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Eng. João José Asfura Nassar - Edição Nº. 22 - Janeiro/06 O engenheiro João José Asfura Nassar, do Recife, iniciou sua vida profissional na época do chamado “Milagre Brasileiro”, quando as obras proliferavam pelo país. Viu a capital pernambucana crescer, atraindo a construção de inúmeros edifícios, cada vez mais altos e esbeltos. Até que foi convidado a elaborar uma vistoria em edifício próximo ao local onde havia ocorrido a queda do Edifício Areia Branca, na Região Metropolitana do Recife (RMR). Começou então a estudar o problema da Reação Álcali-Agregado, iniciativa que culmina agora na criação da Rincent BTP Brasil, uma parceria com uma empresa francesa, e que permitirá a realização de ensaios não-destrutivos com o objetivo de diagnosticar problemas de estruturas nas fundações. Ele espera, desta maneira, contribuir para reduzir esse problema, presente não somente no Recife, mas em várias partes do país, e que muitas vezes não recebe a atenção necessária. Qual a faculdade em que o senhor estudou e em que época se formou? Eu cursei a Escola de Engenharia da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e conclui meu curso em 1979. Já havia intenção de partir para o campo do projeto estrutural? Como ocorreu essa definição profissional? Quando prestei o vestibular em 1975, o país vivia uma época áurea de crescimento econômico, principalmente no setor da construção civil. Isto aconteceu na década de 70 e início dos anos 80, era o chamado “Milagre Brasileiro”. Nesta época, foram construídas muitas obras importantes como hidroelétricas, estradas, conjuntos habitacionais, saneamento, edificações, etc. Sendo assim, a Engenharia Civil era muito valorizada e para atender a demanda, o déficit de profissionais da área era grande. Tanto que a concorrência para os vestibulares era das mais altas. O que contribuiu para consolidar esta opção: houve a influência de outros profissionais, havia um mercado promissor na ocasião? A definição da opção de atuar no campo de Projetos Estruturais partiu de um convite feito pelo meu tio, engenheiro Talfig Asfura, de estagiar no seu escritório. Iniciei o estágio desde o meu primeiro dia de aula na Universidade, permanecendo como estagiário até a colação de grau. Depois trabalhei como engenheiro durante cinco anos em seu escritório. Todo esse período em que trabalhei com doutor Talfig e seu sócio, doutor Marcelo Carlos Asfora, já falecido, foi muito importante para minha formação profissional. E hoje agradeço de ter tido a sorte do convívio com estes dois grandes projetistas. Havia um mercado promissor na ocasião, além do fato de o engenheiro civil daquela época ter bastante prestígio e respeito diante da sociedade. Os projetistas de estruturas eram considerados como a elite da Engenharia Civil. Qual foi a experiência mais importante nessa fase profissional inicial? Como estagiário e engenheiro, no início da minha vida profissional, tive a oportunidade de auxiliar a execução de projetos de forma semi-automática. Já existiam computadores como Olivetti, P-101 e P-620, em que fazíamos alguns processos de cálculo automáticos. Mas, boa parte do processo de desenvolvimento dos projetos era feita manualmente. Isto foi muito importante para mim, porque adquiri uma sensibilidade mais apurada para análise de estruturas. Como foi a formação da Nassar Engenharia? A Nassar Engenharia Estrutural S/C Ltda. foi fundada em setembro de 1985, em uma pequena sala comercial no centro da cidade do Recife, por mim e meu sócio e irmão, Sales Alberto Asfura Nassar, que já não