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Evolução paralela

Eng. Nelson Monteiro - Edição Nº. 21 - Junho/05

O engenheiro da Monteiro Linardi diz como acompanhou a evolução do mercado ao longo de 30 anos e a luta para manter uma equipe de alto nível tecnológico.

O engenheiro Nelson Augusto Miguel Monteiro formou-se pela Escola de Engenharia da Universidade Mackenzie em 1974. Seu primeiro estágio na área foi em um escritório de cálculo estrutural. Sem saber, esse destino o levaria para a fileira dos projetistas, onde fez uma carreira que já tem mais de 30 anos de experiência. O engenheiro acompanhou diversas fases da construção brasileira e vê diversas peculiaridades no momento atual. Por exemplo, a verticalização na construção dos edifícios residenciais e comerciais em São Paulo e a sedimentação dos sistemas de informática no processo de cálculo. A seu ver, tais tendências exigem do profissional um alto grau de sofisticação e preparação.

Como o Sr. começou a atuar na área de cálculo estrutural?

Eu me formei em 1974 pela Escola de Engenharia da Universidade Mackenzie. A minha formação profissional foi totalmente construída em escritórios de cálculo estrutural. Atuei pouco em empresas de construção. Acabei me profissionalizando mesmo na área de projetos.

Naquela época, já tinha a idéia de ir para esta área?

Não. Foi meio casual. Eu comecei a procurar estágio no meio do curso, aproveitando uma oportunidade em um conceituado escritório. Ali conheci outras pessoas, fiz relacionamento e passei a trilhar esse caminho. Trabalhei em três escritórios, antes de montar a Monteiro Linardi. A princípio, a empresa nasceu com outro nome e outros sócios. Posteriormente, eles se direcionaram para a área de construção e eu fiquei na área de projetos. Nessa ocasião, eu já havia contratado vários estagiários e engenheiros. Um deles, Sergio de Faria Linardi, também Mackenzista, só que da turma de 81, destacou- se muito e acabou se tornando meu atual sócio ao aceitar meu convite para tal. Fundamos então a Monteiro Linardi Engenharia Ltda em fevereiro de 1.983 e, desde então, elaboramos o projeto de estrutura de cerca de 600 edifícios, perfazendo aproximadamente cinco milhões de metros quadrados projetados.

Como a especialização nessa área é buscada na prática?

Nós já participamos de diversos eventos na área de estrutura. Foram cursos de curta e longa duração, congressos, seminários e palestras em vários campos de conhecimento, incluindo a informatização. Esta deve ser uma ação contínua para quem trabalha nessa área, pois as tecnologias mudam de maneira constante e o profissional é obrigado a se atualizar.

Então essa é uma exigência constante do mercado?

Sem dúvida, mas também é um dos principais problemas que divide a nossa área. Há dificuldade até para fazer essa atualização. Eu considero que a Monteiro Linardi vem conseguindo manter uma estrutura enxuta que permite atuar de maneira moderna. Conseguimos participar de cursos, congressos, seminários e estimulamos nossos funcionários a fazerem o mesmo. Hoje, por exemplo, não se pode prescindir da informática. Trata-se de uma ferramenta fundamental. A evolução dos recursos de informática, ou seja, dos computadores e dos “softwares” obrigam os profissionais a acompanhar essa evolução. Eu comecei, como estagiário, em uma época em que existiam somente réguas de cálculo, algumas máquinas mecânicas ou eletromecânicas e calculadores de quatro operações. Quando me formei é que surgiram as primeiras calculadoras programáveis e computadores de uso pessoal.

Como foi essa fase?

Começamos a desenvolver alguns programas para uso próprio, que chegaram até a ser comercializados. Mas concluímos, até por uma questão de mercado, que não dava para continuar desenvolvendo programas e atuando também em projetos. Isso porque precisaríamos alocar pessoas para área de desenvolvimento e investir constantemente nisso. Então começamos a buscar no mercado alguns programas. Chegamos a contratar o desenvolvimento de um software, exclusivamente para a nossa empresa, para atender às nossas necessidades, que posteriormente a empresa contratada colocou no mercado. Mas, a certa altura, achamos que o processo não estava avançando na velocidade de que precisávamos. Percebemos que atuávamos com diversos softwares que, ao invés de nos ajudar, estavam até atrapalhando em termos de produtividade e de uniformidade dos diversos projetos entregues, se comparado aos processos menos automatizados empregados até então.

Por que razão?

