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Ponte entre o passado e o futuro

Eng. Aluísio A. M. D'Ávila - Edição Nº. 24 - Fevereiro/07

Projetos monumentais que exigem a criatividade do projetista estão voltando ao cenário nacional, mas de maneira ainda tímida.

Com 52 anos de carreira, o engenheiro Aluizio d’Avila já experimentou vários momentos em sua profissão, passando pelas grandes e imponentes obras, tanto de edifícios como pontes e viadutos, participando do boom dos shopping-centers - setor em que se especializou - sem dispensar os projetos de menor porte que predominam há tempos no mercado nacional.

O escritório Aluizio A. M. d’Avila Engenharia de Projetos desenvolveu o projeto estrutural do edifício Santa Catarina, do Arquiteto Ruy Ohtake, localizado na avenida Paulista, que tem tudo para se tornar um ícone moderno da produção arquitetônica nacional. Para o engenheiro, é preciso que oportunidades deste tipo proliferem com maior velocidade por todo país, resgatando a criatividade dos profissionais brasileiros e reinserindo o Brasil no roteiro arquitetônico mundial.

O senhor desenvolveu o projeto do edifício Santa Catarina, apontado como um dos novos marcos da cidade de São Paulo. Que diferenciais estão presentes ali?

Trata-se de uma estrutura especial que tem quase 1.000 m2 de laje destinada a salas e, segundo o desejo dos empreendedores, livres o mais possível de colunas. A solução do projeto estrutural optou pelo uso do sistema de vigas protendidas, concentrando o núcleo de serviços na parte posterior e deixando todo o restante do edifício o mais livre possível de colunas. Dada a grande área de laje, mais de 1.000 m2 e os balanços de 7 m nas partes frontal e lateral do edifício, projetamos duas colunas deixando vãos livres de aproximadamente 20m entre elas, o que preservou a liberação e flexibilidade total da área. Essa decisão, no entanto, exigiu um grande cuidado com a execução da estrutura, pois, como essas colunas são bastante carregadas com seção de 1,60 m x 1,60 m, elas impediriam a transmissão da força de protensão às vigas.

Optamos, então, por executar uma coluna provisória com seção reduzida e flexível, que permitiu que, no momento de protensão dessas vigas, as colunas se deformassem e transmitissem a força de protensão nos vãos internos. Posteriormente, após a protensão, a coluna era completada, a armação montada e preenchida de concreto. Foi realmente um grande desafio para nós e para a construtora Matec, mas saímo-nos muito bem e conseguimos obter um ótimo resultado.

Esse edifício apresentava balanços realmente grandes. Isso representou uma dificuldade a mais?

Esses balanços exigiram um estudo bem detalhado devido a sua dimensão, e sua influência no vão interno. Tínhamos de fazer um trabalho de cálculo muito correto para contemplar os diversos carregamentos, pois eles poderiam atuar de maneira alternada. Tínhamos de nos preocupar, por exemplo, com a possibilidade de os balanços estarem carregados, e o centro do núcleo não estar. E depois, com o contrário, os balanços estarem aliviados e o centro do núcleo estar carregado.

Quando se trata de peças protendidas, é preciso ter muito cuidado para evitar que ela provoque altas tensões, no momento da protensão, que poderiam comprometer a peça nesta fase. É essencial haver uma dosagem muito correta entre armação protendida e armação frouxa, para o bom desempenho da estrutura.

As colunas na área frontal exigiram outros cuidados. Quais?

Enquanto as caixas de escadas e elevadores concentravam-se na parte posterior do edifício formando uma estrutura muito rígida, na parte frontal só havia duas colunas com vigas de pouca altura, sendo necessária a inserção de reforços complementares para resistir à ação do vento. Assim, a solução foi travar o edifício em quatro andares: no 1º andar, na cobertura e nos andares intermediários, cuja arquitetura permitia uma viga alta peitoril. São essas vigas fortemente armadas, que resistem à ação do vento. Solução semelhante a essa, já havíamos dado anteriormente em outro edifício.

Como foi esse outro empreendimento?

O Edifício Berrini 500 também projetado por Ruy Ohtake e construído pela Método. Nele foi utilizada uma grelha, com lajes protendidas. A grelha traz certa complexidade quando precisa ser repetida, mas a construtora fez isso com bastante sucesso empregando formas voadoras. Essas eram montadas e preenchidas em cada pavimento, para depois serem retiradas com grua em grandes trechos, e repetidas no andar de cima. Nesse tipo de solução, era importante que as vigas fossem baixas, pois as instalações passam por baixo das vigas, eliminando qualquer necessidade de furos.

O sistema protendido garante essa liberdade, pois, para os empreendimentos atuais, é comum haver diversas alterações posteriores para atender às necessidades dos usuários do edifício, e para isso essa liberdade é fundamental. Foi um bom projeto e ficamos muito felizes com os resultados. Por conta de diversos projetos desse tipo ganhamos um prêmio nacional da Belgo Mineira, como o escritório que melhor aproveita o sistema protendido.

O sistema de lajes protendidas pode ser utilizado também em edifícios pré-moldados?

Temos utilizado também neste caso, mas é preciso ressaltar que isso exige um trabalho de cálculo bastante minucioso e cuidadoso. Tratase de um processo em que a viga passa por várias etapas diferentes: ela é protendida na pista, depois montada e complementada, recebendo uma capa e armação posterior. Não se pode esquecer que o nosso sistema pré-moldado é hiperestático, o que faz com que esta viga exija uma análise mais apurada. Ou seja, há diversos momentos num mesmo processo: o momento da protensão, o da retirada e da estocagem, o da montagem, e finalmente o momento em que as armações são complementadas.