está mais entre nós, mas seu legado se perpetua até hoje na empresa. Que tipo de obra era realizada e como se deu o desenvolvimento da empresa? Iniciamos com obras de pequeno e médio porte. A maioria dos softwares eram desenvolvidos por nós, utilizando calculadoras programáveis como a HP-97, HP-41CV, entre outras, e adaptamos tais programas aos computadores de uso pessoal, que foram sendo lançados no mercado. Desde 1995, quando adquirimos o software da TQS, passamos a utilizá-lo como a ferramenta para desenvolvimento dos nossos projetos. A equipe da Nassar, aos poucos, foi sendo formada e crescia com o aumento da demanda dos projetos. Uma característica da empresa é que 90% do seu corpo técnico é formado por profissionais que iniciaram como estagiários. Hoje a Nassar conta com dois escritórios no Recife e possui 28 profissionais, sendo 11 projetistas de estrutura, 6 desenhistas, 4 projetistas, 3 estagiários e 4 auxiliares administrativos. Quais projetos foram os mais significativos e por quê? Os edifícios altos que tivemos a oportunidade de projetar. Hoje temos cerca de 38 projetos de edifícios entre 35 e 45 pavimentos, sendo a maioria deles já construídos. Alguns estão em fase de construção e outros sendo projetados. A cidade do Recife tem apresentado nos 10 últimos anos um aumento significativo na construção de edifícios residenciais e comerciais de muitos pavimentos, com esbeltez bastante elevada. Segundo trabalho publicado no 47° Congresso Brasileiro do Concreto (Ibracon’05), de autoria do professor Antônio Oscar da Fonte, onde compara o índice de esbeltez de corpo rígido de edifícios construídos no Recife com outros em outras cidades do país e do mundo, concluiuse que alguns dos edifícios em nossa cidade estão incluídos entre os mais esbeltos do mundo. Qual a característica destes edifícios? Eles variam de 105 m a 137 m de altura, o que corresponde de 35 a 45 pavimentos, e apresentam esbeltez de corpo rígido da edificação entre 10 e 14. É importante lembrar que a viabilidade desses edifícios com esbeltez tão elevada construídos em Recife, deve-se, principalmente, ao fato de a velocidade básica do vento de 30 m/s proporcionar pressões do vento bastante inferiores quando comparada com outros estados do Brasil e também com outros países. O que é preciso para viabilizar edifícios com tais características? É necessária uma interação completa entre o projetista estrutural, o arquiteto, a construtora, o profissional responsável pelo projeto executivo de alvenaria e também o projetista de fachada, pois, além de o projetista de estrutura encontrar o sistema estrutural adequado que atende a estabilidade da edificação, a interação estrutura-alvenaria- elementos de fachada, principalmente porque as fachadas destes edifícios são em cerâmica, porcelanato ou granito, exige cuidados especiais para evitar patologias nas interfaces destes elementos. Outro fator importante é que nesses edifícios devem ser considerados alguns critérios de projetos específicos, tais como: - análise lineares elásticas tradicionais;
- análises não-lineares geométricas P-Delta para ações de serviço e de cálculo;
- verificações quanto à instabilidade do equilíbrio global da estrutura;
- verificação da ação dinâmica;
- verificação quanto ao conforto humano;
- verificação do efeito da interação solo-estrutura;
- ensaio da edificação em túnel de vento, para se obter informações mais precisas sobre o efeito do vento na estrutura. A versão atual dos sistemas CAD/TQS já permite ao projetista entrar com os dados fornecidos pelo ensaio para o processamento do pórtico espacial.
