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Aluguel de cérebros: “softwares”

Dr. Eng. Augusto Carlos Vasconcelos - Edição Nº. 16 - Fevereiro/02

O Homem sempre foi muito egoísta. De fato, sempre guardou com sigilo todos os seus inventos e realizações. Com essa finalidade, imaginou uma maneira de se precaver contra a "pirataria". Criou um registro de patentes, pelo qual, qualquer invenção estaria legalmente protegida contra cópias sem prévia autorização. Tal autorização seria concedida mediante um acordo, geralmente envolvendo algum pagamento. A isto foi dado um nome: pagamento de "royalties". Outra expressão comum é "direitos autorais". Tal egoismo é compreensível, pois decorre de muito dispêndio de energia mental e tempo de trabalho. Qualquer trabalho deve ser remunerado e o registro de patente representa um ganho de recompensa pelo trabalho desenvolvido. Se esse trabalho representa algo com o qual outros podem ganhar dinheiro, por que não gratificar o próprio autor pelo aluguel de suas idéias?

Uma gratificação desse tipo corresponderia ao aluguel de um imóvel, de um equipamento, ou de qualquer coisa que tenha custado dinheiro para sua obtenção. Ninguém discute a necessidade de pagar o aluguel de uma casa que está sendo ocupada por estranhos durante um certo tempo. Tal aluguel deve corresponder aos juros que seriam ganhos pela aplicação do valor equivalente ao do imóvel, em alguma atividade lucrativa.

E quando se trata de uma atividade cerebral ? Esta não envolve diretamente um dispêndio de dinheiro. Envolve, isto sim, um tempo de aprendizado, um tempo de dedicação a um trabalho intenso capaz de proporcionar algum ganho a alguém que use o resultado daquela atividade. Um professor, ao ensinar alunos numa classe, está aplicando o que já havia acumulado em seu cérebro, ao transmitir ensinamentos a outras pessoas. Isso envolve também o tempo dispendido na transmissão de conhecimentos, porém, muito mais do que isso, a transmissão de seu conhecimento.

O que dizer da preparação de programas para computador?

Essa atividade, da qual não se cogitava há 40 anos, constitui um trabalho exaustivo que pouca gente pode avaliar. Para ser um bom programador, é necessário possuir uma natureza toda peculiar: não ser afobado, ser minucioso, extremamente atento, desligado do ambiente em sua volta, não atender telefone, não ter horário para refeições ou para dormir, ser idealista, ser perseverante, não ser apaixonado pelo dinheiro, ter interesse no que está fazendo. Poucas pessoas reunem tais qualidades. Depois de verificar a pequena recompensa e, principalmente, a falta de encorajamento das pessoas diretamente interessadas, muitos desistem. Na verdade, o trabalho é tão ingrato, que dificilmente as pessoas conseguem estímulo suficiente para prosseguir.

Um "software" pronto não deve ser usado sem um programa exaustivo de testes que comprovem sua exatidão. As possibilidades são geralmente tão numerosas que é necessário testar a aplicação do programa em todos os caminhos e sinuosidades de seu fluxo. É possível que o número de horas desenvolvidas seja maior no teste do que na própria formulação do programa.

Quando se escolhe um bom marceneiro para fazer um móvel, não é difícil perceber que o profissional contratado é melhor do que outro, pelo capricho com que executa o trabalho, pela perfeição com que afia a ferramenta, pelo comportamento e pela dedicação. O "aluguel" de seu trabalho pode ser avaliado até mesmo por um leigo. Quando se encomenda um "software", é quase impossível julgar o nível do trabalho executado. O que se pode apreciar é apenas o modo de apresentação dos resultados, a maneira de entrada dos dados, a clareza com que se solicitam as informações com as opções muito bem explicadas. O tempo de execução quase não importa pois, com a velocidade de processamento dos computadores modernos, geralmente é menor do que o tempo que se gasta ao fornecer os resultados e ter que tomar as decisões. Um bom programa é aquele que deixa por conta do usuário a escolha de determinados procedimentos ao invés de incluir tudo sob a forma de "default", de modo que o usuário freqüentemente nem fica sabendo qual a escolha interna tomada...

Essa introdução foi necessária para se poder compreender o que este artigo tem em mira explicar. A evolução do setor de informática está cada vez mais rápida. Dentro de pouco tempo não mais teremos condições de pensar como agora. Nem teremos acesso ao que se explica neste momento.

Os engenheiros atuais que gostam de estudar procuram saber o que fazem os computadores, ainda que nunca venham a fazer qualquer conta com suas próprias mãos. Quando falo "com suas próprias mãos" quero explicar que isto significa "usar uma calculadora de bolso". Nem se pensa hoje em dia, fazer um cálculo "no papel"! Os engenheiros mais responsáveis, que obtiveram seus diplomas com merecimento e que, mesmo depois de graduados, venham a executar um projeto, tentam entender qual o procedimento seguido pelo programa que adquiriram. O que será feito com os dados que digitaram? Como os resultados foram combinados uns com os outros para obter os máximos esforços em cada seção? Como interpretar a suficiência das dimensões previamente fornecidas para que, com elas, fossem calculados os pesos próprios a serem adicionados às cargas fornecidas? Como foram calculados os consumos de materiais para julgar se o projeto foi sensato ou exagerado? Com tudo isto, o engenheiro consciente deve se preocupar e procurar repetir os processamentos com outros valores, melhorados, tomando por base os primeiros resultados obtidos. Isso deve ser considerado um aprendizado. O engenheiro só pode se considerar "formado" depois repetir este procedimento muitas e muitas vezes, até adquirir um "sentimento" a respeito do que fará a vida toda....

