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Treliças Onduladas

Dr. Eng. Augusto Carlos Vasconcelos - Edição Nº. 12 - Dezembro/99

Outro caso aconteceu em Florianópolis com o engenheiro projetista Armando Augusto. Ele era quase recém formado, com apenas dois anos de atividade. Um ano após sua formatura, havia montado escritório em São Paulo e foi apresentado a um arquiteto que estava começando a se projetar. O arquiteto Rivera queria um engenheiro que ficasse no seu ateliê durante a concepção do projeto, orientando, sugerindo e verificando a viabilidade de suas idéias, que escapavam totalmente à rotina dos projetos usuais. Após estabelecido o projeto, os cálculos poderiam ser feitos no escritório do próprio Armando, porém dos desenhos se encarregaria a própria equipe de Rivera. Armando, em princípio de carreira, achou tal convite maravilhoso, ainda que seu nome nunca aparecesse nos projetos. Teria serviço garantido e ganharia seu trabalho sem necessidade de despesas com desenhistas externos. Tudo aconteceu às mil maravilhas. Concebida a estrutura, os arquitetos definiam e completavam o projeto, e Armando receberia as plantas de arquitetura com a estrutura já definida, podendo desenvolver os cálculos em seu escritório. À medida que os cálculos iam ficando prontos, Armando os levava ao escritório de Rivera e orientava seus arquitetos para a confecção dos desenhos, que também verificava. Não poderia existir oportunidade melhor numa fase em que seria tão difícil conseguir clientela ! Armando fez muitos projetos junto com Rivera, sendo seu único calculista. Um desses projetos foi um cinema em Santa Catarina. Era o maior cinema da cidade e a sala de espetáculos possuía 22 m de vão máximo. Esses vãos eram vencidos por meio de 13 treliças de madeira. Nas proximidades da tela, o vão se reduzia para 15 m. As treliças eram constituídas de painéis de 2 x 2 m com diagonais. Trata-se de uma treliça banal sem dificuldade alguma de cálculo. Entretanto, Rivera impôs uma condição: o tramo central da treliça, que possuía sempre um número impar de painéis 2 x 2 m, não poderia possuir diagonais, pois seria usado para passagem do duto de ar condicionado. Os arquitetos sempre criando dificuldades para os projetistas!

Depois de muito pensar, Armando, ainda pouco experiente, porém com sólido conhecimento de estática, pensou que a parte central, ainda que muito solicitada por momentos, possuísse forças cortantes muito pequenas. Essa parte central poderia ser concebida como uma viga-vagão intercalada na treliça: seu tramo superior teria 6 m e o inferior apenas 2m. As diagonais laterais e o banzo inferior seriam o tirante da viga-vagão. O único cuidado consistia em evitar emendas das táboas de madeira nos 6 m superiores. Assim foi feito e detalhado pelos arquitetos de Rivera. Tomou-se o cuidado de criar nos nós da treliça uma peça de chapa metálica em forma de T. Dobrada essa chapa em três linhas, ela assumia a forma de uma cadeira e foi apelidada de “cadeirinha”. Todos os nós eram enrijecidos pelas “cadeirinhas”. Nunca havia sido feito nada parecido. O sistema funcionou muito bem e, graças a isso, evitou-se um grande desastre, como se mostrará a seguir.

As táboas selecionadas, sem falhas, eram escolhidas uma por uma e montadas no próprio canteiro de tal maneira que as treliças pudessem ser instaladas sem equipamento especial, levantadas apenas na vertical em sua posição correta.

Certo dia, Armando recebeu uma telefonema do arquiteto Rivera, pedindo-lhe que fosse à obra verificar algo estranho que estava acontecendo na cobertura já pronta do cinema. Era urgente porque o cinema seria inaugurado na semana seguinte. Não é necessário explicar que o engenheiro Armando se muniu de todos os rascunhos de cálculo e foi imediatamente para Florianópolis. Foi sozinho, sem nenhum acompanhante do escritório Rivera, e se dirigiu diretamente à obra onde procurou o engenheiro que acompanhava a construção. Este o levou à cobertura, onde, com auxílio de uma lanterna, pôde examinar por baixo das telhas, num calor escaldante de verão, o que estava acontecendo. Os banzos superiores das treliças estavam ondulados como uma senóide. O pensamento era de que se tratava de flambagem. Armando ficou desesperado, imaginando o teto caindo por cima dos espectadores no próprio dia da inauguração. No próprio canteiro da obra, reviu os cálculos, procurou justificar a flambagem e não conseguiu compreender o que estava acontecendo. A segurança das peças comprimidas contra a flambagem era enorme, até mesmo no meio do vão, onde a compressão era máxima. A suposta flambagem estava acontecendo até mesmo nas proximidades dos apoios! Sem refletir mais, começou a resolver o problema, reforçando os trechos mais encurvados, colocando talas de madeira em ambas as faces, apertando-as bem com parafusos de 3/8” atravessando todas as táboas. Para melhor garantia contra a suposta flambagem, ainda foi previsto um tirante, com roscas nas extremidades, ligando os centros de cada barra comprimida de uma treliça com o ponto correspondente da treliça adjacente. Era um contraventamento adicional, além dos já existentes nos nós das diversas treliças. Com tal reforço, ficaria descartada a possibilidade de o teto inteiro desabar.