Quantos projetos ao todo foram executados no Recife? Desde a formação da Nassar, elaboramos cerca de 2.400 projetos não somente em Recife, mas em outras cidades do estado e do país, assim como em países como Angola e Honduras, entre outros. Estes projetos são, na maioria, edifícios residenciais e comerciais, mas também elaboramos diversos projetos na área industrial, estruturas metálicas, estruturas pré-moldadas, edifícios em alvenaria estrutural, reservatórios de médio e grande porte, torres de telecomunicações, residências, obras públicas, etc. Como foi seu primeiro contato com o problema da reação álcaliagregado (RAA)? Meu primeiro contato com o problema da RAA foi logo após a queda do Edifício Areia Branca, na Região Metropolitana do Recife (RMR). Nosso escritório foi convidado para elaborar uma vistoria em edifício próximo ao local onde havia ocorrido o sinistro. Como o edifício a vistoriar já apresentava um histórico de recalques na sua fundação e já havia passado por uma avaliação em 1993 feita pelo professor Dílson Teixeira, da Ensolo - Engenharia e Consultoria de Solos e Fundações Ltda., especialista na área de fundações, o convidei para participarmos juntos da vistoria. Formamos, então, uma equipe e iniciamos a investigação. Foi traçado um plano com uma série de procedimentos para uma avaliação completa da edificação, que entre outros podemos destacar: - revisão do projeto estrutural, já que tínhamos disponíveis todas as plantas do projeto inicial;
- análise físico-química da água do subsolo;
- retirada de testemunhos dos concretos de vigas e pilares para avaliação da resistência a compressão do concreto;
- medição dos recalques, comparando os resultados com valores anteriormente obtidos;
- sondagem a percussão;
- inspeção dos pescoços de todos os pilares, isto porque havia indícios de que o desabamento do Edifício Areia Branca, construído há 25 anos, teria ocorrido devido ao colapso dos pilares nesta região, já que o edifício desabou exatamente enquanto a equipe de recuperação de estruturas estava trabalhando na recuperação dos pilares entre a laje do piso do subsolo e o topo das sapatas.
Durante a vistoria dos pescoços dos pilares não tínhamos encontrado qualquer anomalia até a metade deles serem vistoriados. Foi quando no trecho central do edifício foram detectadas algumas fissuras nas sapatas próximas à região dos pilares. Procedemos a uma escavação total, até ter a sapata visível. Deparamos, então, com um quadro de fissuração bastante acentuado. Antes da escavação, já tínhamos re-processado o cálculo do edifício e avaliamos o dimensionamento estrutural das sapatas, e todas elas estavam passando até com certa folga em todas as verificações. Retiramos testemunhos para ensaios de resistência à compressão do concreto das sapatas e os resultados foram bastante superiores aos valores do projeto. O senhor já tinha conhecimento de outros casos? Tinha conhecimento de que já havia tido alguns casos de blocos e sapatas de fundação, em outros edifícios em Recife, que tinham apresentado um quadro semelhante ao que tinha encontrado. Esses casos foram tratados como problema mecânico e sua recuperação seguiu esta linha de raciocínio. Mas eu não tinha a convicção plena de que o problema era de origem mecânica, pois aquelas fissuras aparentemente não possuíam lógica, quando avaliadas sob o ponto de vista das cargas atuantes. Como último recurso, procurei o professor Tibério Andrade, tecnologista de concreto da Tecomat, empresa de controle tecnológico e consultoria na área de concreto, para que fosse retirada uma nova amostra das sapatas para avaliação de uma provável existência de reação química no concreto. O professor Tibério Andrade já havia tido contato com a reação álcali-agregado no ano de 2000, nos blocos de fundação de uma das mais movimentadas pontes da cidade do Recife, a Ponte Paulo Guerra. A Tecomat convidou, então, o professor Paulo Helene, da