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Engenheiro digital

Eng. Luiz Carlos Spengler Filho - Edição Nº. 21 - Julho/05

A entrevista abaixo, fornecida pelo eng. Luiz Carlos Spengler Filho, que exerce suas atividades profissionais em Campo Grande/MS e Macaé/RJ, é de grande importância para a nossa engenharia civil estrutural. As mudanças no mercado estão acontecendo velozmente quer queiramos ou não. A cada dia, novas ferramentas, inovadoras, estão surgindo e é nosso dever e obrigação conhecê-las e empregálas da melhor forma possível na nossa atividade habitual. É surpreendente a criatividade de alguns colegas na interpretação e assimilação dessas novas ferramentas e a capacidade em transformá-las em vantagens competitivas. O eng. Spengler mostra-nos como o projeto estrutural pode ser desenvolvido em nosso país, vencendo fronteiras geográficas e antecipando, talvez, um fenômeno que mais cedo ou mais tarde terá que ser enfrentado por todos, que é a competição global pelo mercado.

Desde quando atua na área de projetos estruturais? Conte-nos um pouco sobre a sua formação profissional.

Graduei em Engenharia Civil em 1981 pela Universidade Gama Filho, no Rio de Janeiro. Durante o curso, fiz estágios em obras de infra-estrutura e edificações, escritórios de cálculo, laboratórios de solos, canteiro de obras da barragem de Itaipu e também na área de execução de fundações profundas. Durante o ano de 1982, trabalhei na Enarc SA Engenharia Fundações (Rio de Janeiro), executando obras de fundações profundas.

A partir de 1983, comecei a trabalhar por conta própria, fazendo projetos de estruturas de concreto armado. Em 1984 e 85, freqüentei curso de pós-graduação em engenharia (COPPE) da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Também em 1984 fui convidado por dois dos meus professores da Universidade Gama Filho, Carlos Henrique Ribeiro Cavalcante e Leonardo Perazzo Barbosa, para ser sócio num escritório de cálculo. Toda a base de conhecimentos que tenho de mecânica das estruturas e concreto armado devo a estes dois grandes profissionais e amigos e também a Profª Magnólia, esposa do Prof. Calvalcanti. Durante estes dois anos (84/85), fiz o curso de Análise de Sistemas no IBPI, Instituto Brasileiro de Pesquisa em Informática, onde conheci um grande amigo e excelente engenheiro, Luiz Aurélio Fortes da Silva (que hoje é muito conhecido de todos e respeitado em todo o Brasil).

Nesta época, fiz muitos programas para a calculadora HP48 CX e para o computador que tínhamos no escritório, o CP300, com seus 64Kb de memória RAM.

Em 1985, devido ao intenso trabalho no escritório, tranquei matrícula no curso de pós-graduação. Após me formar no IBPI, fui convidado para dar aulas nos cursos de Programação e de Análise de Sistemas, onde fiquei até 87. Na Universidade Gama Filho, dei aulas de Resistência dos Materiais e Teoria das Estruturas I e II.

Após 10 anos morando no Rio de Janeiro, mudei para minha cidade natal, Campo Grande (MS), em meados de 87. Foi um recomeço com muitos desafios. Além da conquista de novos clientes tinha que elaborar os projetos e continuar o desenvolvimento dos programas, pois não havia dúvidas de que seria através deles que eu poderia ter mais tempo de pesquisar varias soluções para uma estrutura.

Em 1988, fui a São Paulo assistir ao II ENCONTRO DE INFORMÁTICA NA ENGENHARIA CIVIL no Centro de Engenharia Civil da EPUSP, momento em que conheci os sistemas CAD/Vigas e CAD/Pilar da TQS. Fiquei maravilhado, tudo que eu imaginara realizar um dia estava ali, pronto. Lembro que fiquei praticamente o tempo todo do encontro pedindo explicações ao Antonio Carlos e conhecendo o programa que, com muita paciência, me explicou detalhadamente. Após anos desenvolvendo meus próprios programas, foi a primeira vez que me senti seguro em usar um programa desenvolvido por outra pessoa. Em 1989 o Nelson Covas e família passaram por Campo Grande a caminho do Pantanal para pescar. Convidei- os para jantar e conversamos animadamente sobre o programa e a engenharia estrutural. A partir de então, passei a acompanhar de perto todo o desenvolvimento dos programas da TQS e ser um dos primeiros clientes a atualizar para as novas versões.

