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Eng. Cesar da Silva Pinto - Edição Nº. 33 - Agosto/11 Especialista concilia auditoria com confiança profissional, mas alerta aos profissionais sobre as necessidades de atender aos limites técnicos como um dos requisitos de garantia dos projetos. O engenheiro Cesar da Silva Pinto seguiu uma trajetória profissional exemplar. Formado pela Escola de Engenharia da Universidade Federal Fluminense, buscou aperfeiçoamento na carreira acadêmica, atividade exercida em paralelo com o desenvolvimento de projetos. Mas a demanda do mercado o levou a desenvolver um trabalho de consultoria e auditoria de projetos, até então mais usual na área naval. A sua primeira decisão foi radical: deixou para trás a atividade de calculista para não criar concorrência com seus colegas auditados. A decisão foi acertada. Além de sua capacitação técnica, ele ganhou confiança e empatia com os outros profissionais e hoje é um dos mais requisitados, através de sua empresa, a CSP Projetos e Consultoria, para desenvolver esse trabalho. Confiança e ética, além dos parâmetros técnicos, são os principais fundamentos da atividade de auditoria. Mas um conselho que, a seu ver, serve a todos os profissionais de cálculo é o de respeito aos próprios limites de conhecimento e capacidade. ‘Muito mais importante ainda é a consciência daquilo que não sabemos para perguntar a quem sabe, e que poderá nos orientar.’ Por que escolheu o curso de engenharia e seguiu pela carreira de calculista? Desde a época do 2º grau, apaixonei- me pela física e matemática, motivado pelo professor Sylvio Rodrigues Maia, que era também engenheiro e a quem eu auxiliava na época realizando serviços de topografia em Além Paraíba (MG), minha cidade natal. Em 1969 mudei-me para Niterói (RJ), onde ingressei na escola de engenharia da Universidade Federal Fluminense (1970), pretendendo cursar a especialidade de engenharia eletrônica e de telecomunicações, então muito na “moda”. No segundo ano do curso, ao tomar contato com as cadeiras de isostática e resistência dos materiais, desta vez incentivado pelo professor e brilhante engenheiro Zélio Bernardino, optei pela engenharia civil na área de projeto estrutural. Como se deu sua trajetória profissional inicial, em que empresa começou a trabalhar e como ocorreu essa evolução profissional? Minha carreira profissional iniciouse em 1972, como estagiário no escritório técnico Zélio Bernardino, onde prossegui após formado (1974) até o ano de 1977, quando montei meu escritório de projetos estruturais. Em 1985, associei-me à empresa GGR Engenheiros e Consultores para me dedicar à atividade de projetos e execução de serviços de recuperação estrutural, atividade que exerci até 1997. Neste período, rotineiramente era consultado por antigos clientes de projeto estrutural sobre soluções em obras projetadas por outros colegas, quando então tinha que ter muito cuidado para não ferir a ética profissional, nem deixar de atender o cliente. Quais projetos considera que foram marcantes em sua vida e, principalmente, atuaram como aprendizados? Em primeiro lugar, destacaria uma edificação comercial de utilização mista com cerca de 30.000 m² de área estrutural na Rua Coronel Moreira Cesar na Cidade de Niterói, onde os dois primeiros pavimentos são lojas (mini shopping), seguido de dois pavimentos de garagens e mais 14 pavimentos de salas para escritórios. Esse projeto demandou vários estudos até chegar a uma estrutura com um mínimo de transição de pilares (inevitáveis). O segundo projeto foi o de um conjunto de edificações residenciais na Rua Lopes Quintas, na Cidade do Rio de Janeiro, com 31.700 m² de área estrutural, em que tive de também projetar um canal que iria conduzir um pequeno riacho que passava pelo terreno. O senhor seguiu carreira acadêmica em paralelo? Como isso o ajudou no seu aperfeiçoamento? Em paralelo com a atividade de engenheiro estrutural, ingressei em 1975 na carreira acadêmica, voltando à escola de engenharia da Universidade Federal Fluminense. Nela ministrei as cadeiras de isostática, resistência dos materiais e hiperestática para o curso de Engenharia Civil e também sistemas estruturais para turmas do curso de Arquitetura, atividade desenvolvida até o ano de 2004. Embora não remunere (financeiramente) adequadamente, a atividade de ensinar é muito gratificante não só pelo contato com a juventude, pela obrigação de se manter sempre atualizado, mas também possibilita que se faça um grande número de amizades e bom convívio social. Hoje me sinto gratificado quando encontro um grande número de amigos ex-alunos em obras e escritórios