Universidade de São Paulo, para coordenar a equipe de trabalho. Nessa investigação foram retirados inúmeros testemunhos e realizados ensaios mecânico e físico além da análise petrográfica do concreto os quais confirmaram a RAA. Com a retirada dos testemunhos das sapatas do edifício vistoriado, já visualmente, na superfície fraturada, foram observadas bordas de reação em torno do agregado graúdo, além da existência do gel, que estava preenchendo os macroporos da matriz da pasta de cimento endurecida. As bordas e o gel são indicativos da RAA. As amostras foram enviadas para o laboratório da Associação Brasileira de Cimento Portland (ABCP) de São Paulo, tendo sido confirmada a existência da reação. Essa questão começou a preocupá-lo de alguma maneira. Quais as ações adotadas diante do problema? Após a constatação da RAA nas sapatas do Edifício que nós vistoriamos, fiquei preocupado com a possibilidade de que outros casos semelhantes pudessem estar ocorrendo em outras edificações. Relatei o ocorrido para outros colegas projetistas, como também para o diretor de tecnologia da Associação das Empresas do Mercado Imobiliário de Pernambuco (Ademi-PE) e do Sindicato da Indústria da Construção Civil de Pernambuco (Sinduscon- PE). A partir deste momento, várias fundações de edifícios foram investigadas e então começaram a surgir inúmeros casos de fissuração em blocos. O Sinduscon-PE começou a mobilizar-se, promovendo inúmeras reuniões com os principais escritórios de cálculo, laboratórios de controle tecnológico, consultores, cimenteiras, pedreiras, concreteiras e universidades, com o objetivo de avaliar o quadro existente e buscar soluções para prevenir novos casos e procurar alternativas de reforço para os casos existentes. Nesse período, o Sinduscon-PE e a ABCP trouxeram inúmeros especialistas nacionais para debaterem o assunto com a comunidade, podendo ser citado o professor Selmo Kuperman; o engenheiro Oscar Bandeira; o professor Paulo Helene e o engenheiro Cláudio Sbrighi Neto. Esses especialistas visitaram algumas fundações, sendo unânimes de que o quadro patológico existente poderia ter forte influência na expansão do concreto originada pela reação álcali-agregado, desmistificando a maior dúvida sobre o desenvolvimento da reação em peças de concreto de pequeno volume. O tema começou a mobilizar a comunidade acadêmica? Na reunião anual do Instituto Brasileiro do Concreto (Ibracon), realizada no Recife, no mês setembro, foi constituída uma comissão para tratar do assunto. Foi realizado um painel, onde foi abordada a questão da reação álcali-agregado em fundações de edifícios. Para esse evento foi convidado o engenheiro Canadense Bernoit Fournier, um dos maiores especialistas no assunto, na atualidade, que teve também a oportunidade de visitar algumas fundações da Região Metropolitana do Recife (RMR). Com essas informações trazidas por esses especialistas e o aprofundamento do estudo, através de uma vasta bibliografia existente sobre a reação álcali-agregado, o meio técnico da região tem procurado se capacitar para dar respostas às inúmeras perguntas que têm surgido, bem como, para atuar na prevenção e solução para os problemas existentes e futuros que inevitavelmente irão aparecer. O senhor já visitou muitos empreendimentos com esse tipo de problema? Quantos? Além do que eu participei diretamente, caso citado anteriormente, tive a oportunidade de visitar mais cinco casos, todos em blocos de fundação. O professor Tibério Andrade tem participado direta ou indiretamente da maioria dos casos surgidos em Recife. Até o presente momento, ele tem catalogado 18 casos de fissuração em blocos de fundação. Existem casos de edifícios de 3 a 25 anos idade, com intensidade de fissuração bastante variada. Os dois casos mais graves, considerando intensidade e magnitude das fissuras, são: a Ponte Paulo Guerra e um edifício comercial de 21 anos de idade, existindo, nesse