso pensar com urgência no concreto de resistência mínima de 25, 30 Mpa.

Então a nova Norma traz uma inserção mais ampla da utilização dos concretos?

Exato. Antes a gente pensava nos processos em separado. Hoje a visão é a de que se tratam do mesmo material. Agora começa a ser forte a introdução da cordoalha engraxada a um preço mais competitivo. A estrutura protendida tem pouca diferença de preço em relação às estruturas de concreto armado e pode até propiciar a garantia de melhor performance, em virtude da deformabilidade da estrutura. Oferece ainda melhor performance do concreto quanto a deformações. É o que apresenta de ganho principal. As cordoalhas estão se expandindo rapidamente em São Paulo e em outras cidades, como Fortaleza. Nesse caso, a revisão da Norma já vem contribuindo, porque está balizando todo esse processo. Em sua última versão, estamos fazendo uns ajustes finais nas questões relativas ao protendido.

O senhor considera que esse processo mostra um amadurecimento dos profissionais desse campo?

Eu acho que a engenharia estrutural evoluiu bastante nos últimos 10, 15 anos. Ela sempre foi uma das áreas de engenharia que se utilizou da informática. Desde as décadas de 70 e 80, o uso de computadores em projetos estruturais é muito grande. Tanto que o Nelson Covas trabalha com computação desde dessa época. Cheguei a trabalhar junto com ele na mesma empresa. O projeto de estrutura era feito por modelos matemáticos mais simples, porque havia ferramentas para isso, como pequenas máquinas de calcular. Depois chegaram os computadores pequenos. Já existiam programas que auxiliavam no cálculo. Só que a primeira geração de programas empregava a mesma metodologia de cálculo das pequenas calculadoras. Não dava para partir para processos mais elaborados porque os equipamento reproduziam o que se fazia na mão. Com a evolução dos microcomputadores e desses softwares, hoje temos ferramentas que são muito poderosas. Na década de 70, eram usadas só em grandes obras. Hoje temos ferramentas para projetar estruturas muito mais complexas, modelos muito mais elaborados. Então, com isso, cresceu a compreensão por parte de um grupo de engenheiros sobre o comportamento das estruturas.

O conhecimento dos engenheiros ocorreu em paralelo à evolução das ferramentas?

A possibilidade de usar estruturas cada vez mais esbeltas, mais arrojadas, trouxe um grande avanço tecnológico. A nova norma tem o papel de balizar quais são os procedimentos mais gerais que devem ser usados na utilização desses programas. Ela é diferente em vários aspectos porque tem de balizar uma nova geração de softwares mais complexos. Foi um processo que evoluiu e deve continuar evoluindo. Na verdade, o programa da TQS nasceu há 30 anos, na Maubertec, onde eu e o Nelson trabalhamos. É um produto que foi evoluindo e sua lenta gestação ampliou a compreensão sobre o uso dessa ferramenta no desenvolvimento do projeto. Duas coisas se juntam nesse software. Uma são os algoritmos e o processo de cálculo. Outra é a tomada de decisões. Vislumbra, por exemplo, a escolha do número de barras em uma viga de modo que as barras fiquem bem alojadas. São as decisões que o engenheiro toma no dia-a-dia e que exigem uma elaboração prévia para que o programa possa fazer o cálculo automaticamente.

Ou seja, o sistema tem uma certa inteligência, proveniente do próprio processo de desenvolvimento de projeto?

O sistema conseguiu traduzir a prática do dia-a-dia em algorítmos que podem ser colocados no computador. Por exemplo, quando o programa da TQS pega uma fôrma e dali gera um pórtico espacial, existe um roteiro a seguir: puxa como é que eu traço, qual é a ligação da viga, o que é eixo da viga com o pilar, e se a viga não chega no pilar, como vou fazer. Essa automatização requer um procedimento que não tem um começo, meio e fim claros. Porque é uma árvore de decisões feita pelo profissional. O software tenta reproduzi-la, deixando liberdade para o usuário alterar esse caminho, que são as parametrizações do programa. Hoje isso parece óbvio. Mas na década de 70, quando trabalhamos sobre essas questões, ficávamos horas, dias, semanas pensando: "poxa, como é que eu vou escolher a armadura, porque aqui nessa viga não cabe uma armadura mais grossa, tem de escolher outra. Ah, mas se a viga for mais larga é outro critério de decisão..." Ou seja, até chegar a essa padronização que foi possível no software, até chegar a esses algoritmos todos, existiu uma elaboração mental de cerca de 30 anos. Quem chega agora, não imagina o que foi esse processo.

Então esse software segue uma linha de raciocínio de desenvolvimento de projeto adotada pelos profissionais e é uma ferramenta facilitadora do processo?

