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Discurso Professor Emérito

Prof. Dr. Antonio Carlos Reis Laranjeiras - Edição Nº. 21 - Julho/05

Preâmbulo

Queridos amigos:

Há quem não acredite nos caprichos benfazejos da sorte, mas eu, de minha parte, julgo por dever acreditar!

A forte emoção que me domina neste mágico momento de minha vida não me impede de reconhecer nele a aura de sorte que me bafeja, a graça divina que ilumina meus passos. Só aos venturosos reserva o Destino a suprema dádiva de ser recebido como fui agora, neste salão majestoso, cheio de significados e lembranças, com os aplausos de tão numerosos amigos, colegas e parentes. Só aos venturosos reserva o Destino a honra e a glória de receber o supremo título que a minha querida Universidade hoje me concede.

“Você é mais do que é. É costela matriz. É ponta de estrela”

Projeto-me, com jactância, nos belos versos da poetisa Jussara Menezes. Sou mais do que sou! Sou ponta de estrela, abençoado pela sorte, um verdadeiro afortunado!

Essa comovente distinção - justamente na data em que a minha querida Escola Politécnica comemora seus 108 anos de existência - surpreende-me 17 anos após meu afastamento, por aposentadoria, do convívio universitário, e sobrevem imediatamente ao meu Jubileu de Ouro de Formatura em Engenharia Civil, a fascinante profissão que continuo a exercer com devoção.

Ao contrário do que possa sugerir todo esse longo tempo vivido, a concessão dessa alta dignidade encontra- me vivo e ativo como um garoto, se me permitem a gabolice! De fato, essa homenagem chega perfumada - parafraseando Tom Jobim - como águas de março fechando meu prolongado verão acadêmico e como uma promessa de vida no meu coração. __________Uma forte promessa de muito mais vida em meu coração!!

Seguem-se registros, agradecimentos, revelações pessoais, que serão omitidos dessa compilação.

Texto central

Queridos colegas,

Se olharmos o perfil da Engenharia Civil, ao longo dos cinqüenta anos em que a exerço, constataremos que se, por um lado, seus compromissos fundamentais não mudaram, por outro lado, sua Prática é hoje totalmente diversa de antes. O compromisso fundamental da Engenharia Civil continua a ser com a Segurança das Construções, assim como o da Medicina é com a Saúde e o do Direito com a Justiça.

O desenvolvimento científico-tecnológico transportou a Prática da Engenharia Civil, nos últimos 25 anos, de um ambiente de parcos recursos instrumentais para um outro, inteiramente diverso e incomensuravelmente enriquecido pelas novas tecnologias.

A Prática da Engenharia Civil dispõe, hoje, de novos conceitos, novas teorias, novos procedimentos e novos meios. Tornou-se mais complexa por força desse vertiginoso progresso técnico, e também por força das maiores exigências da sociedade, a cada dia mais reivindicante e mais organizada. As novas exigências de sustentabilidade ambiental e de durabilidade emergiram com destaque, nos últimos anos, a somar complexidades na prática profissional.

Os profissionais da Engenharia Civil, no século XXI, terão necessariamente de ser novos também. Aos que já estão na estrada, restam-lhes apenas duas alternativas: a radical renovação ou a renúncia à profissão.

Realmente, a nova Prática da Engenharia Civil exige que os Engenheiros Civis do século XXI possuam não só conhecimentos mais abrangentes e interdisciplinares, mas também, simultaneamente, maior competência técnico-especializada do que exigia dos Engenheiros Civis do século passado.

A formação acadêmica dos Engenheiros Civis do século XXI já conta com novas diretrizes bem definidas e com mais amplos e complexos objetivos, indispensáveis à sua conciliação com as exigências da nova Prática. A sua implementação, no entanto, não será fácil pois ainda depende da também necessária e difícil renovação dos professores.

Conhecido esse cenário, não se poderá mais dizer que a Prática da Engenharia Civil é uma Prática em radical transformação, mas sim que é uma Prática já radicalmente modificada, mais sofisticada e mais complexa.