último, aberturas máximas de fissuras na ordem de 30 mm. Alguns projetistas da região estão ainda muito reticentes em acreditar que o quadro de fissuração ocorrido nos blocos de fundação tenha uma forte contribuição da expansão induzida pela RAA, responsabilizando o problema, exclusivamente, ao dimensionamento e ao detalhamento dos blocos e sapatas, questionando até a existência da reação álcaliagregado. Desses 18 casos, o professor Tibério teve a oportunidade, até o presente momento, de extrair amostras de concreto em 9 dos edifícios com suspeita de RAA. Desses 9 edifícios, em 8 deles já foram confirmadas existências do fenômeno, através do ensaio petrográfico, realizado no laboratório da ABCP. Nos outros dois casos, é visível a existência da reação nas bordas. Poderia mencionar um caso? Em um dos casos estudados, além do ensaio petrográfico, foi extraído o agregado graúdo dos testemunhos do concreto dos blocos, sendo realizado o ensaio acelerado de barras de argamassa (ASTM 1260), com o objetivo de classificar o agregado quanto a sua reatividade. A classificação indica que um agregado é reativo se a expansão, aos 14 dias, for superior a 0,20%. Para o agregado, em questão, a expansão foi de 0,29%. Um outro caso interessante, analisado pelo professor Tibério, de que ainda não se tem resultados conclusivos comprovando a reação, diz respeito a um prédio de 9 anos, cuja construção foi paralisada na 10ª laje, de um total de 24 lajes. Foi estimado que a carga existente no estágio atual da construção representa, aproximadamente, 20% da carga plena prevista. Após 9 anos, a obra foi reiniciada. Foi constatado que, dos 18 blocos de fundação, 4 apresentavam intensa fissuração, sendo que os demais, ora não apresentaram fissuras ora tinham em pequena intensidade. Foi possível resgatar as planilhas de concretagem de todos os blocos e, coincidentemente, os 4 blocos fissurados foram concretados com uma determinada concreteira, e os demais blocos com uma outra. Nos testemunhos extraídos dos blocos fissurados, foi observada formação intensa das bordas de reação e a existência de gel, enquanto nos testemunhos dos demais blocos, essa característica não foi percebida visualmente. Este caso não deixa dúvidas sobre a influência da reação nos problemas de fissuração de blocos de fundação encontrados recentemente na Região Metropolitana do Recife. O que pode e deve ser feito para evitar a reação? A reação álcali-agregado (RAA) é um processo químico que, para o seu desenvolvimento, é necessária a existência simultânea de três ingredientes: disponibilidade de álcalis (NA2O e K2O), agregados reativos e umidade. Quanto aos álcalis, a maior fonte de contribuição vem do próprio cimento portland, além de outras fontes fornecedoras de álcalis, como os próprios agregados, água de amassamento, agentes externos, etc. Algumas normas internacionais limitam o teor de álcalis no cimento para a prevenção da RAA em, no máximo, 0,6% de NA2O equivalente. Na RMR, os cimentos disponíveis na atualidade possuem um teor de álcalis equivalente entre 0,9% e 1,2%. A prevenção pode ser feita com análise química do cimento para se conhecer o teor de álcalis, pois quanto menor o percentual de álcalis no cimento, menos propício é o concreto para o desenvolvimento de RAA. Outra providência é fazer análises petrográficas dos agregados que serão utilizados no concreto. A umidade é essencial para expansão do gel. Diferentemente do que muitos pensam, para que ocorra a expansão do concreto, não é necessário que a estrutura encontre-se submersa. Estruturas de concreto que estejam em um ambiente com umidade relativa do ar acima de 85%, por longos períodos de tempo, já podem sofrer os sintomas da reação. Existem casos registrados em outros países? Existem inúmeros casos, no mundo, de superestruturas de pontes e viadutos afetadas pela reação álcaliagregado. Geralmente, esses casos estão situados em países de clima