Tem um outro lado da moeda que é muito perigoso. Porque, ao mesmo tempo em que a gente cresceu muito na compreensão, hoje a gente tem uma ferramenta bastante poderosa, é um carro que se for mal dirigido pode gerar grandes besteiras. Então é importante considerar o risco do uso de uma ferramenta como essa por um profissional despreparado. É muito comum um engenheiro novo aprender a usar o software de cálculo e pensar que já sabe tudo. Na verdade, aquilo é uma ferramenta de auxílio à decisão. Em vista disso, as escolas também precisam mudar. Tal instrumento exige um certo feeling, primeiro, para propor soluções factíveis; segundo, para olhar se as coisas estão factíveis. Em computação há um ditado antigo: "se entra lixo, sai lixo". Quer dizer, se desde a entrada o projeto estiver mal concebido, sai alguma coisa aparentemente boa, pois a cara da saída é a mesma para quem não entende. Isso, que acontece em todo o mundo, causa-nos uma enorme preocupação. Por isso é importante haver um estágio obrigatório para o engenheiro recém-formado aprender, na prática, com um engenheiro mais experiente e criterioso.

A ferramenta não elimina etapas do processo de aprendizado, então?

Claro. Na verdade, ela acaba tornando muito mais importante o aprendizado porque você tem na mão uma ferramenta muito mais complexa com muito mais discernimento. Antes o aprendizado era muito mais lento, porque exigia uma série de cálculos e com isso o profissional ia aprendendo a raciocinar sobre o que estava acontecendo. Era um exercício de linguagem. No processo atual, tudo ocorre ao mesmo tempo e a análise posterior disso é muito mais difícil. Então a tendência é pensar que se o computador calculou tudo certo e se o programa está bem testado, está tudo certo. As escolas têm de mudar a visão de como ensinam. De alguma forma a gente precisa ensinar os novos engenheiros a ter maior senso crítico no uso dessas ferramentas. Um engenheiro mais experiente olha uma saída de projeto e reconhece se tem algo de estranho. É o seu feeling que mostra isso.

Além disso, hoje existem novos materiais e soluções que exigem maior poder de avaliação. Isso é vislumbrado nas ferramentas?

Isto é outra coisa de que muitos não têm consciência. Acham que existe uma modelagem única, padrão e que o concreto armado só tem uma entrada e uma saída. É importante frisar que os programas de cálculo de projeto são aproximados, porque o funcionamento do concreto armado e protendido é muito mais complexo do que estas ferramentas conseguem analisar. A resposta real das estruturas de concreto é chamada resposta não-linear e o que os nossos programas, mesmo os mais sofisticados, fornecem são respostas aproximadas desse comportamento. Então, é preciso olhar e avaliar quando a resposta aproximada não vale. Na maior parte dos casos, é uma boa resposta, mas existem estruturas na qual aquela metodologia de análise não é boa. Assim eu preciso alterar uma série de parâmetros e interferir manualmente para que o programa dê uma boa resposta porque, dependendo da estrutura, a resposta pode não corresponder à melhor saída uma vez que o modelo utilizado pelo programa é um modelo aproximado. Então, para as estruturas mais padronizadas, o modelo aproximado dá respostas boas. O mesmo não acontece para o cálculo de deformações em que o modelo normal, chamado resposta linear, não garante uma resposta adequada. No caso das flechas de um pavimento por grelha, as respostas serão aproximadas, mas se a estrutura for muito esbelta, a resposta será longe da realidade. Por esse motivo, a própria TQS criou um outro modelo, o de grelha não-linear física que fornece respostas mais próximas da realidade.

Então há inúmeras variantes que precisam ser vislumbradas?

Este é um problema delicado, que os engenheiros precisam ter em mente. Mesmo um modelo de grelha não-linear vai dar respostas mais confiáveis de quais são os deslocamentos. se eu souber qual vai ser o módulo de resistência real do concreto e da resistência à tração que se vai ter na obra. O problema é que essas característica têm uma variabilidade muito grande. Ou seja, se eu construir 10 estruturas idênticas, uma em cada estado, utilizando o mesmo cálculo, a resposta será diferente. Porque a variabilidade real dos materiais é muito grande e não tão previsível como a gente imagina. Um engenheiro experiente, normalmente, já deu tanta cabeçada que sabe na pele que essa variabilidade é grande.

E como é que o engenheiro pode realmente contornar essa variabilidade, tendo em vista também a região em que se encontra?

Esse é outro alerta. Porque é preciso ter, para cada cidade, uma noção mais real de quais são esses valores tendo em vista as características dos materiais em cada região. Em São Paulo, o concreto é muito diferente de Campinas, por exemplo. As características de resistência do concreto, em termos de módulo de elasticidade e resistência à tração, são muito diferentes. Para um mesmo valor de resistência eu tenho valores muito distintos nos dois. Então, se eu for projetar na Baixada Santista, eu vou projetar esperando valores específicos de lá. Alguns fornecedores, para melhorar o concreto da Baixada Santista, levam agregados de São Paulo para lá a fim de conseguir melhorar as características do material que se fornece lá.

Esta Norma coloca todas estas questões para o mercado?