que freqüento. No departamento de Engenharia Civil da Escola de engenharia da UFF, fui também chefe do setor de análise estrutural, e da escola vieram também os ex-alunos, hoje profissionais e sócios, Flávio May, Tales e Bruno Pinto (filhos) e também Mauricio Sgarbi. Como começou a atividade de verificação de projetos? O que marcou essa mudança profissional? Em 1996 iniciei oficialmente a especialidade em consultoria e auditoria de projetos estruturais, criando então a pequena empresa CSP Projetos e Consultoria, passando a me dedicar à atividade, até então rara na construção civil, porém já de tradição na indústria naval, por exemplo. Desde o início da empresa, propus-me a não mais fazer projetos estruturais, para não ser ao mesmo tempo auditor e “concorrente” dos colegas projetistas, o que foi muito importante para não só resolver o problema de relacionamento com os colegas no início da atividade, mas também do ponto de vista ético. Passei então a parceiro dos colegas nos projetos auditados. Poderia destacar alguns trabalhos nesse campo? Destacaria, na área de auditoria, dois projetos peculiares: o primeiro é o projeto de um hotel na Avenida Lucio Costa, no Rio de Janeiro, com projeto arquitetônico de Paulo Casé e projeto estrutural de Navarro Adler, que destaco não só pela complexidade da solução estrutural para um projeto arquitetônico sofisticado e arrojado, mas também pela qualidade e renome dos projetistas, ambos com 20 anos a mais de vida profissional que o auditor. Neste trabalho em que participei desde o anteprojeto, também desempenhei o papel de mediador nos embates entre arquiteto e engenheiro nos estudos e viabilidade das soluções. O segundo destaque vai para a estrutura do edifício Sun Deck na Barra da Tijuca – Rio de Janeiro, com projeto estrutural de Augusto Martins (Soma Engenharia), cuja peculiaridade e complexidade exigiu a modelagem em três softwares diferentes para sua validação. Quais são os principais motivos para o cliente solicitar um trabalho de verificação? Atualmente já existe consenso no meio técnico de que todos os projetos estruturais devem ser auditados e a NBR 6118:2003/2007 recomenda. Este trabalho deve ser preferencialmente feito desde o início do projeto, quando o auditor pode usar toda a sua experiência na parceria com o projetista, visando otimizar a solução estrutural mais adequada e especifica para cada edificação. Não raro, acontece ainda, a auditoria ser contratada com o projeto já pronto, motivada por alguma “desconfiança” do construtor ou incorporador. Neste caso, se o projeto não apresentar nenhuma inconsistência ou erro que comprometa a estabilidade da estrutura ou desrespeito às Normas Técnicas, o auditor não deve interferir no projeto, mesmo que “vislumbre” uma solução melhor. O pior cenário acontece quando a auditoria/ consultoria é contratada porque a estrutura, já executada ou em fase de execução, apresenta patologia visível. Quais são os principais itens que compõem um trabalho desse tipo? O projeto estrutural pode ser divido em três etapas igualmente importantes e interdependentes para qualidade do produto final. A primeira etapa é a da concepção do partido estrutural mais adequado técnica e economicamente para aquela edificação especiífica. Em seguida, vem a fase da modelagem (cálculo) estrutural, quando iremos verificar se a estrutura concebida e pré-dimensionada atende aos esforços solicitantes, estabilidade global, deformações e comportamento em serviço. Finalmente vem a fase do detalhamento da estrutura. Como se organiza o processo de auditoria de um projeto? O trabalho de consultoria e auditoria do projeto estrutural ou controle de qualidade do projeto (C.Q.P.) deve ser feito nestas três etapas descriminadas da seguinte forma: - Participação nas reuniões de coordenação do projeto, interagindo com o projetista estrutural, mas também com os outros projetistas envolvidos no empreendimento, buscando soluções otimizadas técnica e economicamente;
- Após a definição do projeto préexecutivo de formas, efetuar a modelagem e análise estrutural, preferencialmente utilizando um software diferente daquele utilizado pelo projetista da estrutura para realizar a segunda etapa do projeto descrita anteriormente, independentemente da memória de cálculo do projetista da estrutura, pois desta forma, a coincidência dos resultados irá validar a análise;
- Finalmente acompanhar o detalhamento completo da estrutura, verificando todos os desenhos de formas e armações gerados e liberando- os para execução, solicitando ajustes se encontrada alguma não conformidade, e atestando a qualidade final do projeto estrutural.
