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Aprendendo a ser sensível

Eng. Rodrigo de Azevedo Neves - Edição Nº. 33 - Agosto/11

O projeto de estruturas é uma atividade que requer inúmeras habilidades do profissional que a executa. Sem destacar o sabido perfil gerencial que esse profissional deve apresentar, entre as várias exigências da profissão, certamente há de se incluir um vasto cabedal técnico para o candidato a calculista. Hoje o grande desafio de nossa profissão é tentar acoplar essas duas virtudes, sabendo dosar de maneira racional cada uma delas e construir um perfil técnico-gerencial.

Dentro da parcela técnica desse perfil, e deixando de lado os pré-requisitos óbvios da produtividade e habilidade para manipulação de pacotes comerciais, o maior anseio do mercado moderno é pelo profissional que tenha base conceitual suficiente para interpretar resultados emitidos pelos softwares. Hoje não há sentido algum pensarmos na execução de projetos estruturais, de qualquer material ou qualquer sistema estrutural, sem o auxílio de ferramentas computacionais. E isso é válido para quaisquer que sejam as etapas de projeto, tais como o lançamento estrutural, modelagem, análise, dimensionamento dos elementos, detalhamento e impressão de desenhos, pois seria um completo contra-senso do ponto de vista financeiro. No caso específico do concreto armado, com a evolução dos métodos de cálculo disponíveis e com as exigências normativas cada vez mais refinadas, tornou-se praticamente impossível realizar qualquer uma das tarefas anteriores sem computador. Cabe ainda mencionar que a diferença de produtividade entre o profissional que usa software e o que não usa é enorme, evidência que se torna mais latente à medida que o tamanho do serviço cresce. Enfim, o engenheiro de nossos tempos usa software, mas, sobretudo, deve ter embasamento teórico bom o suficiente para checar, compreender, questionar e validar resultados emitidos pelo pacote comercial utilizado pela empresa que o contratou.

Como conseqüência desses fatores, acredito que o foco do profissional moderno deve apresentar uma forte vertente conceitual. Mais ainda, a evolução desse profissional deve (ou pelo menos deveria) se basear muito mais na assimilação de conceitos do que na execução de roteiros pré-elaborados de extensos cálculos numéricos. Há de se deixar as tarefas repetitivas ao cargo dos potentes computadores que temos à nossa disposição e procurar entender que operações matemáticas eles estão realizando. Hoje a função do profissional de ponta é entender as soluções automatizadas e até, (por que não?), tentar melhorar processos, usando para isso a sua capacidade de raciocínio, habilidade que os computadores por enquanto ainda não têm.

Acredito que um estudo, com enfoque conceitual e exemplos simples, é suficiente para a compreensão dos fenômenos e processos com os quais se depara no dia-a-dia o calculista de estruturas. Nada melhor para o profissional em treinamento, ou mesmo para o experiente, do que fazer ele mesmo, de próprio punho, alguns cálculos ou desenhos. Porque não desenhar uma pequena planta ou um corte simples à mão? São simples atitudes como essa que farão com que o profissional adquira visão espacial e melhore a sua capacidade de compreensão e de leitura dos seus projetos. Considero as verificações à mão de suma importância para o bom entendimento do comportamento global e local da estrutura concebida. Com essa segurança no que faz, o engenheiro poderá abandonar os exemplos complexos e as extrapolações para grandes estruturas aos computadores e focar no objetivo essencial, que é a compreensão de todo o processo da maneira mais abrangente possível. Isso permite até, como conseqüência direta, melhora no senso crítico do profissional, que passa a ver o seu trabalho de maneira menos local e mais global.

Por fim, vejo de maneira positiva essa evolução. Em conversas com profissionais ligados ao meio universitário na área de Engenharia, percebo que alguns deles estão tentando, em vista dessa mudança de comportamento, deixar de lado o tradicional aprendizado por repetição e tentando usar uma abordagem do tipo conceito + prática para o ensino de matérias específicas. Nada contra as técnicas antigas (aquela repetição pura e simples nos fazia entender), mas creio que o refinamento dos processos modernos requer diferentes métodos de transmissão e de assimilação de conhecimento. A forte interação entre as equipes multidisciplinares de projeto e os prazos exigidos no século XXI não permitem múltiplos erros; é preciso identificá-los e minimizá-los. Acredito que só assim, com essa mudança de postura (do aprendizado por repetição para o enfoque mais conceitual aliado aos pequenos trabalhos feitos à mão), os engenheiros modernos conseguirão a sensibilidade dos antigos – aquela que desaparece aos poucos no papel milimetrado amarelado na prateleira – e que isso certamente auxiliará sobremaneira na formação do profissional que o mercado necessita hoje e vai necessitar cada vez mais no futuro.