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Apoios Fissurados

Dr. Eng. Augusto Carlos Vasconcelos - Edição Nº. 13 - Maio/00

Outro caso surpreendente surgiu no final da construção de uma modesta ponte de concreto protendido de 110 m de comprimento total, no interior do estado de São Paulo. Uma conceituada firma empreiteira de pontes, sabendo ser sempre possível melhorar os projetos oficiais das concorrências, contratou um escritório de projetos para estudar um projeto variante mais vantajoso. A firma de projetos aceitou o desafio na base de “risco”, em que só receberia as despesas no caso da firma empreiteira não ser a vencedora. Sendo vencedora, receberia a incumbência do detalhamento completo pelo preço estipulado na tabela de honorários, ficando as despesas iniciais embutidas no contrato final. A transformação do projeto oficial de concreto armado para concreto protendido, com um tramo a menos resultou numa vantagem de cerca de 20%, o que permitiu vencer com folga a concorrência. O projeto variante consistiu numa viga contínua protendida de 3 tramos de 32 m e dois balanços de 7 m, resultando o mesmo comprimento total de 110 m. A viga simétrica sobre 4 apoios resultava, hiperestática, com um hiperestático de protensão. Isto, no início da década de 60, representava um grande acréscimo de trabalho de cálculo. Foi possível, graças a um aprimoramento de cálculo não usual, manter os quantitativos previstos na concorrência.

Terminada a obra, antes mesmo de completados os acessos, surgiram junto aos apoios centrais umas trincas na borda inferior do concreto. Todo mundo sabe que, junto aos apoios centrais, mesmo com o efeito do hiperestático da protensão, só existem momentos negativos, Na borda inferior, portanto, só podem aparecer tensões de compressão. Os cálculos mostravam a existência de tensões extremas de compressão, na ponte vazia, ainda sem pavimentação, com a protensão inicial, entre os limites de 28 e 50 kgf/cm2. Como poderiam surgir fissuras com toda essa compressão? Um dos sócios da firma de projeto deslocou-se até o local da obra e, com muita dificuldade, conseguiu subir ao tabuleiro, ainda sem acesso. De lá, colocando o corpo para fora do guarda-corpo, com alguém segurando suas pernas para não cair na água, conseguiu fotografar as trincas e os pilares. Discutindo com os colegas de escritório, após sua volta e com as fotografias já reveladas, um fato lhe chamou a atenção: não existia qualquer separação entre o topo do pilar e a viga. Provavelmente, o aparelho de apoio de neoprene havia ficado imerso no concreto e estava ali embutido e sem ação!

caso quase se transformou em polêmica. A firma empreiteira, para se eximir de multas, afirmava tratar-se de erro de projeto. O orgão público exigiu um relatório justificativo da projetista, que preparou um laudo minucioso de verificação com 12 páginas, pelo qual ficava justificado o cálculo, rigorosamente dentro das normas brasileiras PNB-116 ( recém emitida a título experimental) e, nos casos omissos, em obediência à DIN 4227. Defendido o projeto, ficou o caso arquivado, não se podendo atribuir a culpa ao projeto. Permaneceu, entretanto, a dúvida: por que teriam aparecido as fissuras?

Muitos anos mais tarde, em uma reunião no Instituto de Engenharia, onde eram contadas ocorrências curiosas em obras, o engenheiro da empresa empreiteira, já desligado do seu posto, contou que, no início da construção de uma ponte, haviam sido entregues no escritório de obra umas placas pretas de borracha. Essas placas pretas, que eram os aparelhos de apoio de neoprene, ficaram esquecidas, até que, desmanchado o barracão com o término da obra, foram encontradas. Alguém perguntou ao mestre: o que são estas placas? A resposta do mestre foi: “Não tenho a menor idéia. Estas placas chegaram logo no início da construção e nunca foram reclamadas. Não sei para que servem!”

Estava explicado o motivo das fissuras: os aparelhos de apoio não foram colocados. A superestrutura havia sido concretada diretamente sobre os pilares, ficando monolítica com os apoios. O deslocamento que devia ser proporcionado pela deformação da borracha, não pode se realizar senão através da fissuração do concreto.

Como a obra ainda era nova, a retração não poderia ter alcançado seu valor final de 0.25 mm/m. Para um valor menor, por exemplo, 0,1 mm/m, no vão de 32 m com apoios indeslocáveis, a viga de 32 m ficaria 3,2 mm menor. Isto acarretaria alguma fissura nos pontos em que os cabos de protensão passavam da borda inferior para a borda superior. Foi exatamente na seção em que os cabos atravessavam a linha neutra que se observou a fissuração. A tração centrada, devido à retração, foi suficiente para anular a compressão existente na borda inferior e provocar tensões de tração na estrutura solicitada, exclusivamente pelo peso próprio do concreto e pela protensão inicial.

Como teria sido fácil preparar o laudo explicativo se essas informações tivessem sido dadas naquela ocasião! Quanto trabalho e despesas de viagem e alojamento teriam sido economizados se a firma empreiteira tivesse contado a verdade! É possível até mesmo que a firma empreiteira, mais preocupada com cronogramas e fluxos de caixa, nem tenha tomado conhecimento de tais fatos. Se o engenheiro fiscal nem percebeu a ausência de aparelhos de apoio, o que se pode falar a respeito do acompanhamento da obra? Com um mestre que nem sabia o que eram “aquelas placas pretas”?!

Acreditem se quiserem: isto aconteceu de verdade, com uma grande firma empreiteira num dos estados mais importantes da Federação. Quem mais sofreu e teve que se defender e provar que o projeto estava correto foi o projetista. Se o cálculo estivesse incompleto, ou se não obedecesse a alguma cláusula ínfima da norma, ele estaria perdido! É muito raro não haver alguma infração à norma e isto não tem a mínima importância enquanto não aparecerem falhas. Neste caso, a culpa de qualquer defeito é da desobediência às prescrições regulamentares, mesmo que nada tenha a ver com as ocorrências observadas.