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O conceito de sustentabilidade

Eng. Augusto Carlos Vasconcelos - Edição Nº. 28 - Janeiro/09

A palavra “sustentabilidade” surgiu de repente na língua inglesa com sustainable development. A tradução para o português induz o leigo que a aplica à engenharia, ao conceito errado de “capacidade de suportar cargas”. O conceito não surgiu na engenharia. Trata-se de uma aplicação a qualquer ramo de investimento humano: comércio, finanças, medicina, biologia, ecologia, agricultura, arquitetura e... engenharia.

Quando se fala em “desenvolvimento sustentável” procura-se imaginar que a atividade a que se refere seja, principalmente, durável. Deve, igualmente, ser bem aplicável às gerações futuras que a utilizarão: locação de um imóvel, remédios com grande prazo de validade, tratamento médico válido até o fim da vida do paciente, obras de engenharia satisfatórias ao longo do tempo sem necessidade de reforços por deterioração. O conceito, entretanto é ainda mais amplo: não deve alterar a vida do entorno da construção. Isto necessita de uma explicação mais minuciosa.

O exemplo mais notável de desenvolvimento sustentável está, a nosso ver, na obra do “grande cinturão da Dinamarca”. Esta obra liga Copenhague na Dinamarca a Malmö na Suécia. Como é muito extensa, procurou- se um traçado que aproveitasse um apoio no meio do trajeto, na ilha Saltholm existente. Acontece que essa ilha é um “santuário das aves” que ali vivem protegidas de depredações. A construção de suportes da ponte na ilha, provocaria uma migração das aves para outras partes, sem possibilidade de retorno. Isso prejudicaria a vida em toda a região, influindo até mesmo no desenvolvimento de peixes e mariscos. Por esse motivo ecológico, foi construída uma ilha artificial, não muito longe da ilha existente, que seria um apoio na transição entre um túnel sob o estreito de Sund e a ponte estaiada que atinge Malmö. Isto custou alguns milhões de Euros a mais no conjunto das obras. Outra providencia ecológica foi de não executar o apoio da ponte no mar junto a Copenhague para não destruir o principal alimento de mariscos e ouriços do mar, subsistência dos peixes da região. Este é o máximo exemplo de desenvolvimento sustentável em engenharia.

Outros exemplos ocorrem na agricultura em que os alimentos transgênicos podem constituir uma ameaça à vida das plantas naturais em conseqüência da competição artificial. A agricultura sustentável estuda os sistemas que possam durar indefinidamente, usando apenas a energia solar. Parques industriais, que se tornam de tal modo congestionados que não conseguem mais crescer em tamanho e complexidade, necessitam de um estudo que evite seu colapso. A exploração de reservas não-renováveis, como petróleo e florestas milenares, deve ser feita na medida certa para evitar, de um momento pára outro, sua extinção sem que exista uma alternativa de uso. É por isso que se estuda com tanto interesse a substituição da energia do petróleo por formas alternativas de energia: etanol, eletricidade, gás do carvão.

Na engenharia, o projeto começa com a arquitetura responsável pela não agressão à natureza. É o exemplo da Via dos Imigrantes entre São Paulo e Santos, em que se procurou atingir um local de difícil acesso, por estradas percorridas por veículos pequenos transportando materiais a granel e de pouco peso. Com isso, a destruição da Mata Atlântica seria facilmente recomposta naturalmente com o tempo, sem intervenção humana. Daí a necessidade de tantos túneis, não somente com o objetivo de encurtar o percurso. O mesmo se pode dizer do esgotamento das reservas de peixes, crustáceos e corais. Sua destruição pode tornar irreversível o retorno ao estado anterior, onde a própria natureza encontrou novos caminhos para a vida.

A mudança do clima no planeta pode ser causada por atividades de desenvolvimento não-sustentável. O lançamento de CO2 no ar pelas industrias, principalmente pela indústria do cimento, tem provocado alterações na composição do cimento, visando menor consumo de energia com adições de pozzolana e escória moída de alto forno. Os cimentos de hoje não são melhores do que os cimentos de 50 anos atrás, mesmo tendo propriedades benéficas como menor retração, maior resistência a curto prazo, menor sensibilidade a expansões nocivas. Com tais providencias, é reduzido o consumo de cimento e, portanto, as emissões de carbono, que influenciam as condições climáticas e o aquecimento global.

O termo sustainable development foi introduzido em 1980 pela Organisation for Economic Co-operation and Development - OECD mas só entrou em domínio publico 7 anos depois, através de um relatório da World Commission on Environment and Development - WCED.