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Arquitetura é arte e ciência

Arq. Nadir Curi Mezerani - Edição Nº. 27 - Julho/08

Formado na década de 1960 pela Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Mackenzie, o arquiteto Nadir Curi Mezerani construiu, na mesma instituição, uma sólida carreira acadêmica e docente. Ao mesmo tempo, conduziu seu escritório de projetos e ocupou cargos em entidades profissionais, como o Crea/SP e o Sindicato dos Arquitetos do Estado de São Paulo.

Esse período de grande efervescência estimulou o espírito crítico de Mezerani, que hoje mantém seu escritório em intensa atividade. Em sua opinião, o papel do arquiteto que deseja conceber um bom projeto e, conseqüentemente, boa arquitetura é o de orientar a sociedade para a conscientização de seus benefícios.

Nesta entrevista, ele fala dos elementos que identificam conceitualmente um bom projeto e da conciliação entre arquitetura e meio ambiente. “O século 20 verticalizou a arquitetura, industrializou sua construção, criou as megacidades, uniu os países, mas não promoveu o equilíbrio com o meio ambiente nem conseguiu abrigar o contingente crescente da população nas nações subdesenvolvidas”, afirma Mezerani.

Com o crescimento das cidades e o surgimento de novas solicitações ambientais, mudaram os conceitos de organização dos espaços e de criação de edificações para abrigar as atividades humanas. Diante desse quadro, qual é o papel do arquiteto?

A função do arquiteto é criar espaços para a sociedade. A criação requer domínio do processo de produção em seus meios e fins. Requer repertório cultural abrangente, por lidar com anseios da sociedade, e materialização dos seus objetivos. O espaço físico há de ter estabilidade, funções determinadas e propiciar bem-estar ao homem na sua privacidade ou em sociedade.

Arquitetura é arte e ciência, portanto está em constante contemporaneidade. Mas é difícil a assimilação cultural, pela sociedade, dos reais valores do espaço, urbano ou livre, ecologicamente sustentável. Essa dificuldade se agrava com as diferenças econômicas das classes sociais que usufruem incorretamente o poder sobre os bens comuns, subestimando o futuro.

O que é uma boa arquitetura?

É a que incorpora em seus espaços os anseios da sociedade no tempo. Deduzir o que é boa arquitetura a partir de suas características técnicas mensuráveis é mais fácil. É quando a obra atende ao programa solicitado; custo programado; edificação estável e conforto ambiental. Entretanto, definir valores sociais, estéticos, históricos, culturais, de usos e costumes e prever valores prospectivos, que um projeto deve conter, já é tarefa mais complexa. Esses componentes são imponderáveis e devem ser elaborados por analogia, um processo cultural de criação e não como uma “invenção isolada”. Novos valores ou paradigmas de arquitetura não podem ficar restritos a subjetividades sem comprovações fundamentadas de retornos sociais elevados.

O que identifica conceitualmente um bom projeto?

Atendidas as espectativas do cliente, interpretadas pelo arquiteto, um projeto arquitetônico deve incorporar todas as áreas técnicas: cálculo estrutural, instalações hidrossanitárias, elétricas, etc. Deve ter implicitamente, em seu processo construtivo, coerência com a mão-de-obra local e custo fundamentado. Este bom projeto não necessita ser inovador.

O que identifica tecnicamente uma boa obra?

O cumprimento de um bom projeto. Certamente a obra será bela, durável, funcional, salubre, confortável, aconchegante, em si e urbanisticamente.

Até que ponto a funcionalidade pode ser sacrificada em favor da estética?

Nunca. Algumas propostas recorrem à plástica como se fosse estética, ou atrair a atenção a partir dessa propriedade da arquitetura. O grande valor de um bom profissional é conceber a beleza não como um recurso, mas como solução estética funcional.

É necessário distinguir a ética estética da plástica. Essa qualificação, difícil para compreender, é o que destaca a boa arquitetura do formalismo. Parodiando sua pergunta, prefiro sacrificar a plástica em benefício da funcionalidade. Já imaginou como o Cristo Redentor, no Rio de Janeiro, seria maravilhoso se fosse concebido por Victor Brecheret? Seria arte, além de ponto turístico.

Esse pensamento se aplica à arquitetura contemporânea?