Fundei a Sieben Engenharia Ltda (1989) e convidei para ser meu sócio o eng. José Roberto Araújo Braga. Por pouco tempo, tivemos dois estagiários e uma desenhista. Já no início 1990 conseguíamos, além das vigas e pilares, fazer também o desenho das formas e lajes. Escada e caixa d’água poucos meses mais tarde também já ficaram automatizados. No final do ano, tivemos um prova de fogo. Fechamos um contrato para elaborar o projeto estrutural de 13 hospitais somando uma área de 22.660 m2. Foi quando compramos nosso primeiro ploter. Trabalhamos muito, e num prazo de 120 dias conseguimos entregar algumas centenas de desenhos cuidadosamente plotados, foi uma vitória marcante! Sem sombra de dúvidas, estávamos no caminho certo. A automatização dos desenhos aumentou a produtividade e permitiu alocar mais tempo para a concepção do modelo estrutural e a análise de várias soluções, visando a otimização da estrutura.

Que tipos de projetos estruturais você realiza?

Bem, nestes vinte e poucos anos dedicados à engenharia estrutural além dos projetos convencionais de concreto armado e pré-moldado residencial, comercial e industrial, já tive oportunidade de realizar alguns projetos que não aparecem a toda hora como, por exemplo, uma residência em Angra dos Reis (RJ) que foi construída na praia avançando uns 40% de sua área sobre o mar. Do piso para baixo é concreto armado e do piso para cima é madeira.

Um projeto diferenciado foi um “bunker” para a instalação de aparelho radioativo no Hospital do Câncer em Campo Grande (MS). Para conter a radiação, foi adotado usar o concreto e não colocar revestimento de chumbo; com isto as paredes ficaram com espessuras de 90 a 120 cm e a laje de cobertura com 140 cm. As formas receberam uma proteção térmica e as concretagens foram realizadas sempre no período noturno sendo o concreto lançado a uma temperatura de 12 °C. Houve um monitoramento da temperatura do concreto nos dias que se seguiram e a desforma só foi realizada quando a temperatura do interior das paredes atingiu a temperatura ambiente. Para concretar a laje, foi feita uma divisão em duas fases. Primeiro, foi lançado o concreto numa espessura de 40 cm, esperou- se a cura e, então, esta laje serviu de forma para a concretagem da segunda fase.

Tive também a oportunidade de realizar o projeto de algumas penitenciárias federais de segurança máxima, cada uma com área de 12.500 m2, e detalhadas em 268 pranchas de tamanho A0.

Mais recentemente, estou trabalhando no projeto de um prédio em alumínio onde conto com a valiosa ajuda de alguns colegas da área de estruturas metálicas.

Como está constituída a sua equipe de trabalho? Como ela evoluiu ao longo dos anos?

Sempre trabalhei com equipes pequenas. Quando tinha escritório no Rio de Janeiro éramos três engenheiros, depois em Campo Grande dois. Nos últimos cinco anos, trabalhei sozinho e agora, mais recentemente, estou fazendo parte de uma equipe multidisciplinar que está desenvolvendo alguns projetos especiais.

Quais são as suas principais ferramentas de trabalho e que você acha essencial para um engenheiro estrutural de concreto armado?

Considero que as principais ferramentas de trabalho, hoje em dia, para um engenheiro estrutural são: um sistema computacional gráfico para cálculo estrutural e um bom “laptop”. São extremamente importantes também programas para auxiliar no gerenciamento das informações do escritório. É importante que a agenda de endereços/telefone/ e-mail esteja atualizada e de acesso fácil, assim como o gerenciamento das propostas encaminhadas, dos contratos fechados, das anotações das reuniões de trabalho, dos prazos e, principalmente, o controle do andamento de cada projeto. Não podemos nos esquecer dos programas de comunicação para e-mail, chat e voz. No meu caso, não incluo um ploter como equipamento importante porque viajo muito. Quando termino um projeto, envio por e-mail para o cliente e para a copiadora que ele indicar, e em pouco tempo, ele receberá as pranchas plotadas e dobradas em seu escritório.

O que você teria a dizer sobre um escritório tradicional. Onde é seu local de trabalho?