Ao contrastar essa pujante evolução da Prática profissional, constata-se o acentuado declínio do prestígio social da profissão, pela acentuada redução de suas atividades, motivada, por sua vez, pela ausência, nas últimas décadas, de investimentos públicos e privados no setor da Construção.

De carreira promissora de sucessos, atraente portanto aos jovens estudantes, passou à prima-pobre na preferência dos vestibulandos, dada a sua baixa oferta de oportunidades de trabalho e emprego.

Os novos recursos da Prática profissional, associados aos avanços da ciência dos materiais e da tecnologia disponibilizam, atualmente, ao Engenheiro Civil um grande número de alternativas técnicas de soluções. Nesse contexto, cabe ressaltar o papel que pode e deve desempenhar o compromisso ético-profissional como componente de juízo e de vontade na tomada das decisões técnicas pelos Engenheiros Civis.

Para evitar equívocos, esclareço que não estou a incluir nessas minhas reflexões os maus profissionais, aqueles que decidem malevolamente, orientados pela ganância. A minha preocupação está centrada nos bons Engenheiros, naqueles que, embasados em sua competência técnica e formação humana, vêem-se confrontados, freqüentemente, a cada momento de decisão, pelo dilema de escolha entre alternativas ambíguas, uma ditada pela razão objetiva e lógica do interesse comercial de lucro da empresa e outra ditada pela regra abstrata do compromisso ético de bem servir. Pois uma coisa, diga-se de passagem, é ter consciência moral, outra a moralidade, isto é, agir e comportar-se de acordo com essa consciência.

Há um interessante livro escrito pelo filósofo Rushworth Kidder, cujo título: “Como as pessoas boas tomam decisões difíceis” já sugere o enfoque original que o autor dá ao tema. Os dilemas que apresenta não são aqueles em que há que escolher entre o Bem e o Mal. Esses, para Kidder, não são dilemas, mas sim tentações. Os autênticos dilemas apresentam-se quando temos que escolher entre dois bens, como, por exemplo: justiça versus compaixão, indivíduo versus comunidade, verdade versus lealdade, confidencial versus transparência.

Não há necessidade de irmos longe para buscarmos exemplos, pois dilemas desse tipo e suas decisões decorrentes fazem parte de nosso cotidiano. Um exemplo objetivo é a decisão dos ilustres Senhores Ministros do Supremo Tribunal Federal, que, diante do dilema entre socorrer as necessidades financeiras da Previdência Social -a razão objetiva - ou sustentar o princípio pétreo, constitucional, do direito adquirido - a regra abstrata - preferiram, por maioria de votos, esquecer a justiça em favor da compaixão. O resultado dessa decisão afetou, desfavoravelmente, como todos nós sabemos, a vida dos aposentados e dos inativos da União.

Outro exemplo objetivo, esse ainda mais próximo a nós, é o novo sistema de cotas da nossa Universidade, que tem a intenção de inserir alunos de escolas públicas, afrodescendentes e indiodescendentes em cursos de alto prestígio social, como medicina, direito, jornalismo e odontolgia. Os ilustres Senhores membros do Superior Conselho Universitário, diante do dilema de socorrer os excluídos, ao resgatar-lhes a possibilidade negada de ingresso no curso superior - essa a razão objetiva - ou garantir o direito de ingresso na Universidade pelo mérito, conforme recomendado pela Declaração Universal dos Direitos Humanos, em seu Artigo 26 - essa a regra moral, abstrata - preferiram a primeira opção, e substituiram os excluídos de sempre de nossa injustiça social por novos excluídos: aqueles que não tiveram reconhecido o mérito alcançado no exame do vestibular, apesar de suficiente para seu ingresso na Universidade.

