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Acidentes e desabamentos

Prof. Dr. Augusto Carlos Vasconcelos - Edição Nº. 24 - Fevereiro/07

Em qualquer profissão existe a probabilidade de ocorrência de acidentes. Acidentes em operações cirúrgicas aparecem freqüentemente nas manchetes. Ora são casos de choques anafiláticos, ora de rejeições em transplantes, ora de sensibilidade a certos medicamentos. Raramente se nota a existência de erro médico. No máximo, há ocorrência de omissões.

No campo jurídico, advogados bem intencionados raramente interpretam inadequadamente uma lei. São as próprias leis, mal redigidas, que são margem a ambigüidade de interpretações. Os inescrupulosos ganham a vida com interpretações duvidosas e as defendem com grande categoria. Um acidente jurídico é a condenação de um inocente ou o bloqueio de seus bens, às vezes, por interesses particulares de certos clientes. Ou o inverso: a libertação de facínoras sob pretexto de “falta de provas”.

Na engenharia, os acidentes são revestidos de um clima psicológico que comove toda uma população. Isto porém só acontece quando há mortes envolvidas no acidente. A imprensa tem verdadeira fascinação em divulgar detalhes da miséria alheia e, sem se importar com as conseqüências do que afirma, muitas vezes levianamente, coloca uma classe inteira de profissionais bem intencionados no banco dos réus.

As conseqüências do desastre do Palace 2, ocorrido no Rio, são muito mais terríveis do que se imagina pelo quadro apresentado nos jornais. Quem, depois de tudo o que foi divulgado, terá coragem de colocar seus sonhos de vida numa compra “na planta”, sem ter condições de avaliar corretamente a construtora, o projetista, o órgão público que aprova o projeto, a fiscalização? Ele, que é leigo, ainda pensa que “o cálculo de um prédio consiste na determinação da quantidade de sacos de cimento ou de toneladas de ferro” usados na construção. Que pensa em controle tecnológico como a fiscalização do número de horas de um operário na realização da tarefa! Acha que a qualidade da obra se mede pela perfeição das superfícies acabadas de paredes ou pela colocação irrepreensível de azulejos!

Ninguém sabe que quase sempre os serviços contratados são avaliados exclusivamente pelo preço. Quem oferecer o preço mais baixo leva. Às vezes, vale também o tempo de execução. Uma redução do tempo vale muitas vezes mais do que uma pequena diferença de preço.

Em matéria de projeto, uma rapidez excessiva significa perda de controle ou verificação. O que se economiza numa obra de milhões de reais? Um projeto mal conduzido pode ser mais barato que outro criteriosamente estudado. Pode mesmo apresentar menor consumo de matérias, e tem sido freqüentemente a chave para a decisão. O único elemento que não entra em cogitação é a capacidade profissional. “Dei o projeto para ele, porque devo favores ao seu pai” é uma frase que se ouve sempre. Frases como “Dei o projeto para ele porque, além de sua reconhecida competência, sua solução me pareceu melhor e mais segura do que as dos outros” são raramente ouvidas.

Não se pode modificar a humanidade. Falhas vão continuar a surgir enquanto não houver fiscalização severa do que se pretende fazer e do que está sendo executado. A palavra mágica é:

Controle de qualidade

Quando alguém pretende construir algo, possui um plano de suas intenções e um limite para seu investimento. Contrata um arquiteto que imagina uma maneira de realizar aquelas intenções. Se o arquiteto não possui especialização técnica no que pretende propor, seja uma estrutura metálica, seja de concreto em suas várias modalidades, deveria recorrer a um assessor estrutural. Isto ocorre algumas vezes, ainda que não com freqüência. É geralmente um serviço gratuito, na promessa de contratação do serviço de projeto estrutural. Outros assessores são, por vezes, indispensáveis: instalações, acústica, vibrações, conforto térmico... Se tudo acontecesse como seria desejável, os projetos sairiam “satisfatórios”. Vem depois a odisséia da aprovação por parte dos órgãos públicos. Dezenas de pequenas críticas são levantadas, algumas vezes por puro “capricho”. Entendam como quiserem...

Aprovado o projeto arquitetônico, vem o projeto executivo: cálculos estruturais, canalizações diversas, acabamentos, interferências. O conjunto todo é o que se chama “projeto executivo”. Os órgãos públicos deveriam exigir esse “projeto executivo” ou, no mínimo o “projeto estrutural”. A segurança está aí!

O que a população deseja? Tranqüilidade.

Isto se traduz em ter certeza de que aquilo que está pagando está sendo aplicado realmente na obra que adquiriu e não para “tapar buracos” em outros empreendimentos; que a obra está sendo corretamente executada, com os materiais especificados no contrato; que a estrutura está sendo executada corretamente. Ninguém pensa na segurança estrutural. Nem a própria firma. Nem os órgãos públicos.

Já que ninguém está preocupado com a segurança dos cálculos estruturais, algo deve ser feito. Se um cálculo está sendo pago por preços aviltados é natural que a qualidade do projeto não seja excelente. A apresentação pode ser bonita, atraente. Os cálculos podem ser exibidos por maços de folhas de saída do computador, que ninguém tem condições de examinar.

Como são exigidas as plantas do projeto arquitetônico para aprovação do projeto, deveriam ser exigidas também as plantas do projeto estrutural (somente as fôrmas) com uma descrição resumida das hipóteses de cálculo, os programas utilizados com seu nome e seu autor, os principais parâmetros adotados e as normas obedecidas.

Com estas informações seria desejável que alguém examinasse o projeto e apresentasse críticas e um laudo de aprovação. O fato de ter sido usado um computador, um programa conhecido e aprovado, hipóteses de cálculo e normas seguidas, não constitui evidencia de que o projeto esteja correto. O computador permite várias opções. É necessário verificar se foi escolhida a opção adequada e conveniente.

Modificações sempre existem. Não há nada mais pernicioso para a segurança do que modificações de projeto durante sua fase de execução. Não é raro o caso de o projetista “perder o pé” do que está fazendo em conseqüência de numerosas modificações apressadas, porque a obra não pode parar. Quem verificará as alterações feitas em clima de urgência?

Somente o engenheiro que participou do cálculo tem condições de acompanhar os serviços de obra. Ao verificar “in loco” o que havia proposto, ele pode dar-se conta de que cometera alguma falha. Poderá corrigi-la no ato. Poderá perceber onde devem ser tomados maiores cuidados na concretagem, na disposição das armaduras. Poderá sugerir certos procedimentos de obra para facilitar uma boa execução nos pontos mais importantes.

Deveria ser obrigatória a participação do projetista na obra. Isto seria benéfico para todos: projetista, construtor, órgão público e COMPRADOR.

Exageros no projeto ou má escolha na estrutura não se manifestam imediatamente. A deformação lenta do concreto corrige várias incorreções, aliviando os pontos mais solicitados e transferindo esforços para partes mais folgadas. Isto leva meses e até mesmo anos. Falhas que não são imediatamente percebidas, manifestam-se gradualmente com o tempo. A observação de alguns tipos de falhas podem ser explicadas mediante analise detida do projeto nos pontos específicos onde elas apareceram: fissuras em alvenarias, deformações excessivas, queda de reboco,... Isto mostra que em qualquer obra deveriam ser feitas vistorias regulares, de tempos em tempos, e toda vez que aparecessem certas irregularidades. Isto também faz parte da segurança!

Só nos resta desejar que isto algum dia se concretize e teremos implantado algo quase tão eficiente como a BAUPOLIZEI da Alemanha!