A arquitetura contemporânea é aquela presente em seu tempo e o homem sempre produziu a arquitetura como um reflexo de sua cultura, de sua história. É importante distinguir seu próprio tempo. Ela nos torna senhores dos conhecimentos que identificam valores éticos reais e aqueles por vezes impostos por modismo.

O que é uma boa implantação arquitetônica no contexto urbanístico?

Há uma relação estreita entre o objeto arquitetônico e seu observador no espaço urbano. Preocupa-me a falta de parâmetros críticos na implantação de obras novas em ambientes urbanos já consolidados. Em São Paulo, o Memorial da América Latina está descontextualizado em seu meio ambiente urbano, as obras e seu entorno não estão em harmonia, quer em sua integração de funções ou volumetria. Cumpre à prefeitura estabelecer parâmetros de uso e ocupação que incorporem o eventual potencial de indução de transformação urbana, de forma a estabelecer uma nova relação com o meio ambiente urbano imediato ao Memorial.

Outro exemplo é a prática duvidosa de priorizar a abertura de grandes avenidas, sem estabelecer parâmetros críticos de ocupação dos bairros lindeiros, gerando ruídos nessa paisagem urbana, dentro do compromisso ético e estético de indutor de transição com a cidade existente. Ao serem implantados os corretos corredores de ônibus nas avenidas 9 de Julho e Rebouças [em São Paulo], a prefeitura se aprofundou na funcionalidade precípua em detrimento da estética de suas obras complementares, nas imediações do túnel 9 de Julho e no complexo Paulista-Consolação. A exemplar passarela do arquiteto Vilanova Artigas, da década de 1970, foi desfigurada com o desenho da útil escada executada em seu centro. A galeria de pedestres da rua da Consolação e a passarela do Hospital das Clínicas, que projetamos em 1970 e 1972, também sofreram interferências com a concepção das recentes obras, importantes, mas em grande dissonância. O Metrô, em um exemplo mais defensável, executou a estação Sumaré na década de 1990 com os mesmos conceitos e partido de nossa proposta de 1976, liberando a paisagem visual através da estação, e ao reproduzir a concepção arquitetônica do viaduto Dr. Arnaldo como seu apoio. A região se qualifica como um espaço defensável de arquitetura e meio ambiente urbano, incorporado hoje com o Centro de Cultura Judaica.

Como transformar um projeto em construção econômica?

As obras de interesse social requerem muita experiência profissional de todos os agentes envolvidos no processo. Programas nacionais de erradicação da falta de habitação, para uma população como a brasileira, nunca foram encarados politicamente como um ato social prioritário e contínuo. O próprio BNH se tornou um banco financiador e de investimento como outro qualquer. Projetos de desfavelamento sempre são prejudicados com a falta de avaliações científicas pós-uso.

Há projetos diferenciados que lidam com a prioridade da economia de custos?

Sim, os industrializáveis para reprodução em escala, as autoconstruções orientadas para a população de baixa renda e aqueles produzidos pelas demais classes sociais. Todos requerem estudos minuciosos, desde a concepção arquitetônica inicial até a tecnologia da construção. Há materiais econômicos que não inviabilizam a boa arquitetura. Estes podem ser os tijolos de barro, o mais antigo material prémoldado da história, as telhas de barro, ótimos isolantes térmicos, melhores que as condenáveis telhas de amianto, até os pisos, tipo vermelhão, resistentes e ricos em beleza, quando bem estudados em conjunto com tubulações hidráulicas e elétricas aparentes. São esses os fatores que tornam a questão estética uma postura cultural de realidade social de um povo.

Qual é, então, a função da arquitetura moderna?

A arquitetura moderna se contrapôs àquelas estabelecidas, feitas em épocas de mão-de-obra barata ou escrava. A industrialização viabilizou materiais em escala e, no século passado, deu-se a eclosão demográfica e conseqüente nascimento das metrópoles. A arquitetura moderna deveria ter sido - mas não foi - assimilada para a construção em grande escala, sem enfeites, predominando a função e a beleza das proporções. Poderia ter gerado a casa pré-fabricada subsidiada pelo governo e vendida a baixo preço...

Como desmistificar a imagem de que um projeto custa caro e é para poucos?