Já faz alguns anos que não tenho um escritório tradicional. Viajo muito pelo Brasil e para os EUA e Europa e trabalho onde quer que eu esteja. Hoje divido meu tempo principalmente entre Campo Grande, Macaé e São Paulo. Nesse ritmo, meu escritório é virtual, é onde esteja naquele momento.

O que é um escritório virtual? Como são feitas as reuniões com os arquitetos e construtores?

Um escritório virtual é um escritório sem uma ligação fixa com um endereço. Onde eu estiver, estou trabalhando, os contatos praticamente diários com os arquitetos e construtores são possíveis através de programas como o Skype, MSN ou Yahoo. Através deles, posso fazer reuniões virtuais com uma ou mais pessoas independente do lugar onde eu esteja. Já participei de reuniões onde havia quatro pessoas em quatro lugares diferentes, todas falando e ouvindo como se estivessem ao redor de uma mesa. E ainda, todas olhando o mesmo desenho na tela dos seus computadores.

Você já desenvolveu projetos onde você não conheceu o contratante?

Esta situação já aconteceu várias vezes. Inicialmente o contratante fez contato por telefone, depois toda a comunicação foi feita via e-mail (envio de projeto de arquitetura, proposta de trabalho, anteprojeto e projeto executivo). As notas fiscais vão pelo correio e o pagamento é feito através de DOC ou TED.

Há vários anos, faço projeto estrutural de prédios residenciais para uma construtora em Porto Velho (RO) e ainda não tive a oportunidade de conhecer o arquiteto. O dono da construtora eu encontro algumas vezes durante o ano. Tudo é feito via e-mail e programas de comunicação como o Skype ou Yahoo.

Como você apresenta os seus projetos?

Além dos desenhos tradicionais, uso muito 3D, seja na fase de anteprojeto para mostrar e discutir detalhes com o arquiteto, seja no projeto executivo para melhor visualização e entendimento de algum detalhe do projeto.

Mais recentemente, em alguns projetos especiais desenvolvidos com um grupo de trabalho, temos feito pequenos filmes apresentando o projeto.

Qual é então a importância da rede internet nas suas atividades corriqueiras?

A internet é imprescindível para um escritório virtual, pois toda a comunicação é feita através dela. Ao longo do dia, são enviados/recebidos propostas, recibos, cópias de nota fiscal, projetos de arquitetura, projetos de estrutura, etc.

E as tarefas simples do dia-a-dia do escritório neste escritório virtual como, por exemplo, “back-up”, pagamentos etc?

É preciso ter uma dose de disciplina e manter tudo organizado. O “backup” é feito através de copias em CD ou DVD no próprio “laptop”. Os pagamentos são feitos via internet. Organizar as pastas no HD ajuda muito também. Saber onde o Outlook guarda os dados e fazer “back-up” periódico evita muita dor de cabeça e perda de tempo, caso dê alguma pane no computador. Para o controle financeiro, o programa Money da Microsoft é uma excelente opção. Fácil de usar, lê os extratos bancários baixados via internet, avisa com antecedência das contas a vencer e é muito versátil na emissão de relatórios.

Este escritório virtual não tem itens de custos elevados? E as ligações telefônicas?

Os custos mais relevantes são as ligações telefônicas e a depreciação do “laptop”. Agora, com a popularização dos programas de comunicação via internet, os custos de comunicação baixaram bastante. Hoje, praticamente todos os aeroportos e hotéis possuem rede de comunicação sem fio (wireless) ou banda larga, e isto facilita enormemente a comunicação quando em viagem. Durante o tempo de espera nos aeroportos ou no hotel, posso trabalhar como se estivesse no meu escritório. Através do Skype ou Yahoo, faço contato com os clientes, entrego projetos, falo com os engenheiros das obras, mando propostas, etc. Quando só é possível o acesso discado, uso o Discador do provedor Terra. De qualquer cidade do Brasil faço uma ligação local a um provedor local e estou conectado à internet. Através de um convênio que a Terra tem a GRIC Communications, posso acessar o provedor local de dezenas de milhares de cidades ao redor do mundo usando o meu “login” e senha do Terra. O custo deste acesso é pago na tarifa normal do Terra e as ligações locais ao hotel (se for o caso).

E a parte administrativa, comercial e gerencial do seu escritório? Como você controla?