Esses exemplos, meramente constatados, sem nenhum juízo de valor de minha parte, comprovam de fato a existência das ambigüidades nas questões que envolvem a moral e a ética. As decisões corretas, nesses casos - no dizer do físico e filósofo indiano Amit Goswami - não serão necessariamente as indicadas pelas razões objetivas, imediatas, nem mesmo as sugeridas pelas regras morais, rígidas, mas sim aquelas que podem ser encontradas através de respostas criativas ao dilema ambíguo. As decisões corretas eliminarão as ambigüidades, curvando-se sobre as razões objetivas, entendendo a ética com vida dinâmica, encontrando o suficientemente bom, tornando o melhor uma possibilidade real para os injustiçados e preservando os ideais tradicionais da justiça, do direito e da decência já conquistados pela humanidade.

Decisões maniqueístas, nesses casos ambíguos, podem impor a convivência impossível da justiça com a injustiça, ou conduzir à crença equivocada de que meios injustos podem ser justificáveis, quando os fins são justos.

Há uma convicção generalizada entre filósofos, sociólogos e psicanalistas, expressa em livros, artigos e discursos, de que as razões lógicas, objetivas, materiais estão sempre a prevalecer, atualmente, no comportamento dos indivíduos e das instituições coletivas, em detrimento dos princípios éticos, tradicionais, como uma decorrência natural de uma nova hierarquização de nossos valores morais de referência. Essa nova moral, que alguns autores identificam como “moral do espetáculo”, estaria orientada pelo ideal da “felicidade das sensações” e pelo ideal da “vida como entretenimento”.

Na descrição do filósofo Jurandir Freire Costa, em seu livro “O Vestígio e a Aura”:

“O espetáculo reordena o mundo como um desfile de imagens que determina o que merece atenção ou admiração... e tudo é aprendido através da mídia.”

“A realidade diluída em imagens leva o sujeito a perder a confiança em seu discernimento, e o verdadeiro não é mais “aquilo que é”, mas o que os proprietários dos meios de comunicação decidem que deve ser visto.”

Acrescenta o filósofo:

“O modelo da diversão habitua o indivíduo a se eximir de pensar eticamente sobre o que acontece”.

Portanto a displicência ética e a complacência com as transgressões morais que hoje fazem parte constante do comportamento dos indivíduos e das decisões coletivas constituem-se em aspectos de uma nova moral reinante, que não pode, no entanto, ser exercitada por quem tem compromissos éticos explícitos com a sociedade, como é o caso dos Engenheiros Civis.

“A mão competente de um cirurgião afeta um paciente de cada vez; a decisão de um Engenheiro Civil pode influenciar dezenas de vidas de uma só vez.” observa M. Martin.

O Engenheiro, além de ter de enfrentar os desafios de uma profissão, hoje mais complexa e abrangente, que lhe exigem, paradoxalmente, cultura interdisciplinar associada à formação técnico-especializada, terá de superar as circunstâncias alienantes da “moral do espetáculo” para assumir integralmente o exercício ético referido aos compromissos morais de nossa profissão, como forma de bem servir à sociedade e de preservar sua dignidade e resgatar seu prestígio.

Conclusão

Meus queridos amigos,

Agradeço comovido a presença de todos vocês, testemunho indubitável da bela amizade que nos aproxima.

No Dia Nacional da Poesia e aniversário de nascimento do poeta Castro Alves que hoje se comemora, vejo-me tentado a encerrar este discurso com um cântico singelo de Cecília Meireles:

“Renova-te.
Renasce em ti mesmo.
Multiplica os teus olhos, para verem
mais.
Multiplica os teus braços para
semeares tudo.
Destrói os olhos que tiverem visto.
Cria outros, para as visões novas.
Destrói os braços que tiverem
semeado.
Para se esquecerem de colher.
Sê sempre o mesmo.
Sempre outro.
Mas sempre alto.
Sempre longe.
E dentro de tudo.”

Muito obrigado! Abraços,

Prof. Dr. Antonio Carlos Reis Laranjeiras
Salvador - BA - 14/3/2005