Insisto: o engenheiro, mesmo aqueles bem intencionados, nunca farão os cálculos manualmente, pois isto requer tanto trabalho e tanto tempo, que não haverá estímulo em fazer "um trabalho inútil"!

Como será o progresso ? A cada ano são incorporadas nas normas novas cláusulas com inovações, indicando também como corrigir erros anteriores só percebidos depois de publicados resultados de ensaios recentes. Estes são feitos em laboratório, em condições diferentes daquelas a que as estruturas reais estarão sujeitas. Os ventos constituem carga aleatória, baseada em registros esparsos que são generalizados. As estruturas estão orientadas em cada lugar em direções que podem não coincidir com a direção dos ventos dominantes. Por isso os programas precisam ser "rodados" para vários azimutes de atuação dos ventos, pois não se pode saber a priori qual a direção preferencial para cada obra. Quem faz atualização dos programas ? Só podem ser os próprios autores. É impossível para um programador estranho informar-se de todos os detalhes de um programa existente e modificá-lo sem implicações em outras partes do próprio programa. O programador precisa estar atento às modificações introduzidas pelas normas revisadas e atualizar seu trabalho. Só assim ele garante que seu "software" não ficou obsoleto. Seu trabalho não cessa nunca. Se ele deseja continuar vendendo seu programa, precisa mantê-lo sempre atualizado. É diferente do detentor de patentes. Sua patente é para tal produto sem qualquer alteração. Tem duração limitada que, depois de vencida, pode ser copiada sem penalizações. Nos "softwares" não existe tempo de validade. Quem vai definir se ele continua servindo ou não é a clientela. Se um programa não acompanhar o desenvolvimento, os clientes partirão para outros "softwares". Ele terá que se inteirar de como funciona o novo programa adquirido, mas nunca entrará no mérito do que está sendo executado.

Tudo isto serviu para esclarecer o seguinte: estamos partindo para uma situação em que os usuários não sabem ( ou não se interessam em...) fazer um programa. Seus conhecimentos se limitam a saber, no máximo, qual o processo seguido na programação e quais os resultados que se podem obter, conforme a opção escolhida. Eles adquirem um manejo eficiente e conseguem "rodar" o programa com grande velocidade, adquirindo enorme desembaraço na impostação dos dados. A cabeça pensante, entretanto, não é a dele. É a do programador, que conhece profundamente tudo o que se passa quando se dá o comando que permite "rodar" o programa. Ele entretanto, nunca adquiriu o desembaraço de "rodar" com rapidez o próprio programa, nem adquiriu o senso dos resultados obtidos, nem de como mudam os resultados quando se alteram os dados de entrada. São dois conhecimentos diferentes: um, conceitual, de conhecer o processamento; outro, de saber processar rapidamente. Um faz o programa e "aluga" seu conhecimento. Outro conhece todos os procedimentos de uso, quais as vantagens de um programa em relação a outros e adquire os direitos de usá-los.

O uso indevido de um programa chama-se "pirataria". Os detentores dos direitos de uso costumam introduzir senhas ou dispositivos de segurança, colocados na entrada do computador, sem os quais não se consegue "rodar" o programa. Mesmo assim já se descobriu como vencer essa barreira e fazer com que se consiga copiar um programa e "rodá-lo" em outro computador. Sempre existirá quem desafie as leis e passe a "alugar" os conhecimentos de alguém que se esforçou para desenvolver o "software" sem pagar o respectivo aluguel.... Assim caminha a humanidade.

Como será o futuro? Já se pode prever alguma coisa: algumas cabeças pensantes imaginam como fazer o cálculo de estruturas, mas não se dedicam ao treino de interpretação dos resultados ou à obtenção de melhores estruturas. Outros nunca aprenderão, ainda que não venham a fazer, como seria feito manualmente o que o programa executa. Sabem, entretanto, usar com maestria aquilo que adquiriu, podendo até sugerir alguns melhoramentos. Quem ganha mais? Impossível prever. O certo é que o "valor de mercado" dos serviços oferecidos é que determina o "valor da mercadoria". Os projetos serão considerados apenas uma mercadoria. Quem vender pelo menor preço, leva. Não importará muito a qualidade do que se vende. Como V. pode cobrar mais se foi feito tudo pelo computador? O cliente nivela tudo por baixo. Deixam de ser considerados os valores individuais. O profissional não faz nada, é o computador que faz tudo sozinho. O cliente chega a não reconhecer que o computador sozinho, sem ser carregado com um programa, não faz nada. Sem um operador eficiente, o computador também não faz nada. Se eventualmente existir um erro no programa, ou este for aplicado incorretamente, o resultado será fornecido, mesmo que seja completamente errado. Sem um julgamento eficiente de quem maneja a máquina, os resultados são apenas tinta impressa num papel ou apenas um quadro de arte gráfica.

Quando quiser alugar um cérebro, procure saber se ele é sadio, pois pode acontecer de você estar alugando uma casa cheia de vazamentos.