A administração comercial e gerencial do escritório está centrada no programa Outlook da Microsoft. Além da pasta contatos, onde está toda a agenda de telefones, e-mail e endereços, criei mais duas pastas deste tipo. Uma para registrar todas as propostas encaminhadas e outra para registrar todos os contratos fechados. Quando o cliente liga para negociar uma proposta, tenho fácil acesso à memória de cálculo do preço e um lugar certo para fazer anotações sobre o que ficou combinado. No registro do contrato, coloco os dados do contratante, todas as anotações das reuniões realizadas (virtuais ou físicas) e também os dados sobre a obra (tipo, área etc.). Com estes cuidados torna-se mais fácil gerenciar vários contratos simultâneos.

O Outlook gerencia também os emails e, usando filtros adequados, o programa já separa a correspondência nas várias caixas de entrada, separando por assunto, por exemplo. O sistema de assinaturas é interessante, tenho vários textos cadastrados de modo que, na hora de responder um e-mail, se ganha tempo. Outro detalhe útil é que você pode usar lembretes para o Outlook avisar o horário das reuniões, ligações a fazer, etc.

No gerenciamento da produção do projeto, organizei uma planilha no Excel. Na primeira folha, tenho, de uma forma esquemática, tudo que tenho de fazer no desenvolvimento daquele projeto. Conforme o projeto vai sendo desenvolvido, essa folha vai sendo atualizada, assim, a qualquer tempo, sei o que já foi feito e o que falta fazer de cada projeto. Nas outras folhas, guardo a lista de todos os desenhos produzidos com as datas de emissão e revisões e a quantificação da metragem de forma e concreto de cada pavimento do projeto (separado por viga, pilar e os vários tipos de laje).

Em média, nos últimos anos, você tem contabilidade de índices de produção de projetos?

Comecei a contabilizar minha produção de desenhos em 1996, em que produzi 246 pranchas A1. Quatro anos depois, consegui aumentar a produção para 400 desenhos por ano. Achei que já tinha atingido um número bom, mas, no ano seguinte, migrando para a versão TQS/Windows e trocando o computador “desktop” por um “laptop”, a produção deu um salto de 50%, e fechei o ano de 2000 com 600 pranchas. Meu recorde até o momento é o do ano de 2003, com 655 pranchas.

A barra azul indica o total de pranchas no ano, a barra amarela indica a média dos últimos dois anos e a barra verde a média mensal do ano.

Qual a importância que você atribui a um software para engenharia estrutural? Que requisitos você acha fundamentais para utilizar um software técnico?

Para conseguir uma boa qualidade técnica e produtividade, é essencial que o engenheiro estrutural tenha um excelente software técnico e um bom computador.

Similarmente a um piloto de corridas, quanto mais ele conhece o seu carro mais rápido e eficiente ele será. É fundamental o engenheiro estrutural conhecer profundamente o software técnico que utiliza, pois desta forma pode extrair o máximo possível do programa e também conhecer suas limitações para interpretar corretamente seus resultados.

Uso o TQS desde 1988, e um dos itens que mais me cativou foi eficiência do programa, além do suporte técnico que sempre atende com muita rapidez e competência. Os vários editores gráficos dedicados a cada finalidade (modelador, formas, edição de armação, edição de esforços em lajes etc.), são ferramentas que proporcionam um aumento de produtividade importante.

Como você vê a evolução da atividade do projetista estrutural com este progresso nos meios de comunicação, software e hardware?

O projetista estrutural ganhou muito com a evolução dos programas, computadores e meios de comunicação. É certo que ele tem muitas ferramentas à disposição, mas o ganho de produtividade só será real na medida em que o engenheiro conhecer e souber extrair o máximo de cada ferramenta.

Com softwares cada vez mais avançados do ponto de vista técnico, será possível vencer os desafios do projeto estrutural, cada vez mais complexo, com maior segurança, tranqüilidade e velocidade. Análises que hoje em dia são julgadas complexas se tornarão rotinas corriqueiras.

Os meios de comunicação revolucionarão, de forma cada vez mais intensa, o mercado de projetos. O mercado deverá ser expandido com uma concorrência muito maior.

A disseminação do conhecimento técnico será intensificada e o maior problema será selecionar as informações a serem absorvidas. De certa forma isto já ocorre quando se participa das Comunidade TQS e Calculistas-ba. Esta forma de comunicação é muito interessante e ajuda a manter-se atualizado sobre os assuntos da engenharia estrutural em geral.