frio, onde existem períodos longos do ano em que a umidade relativa do ar freqüentemente ultrapassa os 90%. No sul do Canadá, até o ano de 2000, já tinham sido comprovados cerca de 167 pontes e viadutos afetados. Uma maneira eficiente e viável economicamente de se prevenir a reação álcali-agregado é a utilização de adições minerais ao cimento, pozolanas ou escórias de alto forno. O percentual dessas adições no cimento irá depender basicamente de dois fatores: da reatividade do agregado e da qualidade da adição. Para isso, é interessante que cada grande região consumidora de concreto procure conhecer a reatividade de seus agregados e saber quais as adições disponíveis no mercado, bem como o percentual necessário para inibir essas reações. A conscientização do problema está crescendo no setor? O Sinduscon-PE está fazendo um trabalho de pesquisa para conhecer as características dos agregados disponíveis na região quanto à reatividade. A partir desses dados, será estudada a efetividade de cada adição mineral disponível na praça para combater a reação desses agregados. Uma medida concreta tomada pela Associação Brasileira de Engenharia e Consultoria Estrutural - Regional Recife (Abece-PE), com o apoio do Sinduscon-PE, foi a elaboração de uma cartilha para os associados e construtores. Nessa cartilha, recomenda-se a inclusão, nos projetos de cálculo estrutural, da especificação de cimentos pozolânicos (CP IV) nas fundações, com no mínimo 30% de pozolana, ou Cimentos Portland Compostos (CP II), empregando adições mínimas de sílica ativa ou metacaulim. E nos edifícios que já apresentam problemas? O que pode ser feito? Pode mencionar um caso concreto? Este é o grande desafio para a engenharia nacional. Embora este fenômeno já seja conhecido há bastante tempo no mundo, ainda hoje este assunto não é completamente dominado pela engenharia mundial. Desde a década de 80, centros de pesquisas e universidades internacionais vêm desenvolvendo estudos para melhor conhecer os mecanismos das RAA’s. No Brasil e no mundo existem vários casos de estruturas com RAA. A ocorrência dessa reação no Brasil foi em obras de barragens, usinas hidrelétricas e fundações de pontes. Segundo publicações do Ibracon sobre o histórico das RAA’s em obras hidráulicas, só no Brasil foram historiados 18 casos de RAA. Os Estados Unidos têm registro de 31 casos, Canadá com 40 casos, África, Ásia e Europa mais 76 casos. No caso de edifícios, esta é a primeira vez que este fenômeno é observado no Brasil. A RAA é um fenômeno deletério lento, complexo, que causa fissura e perda de rigidez e resistência das estruturas de concreto. A paralisação da reação é objeto de pesquisas ainda não conclusivas que estão sendo efetivadas em todo o mundo. Infelizmente, ainda não são conhecidas medidas corretivas definitivas. Recuperar estruturas com RAA instalada requer um detalhado estudo de cada caso. Que ações preventivas podem ser tomadas? Algumas medidas podem ser tomadas para reduzir a velocidade das reações, separadamente ou em conjunto, dependendo de cada situação. A saber: - atenuar a velocidade do processo reativo através da limitação de acesso de água e de umidade, através de produtos impregnantes, penetrantes, selantes e membranas impermeáveis e estanques;
- atenuar a velocidade das reações através de tratamentos químicos com injeções de sais de lítio. Essa medida tem limitações práticas para aplicações em peças maciças, com grande volume de concreto;
- restringir as deformações por meio de encapsulamento/cintamento com concreto armado e/ou protendido, aplicando tensões de compressão que possibilitem a redução, ou até mesmo, paralisem o desenvolvimento das reações e, conseqüentemente, das expansões deletérias.
- para qualquer solução de recuperação de estruturas afetadas pela RAA é de fundamental importância que haja o monitoramento adequado e acompanhamento do desempenho da estrutura durante sua vida útil.
