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Eng. Luiz Carlos Gulias Cabral - Edição Nº. 26 - Janeiro/08 O engenheiro Luiz Carlos Gulias Cabral é ex-professor do curso de Engenharia Civil da Universidade Regional de Blumenau (SC) tendo lecionado as disciplinas de Resistência dos Materiais e Estruturas de Concreto Armado. Especialista em estruturas pela UFF/Furb, em 1987, atua na área de projetos de estruturas de concreto armado como titular da CG Engenharia, além de possuir uma empresa de software para projetos de instalações hidráulicas, elétricas e gás. Com base nessa vivência, Cabral enfatiza a necessidade de constante atualização por parte dos profissionais, absorvendo os novos conhecimentos das tecnologias, assim como de análise de desempenho das estruturas. Mais fundamental ainda, a seu ver, é a conscientização dos engenheiros estruturais sobre a questão da valorização profissional, estimulando a união por meio de associações, como a Abece, que desenvolvem atividades e agregam esforços em torno de objetivos comuns. Como iniciou sua carreira profissional e como se direcionou para o campo das estruturas de concreto? Cursei engenharia na Universidade Federal do Paraná, entre 1967 e 1971. Naquela época, o curso era seriado e composto de um ciclo básico, com duração de dois anos, um ciclo profissionalizante de caráter geral (materiais, concreto armado, estradas, hidrologia, etc.) também com a duração de dois anos. No quinto e último ano, o acadêmico optava por uma especialidade entre estradas e aeroportos, hidráulica ou estruturas. A minha opção foi pelas estruturas. Nesta opção, eram oferecidas as disciplinas de Complementos de Resistência dos Materiais (Teoria da Elasticidade), Complementos de Mecânica dos Solos, Estruturas Especiais, Concreto Protendido, Laboratório de Estática Experimental. Então, o direcionamento para o campo das estruturas de concreto foi resultado natural da minha formação acadêmica. A carreira acadêmica foi uma vocação natural? Blumenau é uma cidade que se destaca pelo pioneirismo no Estado. Primeira transmissora de TV, Primeira Rádio FM, Primeiro Jornal Off Set, e a primeira Universidade do Interior, que foi criada em 1964. O curso de Engenharia Civil foi criado em 1973 e inicialmente contava com a colaboração de vários profissionais de outros centros, principalmente Florianópolis e Porto Alegre. Aos poucos, a então Faculdade de Engenharia de Blumenau foi absorvendo profissionais da região até que, em 1977, iniciei ministrando aulas de Resistência dos Materiais e depois Estruturas de Concreto Armado. Lecionei durante vinte e sete anos, tendo assumido a direção da Faculdade de Engenharia. Dar aulas e participar das atividades acadêmicas foi uma experiência muito gratificante para mim e sinto imenso orgulho quando vejo ex-alunos se destacando no cenário da engenharia. O senhor sempre atuou na região de Blumenau e regiões próximas? Sim, me formei em dezembro de 1971 e, já no dia 2 de Janeiro de 1972 iniciei minha carreira profissional em Blumenau, trabalhando como engenheiro projetista de estruturas na empresa do engenheiro Egon Alberto Stein, hoje Construtora Stein. Ao engenheiro Egon Alberto Stein devo minha iniciação nos projetos estruturais e, o que é mais importante, a visão de comportamento estrutural e conduta profissional. Nesta fase tive a oportunidade de lidar com grandes estruturas industriais, já que a empresa era a maior construtora deste tipo de obra em Santa Catarina, sendo uma das mais bem conceituadas empresas construtoras do Estado até hoje. Após este período, iniciei com escritório próprio em 1973 até a presente data, sempre atuando em Blumenau e regiões próximas. Quais são as características do mercado local para projetos estruturais? No aspecto qualitativo, está restrito a estruturas de médio porte. O mercado local é relativamente pequeno e conservador na contratação dos profissionais. Existe uma grande dose de fidelidade por parte dos contratantes, de forma que, se o projetista atende bem às expectativas, será mantido na equipe nos próximos empreendimentos. A exceção fica com o Balneário Camboriú e praias próximas, por ser um mercado muito competitivo e com empreendimentos (prédios residenciais) de vulto, com uma especulação imobiliária muito acentuada que se reflete na contratação dos serviços de engenharia. Atuamos muito pouco neste mercado. As características do clima e cultura local influenciam nos projetos? De que forma? O clima influencia nas considerações de projeto: Umidade relativa do ar, Classe de Agressividade Ambiental, etc. Já a cultura local tem influência nas soluções, eu diria, mais conservadoras... Qual o principal projeto do escritório que o senhor destacaria? Participamos de vários projetos importantes na região, mas destacaria o projeto da estrutura do Edifício Residencial Salvador Dali, em Balneário Camboriú, não só pelo porte da estrutura, mas também pelas soluções adotadas nas fundações e pelo acatamento das nossas sugestões pelo nosso contratante, a empresa Pickler Construções Ltda., então com sede em Blumenau. No final da década de 1980, recebemos a incumbência de projetar a estrutura desse edifício de 32 lajes à beira-mar. Naquela época, já usuários TQS, utilizamos os sistemas CAD/FORMAS, CAD/VIGAS e CAD/PILAR para resolver a estrutura para as cargas verticais e o STRESS para análise do vento. Lembro que o processamento dos pilares levava uma noite inteira e achávamos ótimo (hoje isso levaria segundos e ainda reclamamos). As fundações foram projetadas para estacas escavadas com lama bentonítica, alcançando profundidades superiores a 30m. Aproveito para fazer uma referência especial a três profissionais que formavam o corpo técnico da empresa contratante: engenheiros Carlos Alberto Ramos Schmidt, Valdir Damião Maffezzolli e Evódio João de Souza, que respaldaram todas as nossas ponderações a respeito da estrutura em questão: concreto a ser utilizado, tipo de laje, rigidez