A autoconstrução feita pela população de baixa renda é aquela que está a seu alcance. Projetos para essa população não poderão existir sem intervenção ou subsídios governamentais. Portanto, não havendo programas nacionais de construção em massa, os arquitetos tornam-se artigo de luxo para essa população. A noção de que o projeto custa caro é irreal. E a noção de que arquiteto só atende a poucos é real. Os problemas são culturais e de má distribuição de renda. Esses problemas culturais limitam, em sua maioria, o arquiteto à relação com a classe de maior poder aquisitivo e com o governo. A força do mercado conduz a arquitetura a grifes e distancia o casamento do profissional com os interesses da sociedade.

É possível conciliar arquitetura e meio ambiente?

O século 20 verticalizou a arquitetura, industrializou sua construção, criou as megacidades, uniu os países, mas não promoveu o equilíbrio com o meio ambiente nem conseguiu abrigar o contingente crescente da população nas nações subdesenvolvidas. A arquitetura lutou por uma linguagem própria e um meio ambiente socializante humano. Lutou contra a nociva especulação imobiliária.

Já no início daquele século, o grupo modernista de 1922 se lançou com o desejo de instigar a auto-estima dos brasileiros, através de suas raízes e valores espontâneos, de seu potencial latente, em busca de sua cultura ética antropofágica, ante a submissão colonialista. A arte foi o meio e a comunicação. Seu tempo e filosofia não tiveram espaço prolongado diante de uma globalização capitalista de mercado crescente, e hoje temos de continuar expondo o que poderia ter sido assimilado há décadas.

Um caminho recomendável é o da maior atenção à necessária verticalização de cidades de porte médio, através da reordenação de seus vários lotes em um único espaço nas quadras urbanas, com estímulos de maior ocupação, visando a requalificação do meio ambiente. O governo, através do Estatuto da Cidade, deve estabelecer parâmetros indutores aos futuros ambientes.

E qual o reflexo na produção arquitetônica brasileira?

Essa globalização se impôs como filosofia verticalizadora de poder, formulando seu próprio tempo de ação sem apoiar-se em conceitos que não fossem as leis internacionais do capital privado. Essas novas ordens sociais, percorrendo “éticas” peculiares, estão interferindo novamente na brasilidade, um novo colonialismo.

O novo tempo deste século, imposto em parte pelas lógicas de retornos de investimentos financeiros, é mais veloz que aquele do amadurecimento cultural crítico de uma nova proposta assimilada natural e horizontalmente.

Trata-se de uma questão ética?

Sem uma ética de sustentabilidade, concretizam-se os valores partidariamente dirigidos, com parcialidade, para o acúmulo do poder, do retorno imediato do investimento mercantilizado pelo marketing, independentemente do valor real do produto. O consumo pelo consumo cria sua “auto-sustentação” em meio antagonizado. Conceitos éticos de arquitetura e urbanismo tendem a caminhos de valores socializantes, sendo contra o uso do solo urbano como bem privado de especulação, arquitetura como subproduto de uma intenção de investimento pelos retornos financeiros máximos; o próprio Estado torna-se instrumento de mercado com a comercialização de coeficientes de aproveitamentos construtivos.

A arquitetura torna-se também, não raras vezes, suporte da superficialidade de elementos símbolos de “estilos”.

E qual seria o caminho?

A busca da ética. A arquitetura como instrumento cultural deve caminhar novamente pela criação como um processo crescente de valores incorporadores do respeito ao passado, funcional no presente contemporâneo e prospectivo pela consistência do respeito ao espaço humano do futuro.

Há exemplos de boa obra de arquitetura brasileira?

Historicamente, a produção arquitetônica brasileira é expoente mundial. É precursora em soluções técnicas e fortemente representativa em nossa cultura, assimilando, quando necessário, tecnologias executivas e materiais importados.

O projeto do parque Ibirapuera, o Mube (Museu Brasileiro da Escultura, projeto de Paulo Mendes da Rocha), em São Paulo, o aterro do Flamengo com o MAC e sua passarela de Affonso Eduardo Reidy, no Rio de Janeiro, os abrigos de ônibus de Curitiba e a catedral de Brasília são alguns exemplos admiráveis da arquitetura e urbanismo que podemos reproduzir com coerência com o meio ambiente.

Por Cida Paiva
Publicada originalmente em FINESTRA, Edição 40, março de 2005
Link da entrevista na integra: http://www.arcoweb.com.br/entrevista/entrevista67.asp

Arq. Nadir Curi Mezerani
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