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Vocação pela Engenharia Estrutural

Eng. José Augusto Ávila - Edição Nº. 32 - Fevereiro/11

O eng. José Augusto Ávila formou-se na Unicamp/Campinas e constituiu escritório na região de Marília/SP, especializando-se no atendimento do mercado nacional. Ele teve o privilégio de estagiar em todas as áreas da Engenharia até conhecer e apaixonar-se pela área de Estruturas. Por isso incentiva essa trajetória aos jovens profissionais, como uma das etapas de formação. Reconhece que o vácuo de oportunidades na Engenharia Civil afetou a formação e o interesse de novos profissionais, e o crescimento da demanda atualmente obriga a muitos deles a aprenderem “sozinhos”.

Um bom caminho, a seu ver, é escolher uma área e dedicar-se a ela. A área de Projetos é uma dessas rotas, onde cresce a demanda por engenheiros. Hoje, a rotina dos escritórios está sendo desempenhada cada vez mais por profissionais de Engenharia ao invés de projetistas, abrindo um caminho de novas oportunidades. E a trajetória vitoriosa de Ávila a partir do interior de São Paulo demonstra que as oportunidades para os bons profissionais sempre existiram, mesmo em fase de momentos difíceis do mercado.

Como o senhor descobriu sua vocação voltada para a Engenharia, e depois focou-se na área Estrutural?

Desde criança, eu já era fascinado pelas construções. E sonhava em um dia poder realizar coisas parecidas. Durante a faculdade, procurei estagiar em todas as áreas da engenharia civil. Mas quando comecei a atuar com estruturas é que pude ter certeza de que era aquilo mesmo que eu gostaria de fazer. Tenho comigo que este momento foi determinante na minha vida.

Onde o senhor se formou?

Eu me formei pela FEC - Unicamp 1981. A Engenharia faz as pessoas pensarem, o profissional de engenharia é treinado para isso. Eu costumo brincar dizendo que, desde que entrei na escola, sou obrigado a “pensar 24 horas por dia”. Pensar, sonhar, ver tudo se tornar realidade, ver os sonhos serem construídos. Acho que vem daí a minha paixão pela profissão.

O senhor acha que a Engenharia está voltando a atrair os jovens? Por quê?

Tudo faz parte do momento geral vivido pelo país. A Engenharia Civil hoje passa por um bom momento. Num passado recente, os melhores alunos só pensavam nas áreas Mecatrônica, Eletrônica, etc. Poucos faziam Engenharia Civil por opção, porque não conseguiam vagas nesses cursos. Há um hiato de bons profissionais. Sempre falava, a quem pedia conselhos, que julgava a Engenharia Civil o melhor dos cursos pois o aluno tem muitas opções de atuação. Acho que ainda é difícil a Engenharia competir com o mercado financeiro, que acaba atraindo muitos novos profissionais.

Como o senhor está enxergando essa nova fase da construção e da Engenharia, como oportunidade profissional para os novos engenheiros?

É uma fase maravilhosa. As oportunidades atualmente são muitas, diferente de tudo o que vivemos até há pouco. Também preocupa um pouco, principalmente com respeito à qualidade das obras, devido à falta de profissionais experientes que possam transferir conhecimento aos mais novos como no passado. A maioria desses profissionais está exercendo cargos de diretoria/gerência e não conseguem acompanhar o dia-a-dia das obras. Por isso os jovens profissionais estão “aprendendo sozinhos”, com erros e acertos.

A Engenharia Estrutural também oferece atrativos para os novos profissionais? Por quê?

Acredito que sim. Cada vez mais a rotina dos escritórios de projeto está sendo desenvolvida por profissionais de Engenharia. Antigamente o engenheiro desenvolvia de 20 a 30% do serviço e o restante ficava para os projetistas. Hoje esta relação inverteu e a maior parte dos serviços fica a cargo dos engenheiros.

Quais são os principais desafios para quem entra na carreira?

Especificamente na área de Estruturas, creio que o desafio é encontrar uma forma de conciliar todas as informações teóricas, as práticas dos escritórios, as pressões do desenvolvimento de projetos e a realidade das obras.

Poderia destacar os principais segmentos em que atua? Que projetos o senhor destacaria?

Hoje nosso escritório atua fundamentalmente no desenvolvimento de projetos para o setor imobiliário, de edifícios comerciais e residenciais. Destacamos o conjunto dos projetos desenvolvidos, perto de 2000 projetos em quase 30 anos de atuação mas consideramos o Continental Square, em São Paulo, como um dos marcos do nosso escritório.

O que é preciso para se destacar nesse segmento atualmente?