estrutural, contratação de consultores em fundações, etc. Outro projeto que considero importante, não pelo porte da estrutura, mas por ser considerado um marco no escritório, foi a estrutura do Edifício Residencial Matisse, gerenciado pela Viaplan Engenharia e Consultoria. Uma estrutura projetada no início de 2003 e já com os parâmetros da NBR 6118:2003. Como o senhor avalia a evolução do conhecimento no campo do concreto armado? Quais as principais alterações ocorridas nos projetos atuais, em comparação com aqueles executados, por exemplo, há 20 anos? Entendo que houve uma verdadeira revolução nesta área nos últimos 20 anos. O concreto armado hoje é um material cujas potencialidades se multiplicaram. Fruto dos resultados das pesquisas voltadas para as propriedades do concreto e seu comportamento estrutural, a evolução do conhecimento no campo do concreto armado nos proporciona análises mais realistas e de maior confiabilidade. Paralelamente houve uma evolução muito grande nos equipamentos e sistemas computacionais que nos oferece a possibilidade de análises complexas com rapidez, segurança e baixo custo. Temos então melhores condições de projetar estruturas mais seguras, econômicas e duráveis do que há 20 anos. O senhor acredita que essa evolução seja dominada pelos escritórios de projetos? Boa parte dos profissionais da área de projetos tem acompanhado essa evolução. O que temos notado é que o mesmo não tem acontecido com alguns contratantes. Existe certa resistência em aceitar os resultados de análises mais realistas e exatas. Quando os resultados financeiros se sobrepõem às questões técnicas, são criadas determinadas dificuldades ao projetista colocando- o em situações, às vezes, até embaraçosas. A respeito de projetos de colegas, já tive a oportunidade de ouvir comentários depreciativos completamente fora de propósito, somente pelo fato de os mesmos observarem as determinações das Normas Brasileiras. Que falhas mais comuns podem ocorrer, caso o escritório não detenha tal know-how? Projeto com análises equivocadas ou com considerações de comportamento irreais pode provocar falhas de vários tipos. As que mais temos observado são: - deformações excessivas (pela não-consideração das não-linearidades física e geométrica, efeito do vento, etc.) e seus reflexos (trincas em alvenarias, principalmente);
- distribuição de esforços não condizente com as inércias adotadas;
- fissuração excessiva por deficiência no dimensionamento;
- deterioração precoce da estrutura por não-adequabilidade ao meio ambiente (principalmente cobrimentos inadequados na sua qualidade e quantidade).
Como as tecnologias dos softwares estão contribuindo para ampliar a qualidade desses projetos? Essas tecnologias contribuem de maneira fundamental, propiciando as mais variadas simulações possíveis, com respostas confiáveis, prevendo o comportamento da estrutura nas várias fases construtivas com um grau de confiabilidade razoável. Graças aos bons softwares, alcançamos a capacidade de dimensionar e detalhar estruturas complexas com a segurança e economia necessárias e ainda considerar a durabilidade como fator importante. Aliado a isso, os bons softwares nos fornecem também ferramentas de detalhamento que melhoram em muito a qualidade do projeto. Tendo atuado como professor, como o senhor avalia essa nova geração de profissionais que já nascem com ferramentas tão poderosas nas mãos? Não podemos pretender que o jovem que esteja se formando agora tenha a mesma forma de atuação que dos profissionais formados há 20 ou 30 anos. A realidade profissional, a necessidade de mercado e os recursos disponíveis são completamente diferentes, de forma que o engenheiro em início de carreira tem de estar adaptado à conjuntura atual. Os profissionais de hoje têm uma vantagem, pois não precisam de adaptações e nem estão apegados a preconceitos e vícios que muitas vezes nós, profissionais mais antigos, possuímos. Como essa expertise influencia no desenvolvimento profissional? Entendo que isso deve ser um resultado natural. Profissionais capacitados e atualizados prestam serviços de melhor qualidade – o que resulta em reconhecimento por parte do mercado. Isso às vezes não ocorre na velocidade que a maioria deseja, causando frustrações. Nós, às vezes, não temos a paciência necessária para esperar dez, quinze anos para ter nosso trabalho reconhecido. É também importante ter em mente que a valorização da classe passa pela valorização de cada um de nós. Então, devemos sempre nos perguntar: “O que estou fazendo para melhorar profissionalmente?” Às vezes, nos surpreendemos cobrando a valorização de entidades ou governos quando antes deveríamos cobrar de nós mesmos. Qual é o próximo passo a ser dado nessa direção? Creio que a conscientização e a união da categoria em torno das nossas entidades pode acelerar o alcance desse objetivo. Ultimamente temos presenciado inúmeras discussões em torno desse tema, principalmente na Comunidade TQS. Como fruto destas discussões, notamos uma convergência em torno da necessidade de organização da classe e a sistematização das ações. Isso somente se consegue através de uma entidade organizada e forte, pois ações isoladas e “quixotescas” não produzem efeitos que repercutam na sociedade resultando em valorização. Entendo que esta é uma das formas de se buscar a valorização da classe: prestigiar e participar de entidades realmente comprometidas e engajadas na valorização profissional. Com este propósito, estamos implementando uma Delegacia Regional da Abece em Santa Catarina e aproveito para convidar os nossos colegas a participar dessa empreitada. Mas isso apenas não adianta. A valorização é um compromisso amplo, que deve ser alcançado não apenas por meio da atuação correta para com o nosso cliente, mas também com um posicionamento firme perante a Sociedade, considerando ainda o papel da Engenharia como um título de alta honra.
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