A norma fornece alguns parâmetros que são ordem de grandeza. Mas ao se projetar em uma região específica, realmente é preciso saber o que está acontecendo com esse concreto e quais são as características. Conforme a esbeltez da estrutura, eu tenho de usar um modelo mais preciso para calcular deformações. Se a estrutura for muito esbelta, ela deforma mais. Então, eu preciso buscar ferramentas mais precisas, do tipo grelha não-linear. Além disso, é preciso saber quais são as características reais da minha região, onde eu vou fazer essa obra. E é preciso fazer alguns alertas, em termos de cuidados na execução, que variam conforme o reescoramento, níveis de reescoramento, cura. Existem obras em que a cura é obrigatória. Ela sempre deveria ser obrigatória no concreto, porque é um processo que impede a evaporação precoce da água, o que piora as características do concreto durante o seu ganho de resistência, após ele ser moldado.

Em geral, esse procedimento não é obedecido?

Isso é um problema no Brasil. Porque a tendência de racionalização das obras levou a estruturas com menos vigas, mais limpas, mais fáceis de executar. Isso praticamente conduz a estruturas mais deformáveis. Então, é preciso melhorar as técnicas de cálculo dessas estruturas específicas. O modelo normal aproximado fica bom, mas precisa ser melhorado e ainda existe a variação do material e os cuidados na execução. É preciso atuar nas três fases: projetos mais elaborados, uso de material de melhor qualidade, ou que leve em conta o que as características do material local exigem e mais cuidado na execução. Essa visão conjunta tem de ser obtida, senão eu não consigo uma boa estrutura.

Então, o processo não é simplista. Exige várias análises do projetista?

Veja vem. É preciso ter mais controle e mudar processos de execução, algumas práticas arraigadas há muitos anos. Por exemplo, cura é uma coisa que o pessoal da obra não gosta de fazer, mas é essencial para o bom comportamento da estrutura. Como o reflexo não é imediato, não é visível, o pessoal pensa que não precisa e que a durabilidade é a mesma coisa. Então, é necessário realmente um aprendizado maior, uma verdadeira catequisação para mostrar que essas preocupações são importantes e a construtora precisa confiar mais no projetista. Aliás, isso foi algo que aconteceu. A gente perdeu um pouco, ao longo desse tempo, a autoridade na obra. Antes os engenheiros de cálculo eram muito mais respeitados, o que eles diziam a construtora acatava. Hoje o pessoal pensa que é muita exigência e procura outro profissional. A gente precisa reconquistar o nosso poder de influência, para dizer o que deve ou não ser feito. E como o problema não aparece de imediato, fica difícil depois ao construtor relacionar o problema de corrosão com o emprego de um concreto bastante compacto. Os próprios profissionais não sabem da relação causa-efeito. E como os cursos acabam não reforçando muito essa parte de durabilidade, o próprio engenheiro também não dá tanta importância a isso.

É preciso maior conscientização do mercado sobre esses problemas. Como minimizar essa deficiência?

A Abece tem procurado mostrar essa preocupação aos outros profissionais, mas ainda não existe a consciência geral sobre a complexidade da criação do projeto estrutural. E como a uma estrutura não se deve a um processo automático, o software não resolve tudo. As arquiteturas são diferentes. Cada vez mais, o desafio do projetista estrutural é entender o que os outros estão precisando. Porque hoje não é a melhor estrutura que vai dar no melhor produto final, a que vai se adequar e que permite o entrosamento entre todas as interfaces do projeto. A melhor estrutura hoje não é a mais econômica em si. O que se quer hoje é o edifício econômico. Não adianta ter uma estrutura ótima. Também o arquiteto precisa entender que não pode bolar um projeto de arquitetura que gera uma estrutura também ruim. Este é um casamento, uma fusão de idéias. Há uma idéia arraigada e obsoleta de que o arquiteto e o engenheiro atuam em áreas separadas. Mas já existem profissionais que fundem as idéias para desenvolver o melhor produto.

É preciso integrar o processo de elaboração de um projeto, visando um produto mais adequado às necessidades do mercado?

Hoje é essencial facilitar a manutenção de um edifício, por exemplo. Não adianta só dominar a técnica na estrutura. As grandes construtoras de São Paulo têm profissionais que entendem de técnicas construtivas, interfaces de arquitetura, instalações. É por aí que saem as soluções que melhoram o produto como um todo, com economia dos recursos, fácil manutenção e liberdade de lay-out. Nesse aspecto, há um problema chave que é a remuneração dos engenheiros. Quando os engenheiros e as construtoras entenderem que esse trabalho agrega valor a esse produto, os profissionais serão melhor remunerados. É preciso compreender que o projeto estrutural não é um mal necessário. Ele pode gerar maior produtividade, e permitir a satisfação do usuário final. Muitos ainda vêem o projeto de estrutura como um mal necessário.

A valorização do profissional depende da compreensão geral desses aspectos?

Na medida em que este ponto seja compreendido, vai dar margem para que os engenheiros trabalhem melhor. O projeto de estrutura representa 0,5% do empreendimento. Se este número representasse, por exemplo, 0,8%, isso já resultaria em um projeto com muitos mais recursos de economia, porque o profissional poderia se dedicar mais intensamente à concepção. Com um projeto melhor concebido, é possível cruzar os processo de planejamento e construção. A economia se faz ainda no processo de elaboração e não durante a obra. Eu acredito que essa percepção está evoluindo e que há maior espaço hoje para uma atuação mais profissional, que pense no todo, na integração entre os projetos.