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Protensão Improvisada

Dr. Eng. Augusto Carlos Vasconcelos - Edição Nº. 12 - Dezembro/99

Jonatan Cravejani era um engenheiro que possuía uma intuição estrutural extraordinária e já tinha projetado numerosas pontes por todo o Brasil. Certa vez projetou uma importante ponte ligada a forte conotação política, no Paraná. Colocada em concorrência, a obra foi contratada com uma empresa competente e com um vasto currículo de pontes de concreto protendido. A obra foi tocada com grande velocidade, para satisfazer aos interesses políticos. Já estava marcada a data de inauguração. Na hora de protender os últimos cabos, o macaco de protensão “pifou”. O grande vazamento de água, impedia que fosse aplicada a protensão prevista. O mestre de obra, desesperado, comunicou o fato ao engenheiro que fiscalizava a ponte e que percorria periodicamente toda a região.

-- Doutor, o macaco está vazando e não consigo aplicar a protensão. Não vai dar tempo para pedir outro macaco, pois a inauguração está marcada para a semana que vem. O que eu faço?

-- Não quero nem saber, você que se vire! - e deu as costas.

O mestre tentou de tudo, sem sucesso. No final, pressionado, resolveu o problema da maneira que pôde. Amarrou o cabo na traseira de um caminhão que, aplicando a maior força que conseguia, esticou o cabo alguns milímetros. Então, com o martelo, cravou as ancoragens e deu-se por satisfeito. Finalmente a obra poderia continuar e obedecer ao cronograma. O cimbramento foi imediatamente removido para possibilitar a inauguração. Com tudo preparado para a solenidade, o concreto começou a trincar exageradamente em toda a extensão da ponte. Comunicado do fato por telefone, aflitíssimo, o empreiteiro Sérgio imediatamente ligou para Jonatan:

-- Jonatan, vá imediatamente ao Paraná consertar os erros do seu projeto!

Jonatan, responsável e cioso de seus trabalho, largou tudo o que estava fazendo, foi para o aeroporto e quatro horas depois estava na obra. Ficou horrorizado com o que viu. Trincas de mais do que um milímetro de abertura por toda a obra. Não podia acreditar no que via. Somente com o peso próprio do concreto, não poderia acontecer uma coisa dessas!

Abriu com uma talhadeira uma janela, em lugar por onde sabia da existência de um cabo. Rasgou a bainha e descobriu os fios paralelos do cabo (naquela época ainda não eram usadas as cordoalhas), sem qualquer injeção de nata de cimento. Com um martelo percutiu os fios:

-- Chocho. Muito chocho. Este cabo não está nem injetado nem protendido.

Conversando com o mestre, foi colocado a par de tudo o que aconteceu. Percebeu a gravidade da situação e imediatamente começou a resolver o problema, na própria obra. Desenhando alguns esquemas à mão livre, decidiu abandonar a colaboração de todos os cabos que não haviam sido protendidos, acrescentando outros cabos no seu lugar. Os novos cabos seriam externos, pois era impossível a substituição. Foi também estudada a fixação dos novos cabos e avaliada sua participação na recuperação da obra. Foi solicitada do empreiteiro Sérgio a remessa do aço necessário para a obra. Do resto ele mesmo cuidaria. Entrou em contato com a firma de protensão, solicitou por conta própria as ancoragens e os macacos. Nem voltou para São Paulo. Ficou durante uma semana na obra acompanhando e fiscalizando os reforços.

Em uma semana, os cabos estavam instalados e protendidos. As trincas se fecharam. Foi feita uma forma envolvendo os cabos à mostra e imediatamente concretada uma capa protetora que escondia as armaduras acrescentadas.

Só depois de resolvido o problema é que Jonatan voltou para São Paulo. Imediatamente telefonou para Sérgio. As primeiras palavras que ouviu foram:

-- A obra vai poder ser inaugurada na data prevista?

Duas horas depois de removidas as formas que escondiam os cabos suplementares foi iniciada a inauguração. Os políticos nunca souberam o que havia acontecido.

O empreiteiro Sérgio nunca perguntou a Jonatan quanto ele havia desembolsado na viagem, no hotel durante uma semana, na compra das ancoragens e no aluguel dos macacos. Entretanto, Jonatan espalhou até o fim de sua vida que Sérgio aplicava protensão com caminhão!