São quatro ou cinco situações diferentes, em que é preciso ter cuidado para que as tensões ou deformações não estourem, pois, às vezes, durante a protensão, pode acontecer uma tensão inaceitável ou uma contraflecha muito grande, o que inviabiliza a peça. Então, é preciso calibrar os cálculos, para não haver um insucesso em nenhuma fase. Tudo é de uma extrema complexidade. O sistema prémoldado, quando aliado ao protendido, exige o domínio exato de todas as etapas para que se possa aproveitar melhor suas possibilidades.

Neste sentido, a informatização é uma importante aliada?

Sem dúvida, o sistema permite a agilidade de cálculo, além de maior exatidão.

O senhor trabalha muito com clientes globais. Quais são as exigências desses clientes?

No caso dos edifícios destinados a escritórios de alto padrão, eles querem uma área o mais livre possível, com poucas colunas, e setores com capacidade para receber elevadas cargas, para instalação de arquivos deslizantes, que geram um carregamento superior aos correntes. Também pedem previsão para escadas que permitam a conexão futura entre andares. O restante são cuidados normais e comuns a todos os empreendimentos, com especial respeito a deformações, devido aos grandes vãos. Havendo balanços nas fachadas, é fundamental a especificação correta de caixilhos e sistemas de vedação, que devem ser projetados obedecendo às deformações previstas em nosso cálculo.

Que mudanças têm havido em termos de arquitetura e que influenciam no projeto?

Em termos do impacto da arquitetura em nosso projeto, o mais importante é preservar a idéia do arquiteto, a integridade da obra e a economia da sua execução. Tem-se de eliminar completamente o retrabalho da edificação. Deformações, vazamentos e outros defeitos que exijam intervenção futura devem ser evitados ao máximo.

É possível inserir uma personalidade a esse tipo de projeto?

Sempre é possível dar algo de pessoal nos projetos, por mais simples e convencional que ele seja. No caso de estrutura pré-moldada protendida, tivemos a oportunidade de projetar um conjunto de edifícios com arquitetura de Botti Rubin, onde lajes, vigas, colunas, escadas, peitoris foram em peças pré-moldadas com solidarização posterior, formando uma estrutura hiperestática. Essa obra foi visitada, durante sua execução, por um engenheiro americano de uma grande firma dos Estados Unidos, que ficou impressionado com a criatividade do sistema. Disse até que “não esperava ver algo tão avançado assim” no nosso país, segundo suas palavras. Em algumas áreas, com certeza, nos equiparamos ao que é feito nos Estados Unidos.

Fizemos também com esse processo a ampliação do Shopping Morumbi, que além de um prazo curtíssimo para sua complementação, pois precisava estar pronto antes do Natal de 2006, tinha o inconveniente de estar colado à edificação existente de um lado e do outro ao longo de uma área de tráfego intenso.

O custo ainda é um elemento limitador aos projetos?

A questão do custo ainda é preocupante. Quando o empreendedor não consegue avaliar a vantagem de um bom projeto, ele opta por uma solução que parece ser, de imediato, a mais econômica, ou seja, o projeto de menor preço, mas não vislumbra a economia possível lá na frente. Essa economia não é dada somente pela menor quantidade de aço, do concreto, ou de mão-de-obra, mas depende sobretudo do desempenho da estrutura, da velocidade de execução, dos custos de manutenção, etc. A velocidade da obra é um fator importante nos casos de shoppingcenters ou supermercados. A antecipação em um mês pode alterar totalmente a relação de retorno do empreendimento, pois representa um mês de faturamento a mais. Outro fator importante é o recurso financeiro mensal disponível, que pode descartar projetos que dão maior velocidade à obra, que exigem maior aporte de capital inicial.

Com tantos anos de atividade, o seu escritório também enfrenta essa visão distorcida dos clientes?

Felizmente temos muitos parceiros que compreendem bem a vantagem de nos contratar, pela qualidade, economia, criatividade, bom atendimento e continuam nos prestigiando. No caso particular de shoppingcenters, atuamos há muito tempo na área, tendo feito a maior parte dos que existem no Brasil, cada um com um diferencial, uma inovação, um perfil, e isso nos trouxe grande know-how nessa área.

Onde o senhor busca essas informações para basear a criatividade?

Evidentemente acompanhamos as publicações nacionais e estrangeiras. Essas informações vão ficando no subconsciente e, no momento adequado, elas surgem e vão se encaixando nos projetos. Não dá para saber de onde saem ao certo. Não há uma fórmula concreta para isso acontecer.

O senhor considera a criatividade do projetista algo ainda incompreendido pelos clientes?

Há sinais que apontam uma disposição nova dos empreendedores, dando mais espaço para a criatividade, o que infelizmente nem sempre ocorreu nos últimos anos. Nem os governos ou empresas investiam em obras de porte ou projetos monumentais, que permitissem maior nível de criação. Por um bom tempo, eram solicitados os projetos apenas mais econômicos. E isso parece estar mudando. Mas há outras dificuldades que os projetistas nacionais enfrentam. Por exemplo, o forte aumento da burocracia e da carga tributária, que toma tempo, espaço e recursos. Isso sim, sobrecarrega muito os escritórios de projeto, principalmente os de pequeno e médio porte. Esse tempo perdido deveria ser dedicado à pesquisa, ao raciocínio, ao estudo do projeto, para se obter as melhores soluções.