O Recife parece estar mais avançado no tratamento desta questão? No Recife, já foram ou estão sendo realizadas 4 intervenções: 3 em blocos com estacas e 1 em fundação direta com sapatas isoladas. No caso dos blocos, todos adotaram como solução o encapsulamento das peças, uma em concreto armado e duas em concreto protendido. Houve também o envelopamento de todas as superfícies com concreto na tentativa de se evitar o contato direto da água com a superfície dos blocos. No caso das sapatas isoladas, que foi o projeto do qual eu participei, a solução adotada foi criar uma nova sapata sobre a existente, nos casos em que o grau de fissuração estava mais acentuado. Isto foi feito em 6 sapatas de um total de 19 unidades. Nas outras em que existiam pequenas fissuras, adotamos com solução a injeção com resina epoxídica para o fechamento das fissuras e o encapsulamento das peças adicionando uma armadura na face superior da sapata e também na face lateral. Porém alertamos ao condomínio do edifício que estas sapatas deveriam ser monitoradas a cada 3 anos. O senhor acha que o problema está recebendo a atenção merecida da sociedade? Como a comunidade técnica pode contribuir para ampliar este debate? O meio técnico está tentando repassar para a sociedade que o problema, apesar de ter sido descoberto há bastante tempo no mundo, não tem casos similares no Brasil e que, muitos países já passaram o que estamos enfrentando hoje. O papel de divulgação do problema pela comunidade técnica é de fundamental importância para aumentar o nível de conscientização do setor produtivo para a questão. O investimento em pesquisas nas universidades, dirigidas para a prevenção da reação e para soluções de intervenções corretivas, também trará benefícios para o setor e para a sociedade. Como também elaboração de normas específicas para esta questão, como já existem em outros países da Europa e América do Norte. A seu ver, vidas humanas podem correr perigo devido ao problema? Na realidade não ocorreu desabamento na Região Metropolitana do Recife (RMR) em conseqüência da RAA. Pelo meu conhecimento, não existem estruturas de concreto que entraram em colapso motivado pela RAA. O colapso da estrutura do Edifício Areia Branca, após 25 anos de construído, foi motivada por deteriorização das armaduras dos pescoços dos pilares, falha de concretagem, brocas, enfim, de uma maneira geral, pela má qualidade de execução, causando a ruptura dos pilares na região compreendida entre o topo das sapatas e o piso do subsolo (Ver “Laudo Técnico Sobre as Causas do Desabamento do Edifício Areia Branca” emitido pelo Crea-PE-www.creape.org.br). Depois da queda do referido edifício, existe hoje uma conscientização no meio técnico da necessidade de inspeções periódicas das fundações das edificações, com o objetivo de se detectar com antecedência alguma falha construtiva e/ou um processo de deterioração, que possa comprometer, no futuro, a estabilidade da mesma. Muitos casos foram encontrados devido a estas inspeções e pela presença de fissuras na laje de piso do pavimento de garagem, geradas pela expansão dos blocos que estavam logo abaixo dessas lajes. Essa questão da segurança das edificações tem preocupado o setor, pois ainda não se tem informações suficientes sobre o comportamento dos blocos e sapatas, sob um estado de fissuração com intensidades bastante variadas, induzidas pela expansão, devido à reação álcali- agregado. Que recomendação o senhor dá aos projetistas que desenvolvem projetos na região? Na minha opinião, a ocorrência de reações expansivas em algumas fundações na RMR está bastante evidente, não só pelos resultados dos ensaios já realizados nas amostras destes concretos, como também a opinião de vários especialistas que aqui vieram e todos foram unânimes em afirmar a presença da RAA. Tanto que o Ibracon constituiu um comitê de especialistas para estudar a questão. Acredito que alguns casos de fissuração nas fundações encontradas, além da RAA, existem também causas devido ao efeito mecânico e, principalmente, no que diz respeito ao detalhamento dos blocos de fundações. As armaduras superiores deveriam ser sempre adotadas e, no caso de estarem detalhadas, serem maiores do que as normalmente hoje adotadas nos projetos estruturais. Digo isto porque há casos em que esta armadura simplesmente não existe. As armaduras laterais, tanto a vertical como a horizontal deveria abranger toda a superfície dos blocos, para que não fique qualquer região do bloco sem armadura e com isto minimizar