Basicamente focar um segmento e se dedicar a ele. Não basta o projeto ser bem feito, bem analisado, econômico, etc. Tudo isto é o que todos prometem fazer. Os meios para isso são os mesmos quase para todos. O cliente, no entanto, quer algo a mais, quer um bom atendimento. Para desenvolver um bom projeto é preciso saber dar os limites, conhecer o processo de cada cliente. As realidades de cada obra, cada região. Saber transitar entre todas as disciplinas envolvidas e atender a todas as expectativas de cada um dos agentes, tentando sempre restringir as concessões. É nesta hora que se pode colocar tudo a perder.

Como está o mercado de engenharia no interior de São Paulo?

A região do interior acaba sempre seguindo a tendência dos grandes centros. Infelizmente ainda existe uma certa distância entre essas duas realidades. Vemos hoje o mercado muito forte nas capitais e alguns pólos regionais. Não acontece a mesma coisa no interior em geral. As grandes incorporadoras diminuíram os investimentos nesse mercado talvez pelas dificuldades comerciais que encontraram num passado recente.

Como o senhor projeta as futuras demandas para o seu setor na região, com os investimentos previstos em várias áreas, como residencial, industrial, shopping center e outros.

Procuramos acompanhar todas as tendências e necessidades dos diversos segmentos. Regionalmente o setor industrial é bastante fraco, mas as demais áreas parecem demandar projetos ainda por algum tempo. Sempre temos em mente que tudo depende da economia do país como um todo. Até em função do histórico da nossa profissão, procuramos não nos iludir com a realidade atual, mas sempre atentamos para formar profissionais e nos estruturarmos a fim de realizar nosso trabalho dentro dos limites possíveis para obter o melhor resultado estrutural.

Será que o preço do projeto acompanhou percentualmente o preço da valorização dos imóveis nestes últimos tempos? Por que essa diferença e o que fazer para mudar isso?

Penso que as construtoras ainda relutam para acompanhar os preços das incorporações, uma vez que o custo da construção civil não subiu da mesma forma. É muito difícil que aceitem um realinhamento desses valores. Temos tentado reverter essa situação, mas é difícil. Com a crise de 2008, muitos escritórios de projeto contavam com equipes grandes e, com a escassez de projetos, acabaram aceitando valores menores. Perdemos muitos clientes por tentar manter os valores como estavam. Tivemos um caso em que o diretor de projetos apresentou o nome de cinco outros escritórios que aceitaram redução de 30% nos preços de 2008.

Esta fase áurea da Engenharia Estrutural seria um bom momento para a união dos engenheiros na luta por essa valorização. Em sua opinião, o que poderia ser feito neste sentido?

Sinceramente não sei responder sobre isto, pois é difícil falar desta união. Há 30 anos na profissão, ainda não vi isso existir completamente. Alguns profissionais são mais identificados com outros e entre eles esta união é mais fácil.

A seu ver, quais as principais diferenças, vantagens ou dificuldades em ter um escritório de projetos no Interior e na Capital. Nesse aspecto, a Internet é uma ferramenta valiosa para facilitar a atividade?

Manter o escritório no interior, como tudo na vida tem dois lados, ajuda em muita coisa mas, em outras, complica. Com certeza a qualidade de vida conta bastante, porém temos um custo muito alto, financeiro e de tempo, para deslocamentos e reuniões uma vez que a maioria dos projetos é nas capitais. Os demais custos são muito parecidos. Temos uma política forte de participação em resultados que ajuda a manter uma equipe empenhada e com baixa rotatividade de pessoal. Nos orgulhamos de ter muitos colaboradores com mais de 20 anos de casa.

A internet mudou tudo e resolveu muita coisa para nós. Divirto-me quando lembro que fazíamos as coisas contando com o Sedex. Era uma aventura. O Fax já era uma revolução.

Quais os benefícios e desvantagens da informatização, e como se deu a evolução do seu escritório nessa área? É possível competir no mercado atualmente sem a aplicação das ferramentas hoje disponíveis?

Desde 1982, possuíamos programas próprios para cálculos de lajes, vigas e pilares. Tínhamos um programa de grelha muito bom que usávamos em conjunto com o SAP- 80. Depois usávamos o CAD para desenho. Quando começamos a usar o TQS, fomos abandonando tudo isso e hoje somos totalmente dependentes! Quase um vício. Impossível competir sem o uso destes softwares disponíveis no mercado! Brinco ao dizer que todos os dias deveríamos acordar e fazer uma oração para que a TQS continue firme no seu trabalho e dedicação à Engenharia Estrutural.