Depois de feito o reforço em todos os pontos onde se notavam as ondulações, foi feita uma vistoria minuciosa em todo o telhado. Grande surpresa surgiu ao examinar as treliças menores que cobriam a região do palco.

Quando foi feito o cálculo, Armando havia verificado todas as treliças do telhado e adotou por uniformidade o mesmo dimensionamento para todas elas, desde as de 22 m até as de 15 m. À medida que o vão diminuía, os painéis de 2 x 2 m eram mantidos invariáveis, variando apenas os painéis junto aos apoios. Conforme o vão, tais painéis, sempre com a mesma altura de 2 m, iam se estreitando para 1,5 m, 1,0 m e 0,5 m. As diagonais desses painéis iam ficando cada vez menos inclinadas. Na obra, ao serem executadas as treliças, o engenheiro que acompanhava a execução, nem notou que os operários não colocaram a diagonal numa das treliças com o painel de 50 cm. O pior aconteceu: a treliça foi montada, ligada com as outras, carregada com o forro, com as telhas, e ninguém percebeu. Na vistoria, Armando constatou o erro e notou que o painel estava bastante distorcido. As barras horizontais de 50 cm dos banzos inferior e superior, apresentavam a forma de um S com deslocamento vertical de quase 10 cm ! Alguém procurou corrigir o defeito mediante improvisação de uma escora inclinada que se apoiava numa viga de concreto, próxima ao coroamento das paredes. A escora de madeira se encaixava no nó inferior da treliça, impedindo que a deformação aumentasse ainda mais. Armando ficou horrorizado com o que viu. Aquilo era muito mais grave do que o motivo aludido para sua ida a Florianópolis. Aquilo sim, poderia causar uma catástrofe.

Aflitíssimo com o defeito, procurou qualquer meio de consertá-lo. Para isso, teria que desmanchar o telhado. Não haveria tempo para isso. As cadeiras da platéia já estavam sendo colocadas. A inauguração aconteceria de qualquer maneira. O fato estava consumado e nada poderia ser feito. Pensou em realizar a diagonal omissa, substituindo-a por um tirante de aço que seria aparafusado nos nós da treliça. Esse tirante, entretanto, diminuiria a seção resistente do nó, já seriamente comprometido com a distorção. Tal tirante não teria condições de restaurar a linearidade inicial do banzo, a não ser sob risco de destruir o equilíbrio já precário do nó. De qualquer forma, o serviço só poderia ser realizado após a inauguração, sem que a imprensa soubesse, para não “levantar a lebre”.

Desistindo de intervir naquele ponto que, aparentemente, estava resolvido e estável, Armando ficou na obra até que ficasse completo o serviço de reforço que havia indicado. Nesse ínterim, conversando com os operários que ainda estavam trabalhando na obra, ouviu de um deles o seguinte comentário:

-- Doutor, para mim o que aconteceu não tem nada a ver com o projeto. Durante a montagem das treliças, houve um grande vendaval. Estavam já no lugar três treliças escoradas com cordas, ainda não contraventadas. Com a vibração provocada pelo vento, algumas cordas se soltaram, e uma das treliças tombou sobre a vizinha, que também tombou e as três caíram ao chão, ficando deitadas com uma barriga enorme. Ainda seguradas pelas cordas, puderam ser novamente aprumadas e aproveitadas. São aquelas três treliças que apresentaram as ondulações percebidas. As outras não. Quando elas sofreram aquela barriga enorme, os parafusos dos nós devem ter ficado retorcidos e os furos nas táboas esgarçados. Quando foram novamente retificadas, não se percebeu mais nada, e assim foram novamente montadas. Entretanto, quando foram carregadas com forro e telhas, os parafusos voltaram a se ajustar nos furos esgarçados, permitindo assim que surgissem aquelas ondulações.

Estava explicado o motivo o defeito. Quem esclareceu tudo foi um operário. O engenheiro da obra não percebeu nada do que estava acontecendo, ou, para não declarar sua incompetência, mandou chamar o responsável pelo projeto. O coitado do Armando se afligiu, gastou mais dinheiro do que havia recebido pelo projeto, perdeu uma semana de trabalho em seu escritório, e ninguém do escritório Rivera lhe perguntou o que teria acontecido e como resolveu o problema!