Já aconteceu de solicitar mudanças gerais ou radicais num projeto, ou até mesmo mudança do projeto inteiro? São casos muito raros, mas já aconteceu de ter de invalidar um projeto por inconsistência total, porém isto não ocorre com projetistas experientes. Como vê o nível de qualidade dos projetos de cálculo atualmente? Existe um bom número de empresas/ escritórios de projeto estrutural, comandados e orientados por engenheiros experientes, em que o nível da qualidade do projeto estrutural sempre melhora com passar do tempo além da introdução de novos recursos disponíveis em softwares e hardware. Porém a grande disponibilidade destes recursos e o aumento substancial da demanda tem levado também a contratação de projetos com engenheiros sem experiência que se aventuram na arte sem consistência técnica, levando neste caso à perda da qualidade. Há um cuidado maior das construtoras com os projetos depois de algumas tragédias que aconteceram? Sem dúvida, após tragédias como o caso recente em Belém, as construtoras e incorporadoras passam a ter uma preocupação e um cuidado maior não só na contratação do projeto estrutural, bem como na contratação da auditoria do mesmo. Que cuidados recomendaria para a contratação de um projeto de qualidade? Em primeiro lugar, está a escolha de uma empresa/escritório com experiência. Em segundo lugar, o prazo para a execução dos serviços, que devem ser suficientes para que os projetistas possam discutir e analisar as melhores soluções e também otimizar a solução escolhida, pois se, por pressa, o partido escolhido não for bom, isto irá comprometer todo o resultado final do projeto. Por último, nunca deve ser o preço absoluto o principal critério para escolha, pois um bom projeto com preço mais alto irá conduzir a uma estrutura mais econômica que um mal projeto com preço menor. A Abece (Associação Brasileira de Engenharia e Consultoria Estrutural) propunha que o preço unitário base para projetos estruturais de edificações seja 1% do Custo Unitário Básico (CUB) em média; este valor deve ser a referência para um projeto de qualidade. Quais são as principais lacunas/ problemas que podem comprometer um projeto? O projeto estrutural parte de um projeto ou anteprojeto arquitetônico que tem de ser concebido imaginando que existirá uma estrutura e esta será a “ossatura” da edificação. Por exemplo, em edificações com pavimentos de utilizações diversas como garagens, lojas, pavimentos de uso comum e pavimentos com apartamentos residenciais, o projeto arquitetônico dos vários pavimentos deve contemplar pilares comuns, evitando transições de pilares que encarecem a construção e podem comprometer a qualidade. Podem ainda comprometer a qualidade e a estabilidade parcial de uma estrutura a falta de definição correta dos níveis de implantação da edificação e a compatibilização com as características topográficas do terreno (aclives e declives), a determinação do nível do lençol freático no caso de subsolos. Por final, a compatibilidade da estrutura com os demais projetos de instalações como elétrica, hidráulica, ar condicionado, etc, que poderão demandar furações e aberturas em elementos estruturais comprometendo a qualidade. Por que teria acontecido uma queda da qualidade dos projetos? O excesso de demanda pode, sim, comprometer a qualidade, pois a formação e a qualificação do engenheiro estrutural e, em geral, dos profissionais envolvidos na produção de projetos (desenhistas projetistas, cadistas), não se consegue a curto prazo. Com um volume maior de serviços sem aumento equivalente de mão-de-obra, o tempo disponível para elaboração de projeto diminui e pode comprometer a qualidade. Com o boom da construção civil, também está havendo um processo de resgate da profissão de engenheiro calculista, em termos de atuação nos projetos e até de remuneração? Sim, a remuneração está melhorando lentamente, porém este é o momento de valorização e resgate da profissão do engenheiro estrutural. O que falta, a seu ver, para o segmento atingir um outro patamar no país, a exemplo do que ocorre em outros países? Falta apenas a conscientização dos próprios projetistas para que, num esforço conjunto com a Abece, possamos atingir este objetivo. Que conselhos daria para os novos engenheiros de cálculo que estão entrando para o mercado e buscando referencia profissional? Na engenharia, assim como em outras profissões, principalmente quando envolvem risco a vidas humanas, o exercício profissional deve ser precedido de estágio com profissionais mais experientes, execução assistida de projetos de pequeno porte, que proporcionarão ao novo engenheiro experiência para que possa galgar maiores degraus e principalmente adquirir a sensibilidade do correto trabalho (funcionamento) das estruturas. Todos nós temos nossos limites de conhecimento e capacidade, e o que sempre enfatizei com meus alunos na escola de engenharia é que o importante é saber o limite de nossa competência, e muito mais importante ainda é a consciência daquilo que não sabemos para perguntar a quem sabe, e que poderá nos orientar. Como eles podem tirar proveito dos sistemas informatizados, sem abrir mão do processo de conhecimento e aprendizado no setor? Quando iniciei na engenharia, a “ferramenta” dos nossos cálculos era a régua de cálculo e os diagramas de esforços seccionais eram desenhados na prancheta. Aqueles que hoje iniciam, provavelmente não saberão do que se trata, nem uma coisa nem outra, pois dispõem de sistemas informatizados para praticamente tudo. Os softwares disponíveis para análise, cálculo e detalhamento dos projetos estruturais são ferramentas indispensáveis a um projeto de qualidade e, se bem utilizados, irão proporcionar um produto final de excelente desempenho. No entanto, a concepção da solução estrutural sempre dependerá da capacidade e criatividade do engenheiro, que irão surgir com o exercício contínuo da profissão. O engenheiro terá sempre de validar os resultados produzidos pelo programa computacional que apenas processa os dados a este fornecidos. É enganoso achar que basta ter um bom sistema computacional e que qualquer um, então, irá fazer um projeto estrutural com qualidade.
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