fissuras, que potencializam o processo da RAA. Para os projetistas da região, recomendo que participem das reuniões promovidas pela Abece e pelo Sinduscon para discussão do problema, além das palestras que estão sendo ministradas com certa freqüência sobre o assunto. Como a informatização pode contribuir neste processo? No Brasil e em todo o mundo existem dissertações de mestrado, doutorado, trabalhos publicados em congressos e pesquisas em universidades no sentido de usar modelos mecânicos e numéricos que possam simular o comportamento estrutural do mecanismo das RAA’s, para o melhor entendimento do seu comportamento. Qual é a posição dos construtores sobre o assunto: é possível ao projetista alertá-los sobre o problema? Os construtores que participaram desde o início do surgimento do problema estão conscientes e estão adotando as medidas preventivas para inibir a reação e mitigar os seus efeitos. Entretanto, os mais desinformados não estão preocupados com o que está ocorrendo. Os projetistas têm um papel fundamental no processo. São eles que especificam a resistência característica à compressão do concreto, devendo-se, a partir de agora, exigir em seus projetos, as ações preventivas, como: o emprego de cimentos pozolânicos, ou adições minerais, bem como, mitigar os efeitos das expansões, através da mudança do detalhamento das armaduras dos blocos e sapatas. Em que outra região do país pode acontecer esse tipo de reação? Qualquer região do país e do mundo em que o concreto produzido contenha a tríplice aliança, isto é, álcalis, agregado reativo e umidade, e que não estejam utilizando cimentos com adições minerais em quantidade suficiente para inibir a reação, estará sujeita a desenvolver RAA. De um modo particular, a Nassar está se especializando no assunto? Com o aparecimento de vários casos de fundações com a integridade comprometida, procurei encontrar uma técnica para investigar as fundações de outros edifícios sem a necessidade de proceder a escavações, pois, além de gerar grandes transtornos para os moradores dos edifícios, em certos casos seria complexo realizá-las pelo fato de boa parte das fundações da RMR estarem submersas. Tentei através de vários órgãos, universidades e profissionais da área qualquer equipamento que pudesse fazer tal análise. Ao falar com o engenheiro Philippe Beno, que faz parte da equipe da Nassar Engenharia, relatando a minha preocupação, ele entrou em contato com os seus colegas franceses, que indicaram a Rincent BTP Services, como um caminho para diagnosticar problemas de estruturas nas fundações com ensaios não-destrutivos. Como se deu esse contato? O engenheiro Philippe deslocou-se até a França a fim de avaliar a tecnologia e realizar alguns ensaios, sendo acompanhado por Jean-Jacques Rincent, sócio-diretor da Rincent BTP Services, com larga experiência nesse campo. Ele indicou que a melhor maneira de diagnosticar seria através do método de medida da rigidez dinâmica das fundações, pois sua empresa já tinha desenvolvido um equipamento específico para este tipo de teste. Nós o convidamos para vir ao Recife fazer alguns testes com o equipamento. Os resultados foram aprovados e conseguimos detectar grandes diferenças de rigidez dinâmica entre as fundações já comprovadamente afetadas pela RAA e as que tinham sua integridade preservada. Como são realizados esses testes? Estes testes foram executados em um edifício que possuía parte da sua fundação com blocos bastante fissurados e outros sem fissura alguma, devido a concretos elaborados de diferentes origens e com idades diferentes. A vantagem de elaborar estes testes nas fundações dos edifícios é que podemos fazê-los em todos os pilares da obra, ao invés de apenas em 30% das peças (recomendação da cartilha da Abece para inspeção de edifícios), pois não teremos que fazer escavações. Este ensaio também permite validações de recuperações estruturais das fundações afetadas pela RAA, medindose a rigidez antes e após a sua recuperação, além de podermos controlar, ao longo do tempo, a evolução do comportamento mecânico das peças estruturais recuperadas. Com o objetivo de realizar estes testes de maneira sistemática, firmamos uma parceria com a Rincent BTP Services (www.rincentbtp.fr) e criamos a empresa Rincent BTP Brasil, que tem sede na cidade do Recife. Desta forma, tentaremos contribuir para facilitar a investigação deste problema que vem afetando edificações no nosso estado e em várias partes do mundo.
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