|
Eng. Rodrigo de Azevedo Neves - Edição Nº. 27 - Julho/08 Nossa profissão está no meio de uma grande transformação. Profissionais com muitos anos de prática, pelo menos uns 30, já devem ter presenciado movimento semelhante. Porém aqueles com menos de 20 anos de formação (inclusive eu) sempre foram acostumados, por força de épocas de poucas esperanças, a encarar a Engenharia como o grande patinho feio das profissões. Durante a faculdade, ouvi inúmeros relatos de colegas cujos pais e amigos aconselhavam- nos a trancar a matrícula do curso para, em seguida, prestar vestibulares mais promissores, tais como medicina e direito. Sem querer fazer pouco caso de alguém ou de alguma profissão, vi que vários deles cederam às pressões e realmente fizeram isso, fosse pela escassez de perspectivas que a carreira lhes apresentava, ou quaisquer outros motivos menos nobres. Essas pessoas talvez não tenham demonstrado a verdadeira vocação para os cálculos e matérias mirabolantes que à época se apresentavam. Outros insistiram. Desses tantos, grande parte cedia aos encantos das carreiras em instituições bancárias, cujos vencimentos dos estágios, já durante o curso, faziam vislumbrar futuros profissionais financeiramente muito mais promissores. No final da década de 90, a relação candidatos/vagas nos vestibulares diminuiu. Como exemplo, na EESC - São Carlos, uma das escolas de ponta do país, foram registrados 4,3 candidatos por vaga no ano de 1997 para o curso de Engenharia Civil. Na Escola Politécnica da USP, outra gigante, em 1999 uma vaga na Engenharia Civil foi disputada por apenas 9,45 candidatos. Além disso, naqueles anos, os poucos Engenheiros formados migraram, em número considerável, para outras áreas do conhecimento. Cursar Engenharia Civil nos anos 90 foi complicado e pouco promissor. Aqueles com idade entre 30 e 40 anos deverão estar de acordo com o meu ponto de vista. Porém, hoje, percebo que alguma coisa mudou. A tão comentada explosão imobiliária finalmente está em curso, a pleno vapor, motivada por inúmeras ofertas de crédito, que impulsionam o cidadão comum e pagador de impostos a adquirir financiamentos e possuir a tão sonhada casa própria. Longe de pretender entrar em questões de economia ou política, (apenas emitindo uma opinião pessoal) creio que, de certa forma, a maneira como algumas questões dessa natureza vêm sendo conduzidas, está trazendo benefícios diretos para a nossa classe. Muito me satisfaz ver reportagens de revistas de tiragem nacional exaltando a hora e a vez dos Engenheiros. Ótimo para a geração de profissionais em atividade. Muitos dos antigos chegam a comparar o “boom” atual com os milagres econômicos acontecidos anteriormente, ou com alguns rápidos momentos vividos durante os idos dos anos 80. Ver a motivação dos estagiários ao visitar uma obra, ou a sua esperança de contribuir para o crescimento do país, é contagiante, no sentido estrito da palavra. Mais ainda, as perspectivas futuras parecem promissoras: segundo pesquisa publicada na Revista Veja, na matéria “Contratados desde a faculdade” - 19/3/08, o nosso país forma atualmente apenas 1/3 dos Engenheiros que serão necessários para cumprir a demanda em um prazo de 4 anos. A mesma revista, em sua edição local em São Paulo, trouxe uma reportagem de capa no dia 12/3/08 sobre o excelente momento que a nossa profissão atravessa. Sem o anseio de questionar a qualidade ou parcialidade da informação, ou mesmo a exatidão dos dados, como alguns poderão fazer, confesso que jamais havia presenciado meios de comunicação em massa enaltecendo os Engenheiros nacionais. Sinto-me feliz com a situação e vejo que os que estão ao meu redor exibem e compartilham entre si um grande sentimento de que o “pior já passou”. Dessa maneira, a atmosfera positiva que estamos vivenciando vem para resgatar o orgulho de uma das mais importantes profissões, a considerar o ciclo de crescimento de um país. Digo isso porque nenhum daqueles que são hoje os grandes países desenvolvidos assim se tornou sem antes formar uma competente e sólida base de profissionais de Engenharia, através da criação e manutenção de escolas da mais alta qualidade. Não há como construir um grande país sem que haja excelência em Engenharia. Se o momento econômico aponta que o Brasil poderá em breve integrar o grupo dos desenvolvidos, ele precisa, com a máxima urgência, formar uma grande quantidade de Engenheiros de qualidade, para que amanhã não tenhamos de cometer o pecado de importar profissionais que poderíamos ter formado aqui. Enfim, a mim parece que a euforia interna permanecerá por um tempo maior do que se imaginava no início. Espero sinceramente, como profissional e muito mais ainda como cidadão, que os anos pouco proveitosos nos tenham feito de fato aprender a lição e que dessa vez a Engenharia tenha entrado em um ciclo duradouro e auto-sustentável, para que assim possamos construir um grupo cada vez mais coeso e respeitado de profissionais, dentro e fora do país. Eng. Rodrigo de Azevedo Neves França & Associados Engenharia, São Paulo, SP
|