Quando os projetos ainda eram elaborados quase só manualmente, o escritório tinha uma linha de produção homogênea, uma identidade própria, de forma que o projeto podia ser identificado claramente como de nossa empresa. No momento em que passamos a contar com diversos softwares, aconteceu uma ruptura nesse processo. Os projetos passaram a sair com características um pouco diferente uns dos outros perdendo aquela homogeneidade. Por isso, fomos novamente buscar outros caminhos. A princípio, pesquisamos quais softwares estavam perdurando mais tempo no mercado e quais mantinham um processo de desenvolvimento continuado. Percebemos que, pela sofisticação das novas soluções estruturais exigidas pelo mercado, bem como a entrada em vigor de novas normas e novos conceitos de qualidade, precisaríamos de uma ferramenta que se mantivesse em constante evolução e que pudesse ajudar a modelar estruturas com alto grau de complexidade, tais como edifícios muito altos, lajes cogumelo, etc., exatamente o que vem acontecendo atualmente.

Então foi uma percepção de que o mercado trazia novas exigências construtivas, que os levou a buscar novas ferramentas, mais evoluídas?

Sim, edifícios mais altos, maior número de subsolos, o uso de paredes de gesso acartonado, fachadas prémoldadas, banheiros prontos tornaram a intensificação do uso de lajes planas maciças ou nervuradas, com ou sem cubetas, armadas ou protendidas em soluções imprescindíveis.

Ainda não existiam ferramentas capazes de realizar em tempo hábil um projeto com a alta sofisticação para o que se anunciava. Dessa forma procuramos encontrar no mercado uma empresa de desenvolvimento de softwares, para a nossa área, que estivesse buscando alcançar nossas necessidades. Essa escolha acabou se direcionando para os sistemas CAD/TQS e a evolução acabou acontecendo em um tempo muito menor do que esperávamos.

Há uma parceria entre software e os profissionais de cálculo?

Sim, percebemos que as ferramentas precisam ser bem entendidas, senão corremos o risco de não saber exatamente o que estamos processando e se os resultados obtidos são confiáveis. Por isso procuramos manter um relacionamento muito próximo com a TQS, tanto na participação de treinamento como cursos, e sempre que necessário acionando o suporte técnico. Destaco, ainda, a importância da experiência anterior. O profissional precisa ter uma idéia do resultado que ele deve obter com a aplicação da ferramenta, para poder avaliar e validar o resultado dos programas. Ele não pode achar que o computador irá resolver tudo.

Com os softwares, é possível refinar os carregamentos, refinar o resultado dos esforços e modelar o projeto, com maior confiabilidade. Por isso é preciso manter o treinamento continuado do pessoal. Pois é preciso haver o entendimento da tecnologia, da engenharia, dos novos conceitos e mudanças de normas, e analisar se os sistemas estão operando de maneira correta. É preciso ter capacidade e análise critica. E se não houver uma proximidade com quem elabora os sistemas, corre-se o risco de projetar, sem saber exatamente o quê. Hoje, as estruturas que estamos projetando com esse recurso, seriam impensáveis há décadas atrás. Nós evitávamos algumas soluções justamente por não termos soluções confiáveis para o cálculo.

Que outras mudanças o Sr sentiu no mercado, ao longo desse período?

Procuramos desenvolver o conceito de qualidade. Participamos de alguns programas de gestão de qualidade para controlar qualquer falha no projeto estrutural, mantendo procedimentos de controle das atividades. Não demos continuidade ao processo de certificação, mas adotamos todos os conceitos assimilados.

Qual sua opinião sobre a evolução do setor?

Ao longo desses 30 anos, presenciei em várias oportunidades no Brasil, movimentos cíclicos, com fases de crescimento econômico, quando as tecnologias mais modernas avançam, e momentos de crises, quando elas são abandonadas e ocorre um retrocesso. A construção ainda é muito artesanal com subsistemas que são pré-históricos, como o uso das alvenarias. A industrialização aumenta a velocidade de execução, melhora a qualidade, diminui a mão-de-obra e os riscos com acidentes de trabalho. Mas num momento de crise, os sistemas arcaicos voltam a ser utilizados, e as soluções modernas são deixadas de lado porque se tornam mais caras.

De que maneira isso interfere em seu trabalho?

Essa realidade exige alguns cuidados do projetista, com certeza. Um dos exemplos mais marcantes é o caso do concreto. Hoje é possível aplicar pré-moldados nas estruturas e vedação, o que exige algumas considerações previstas no projeto estrutural. Já no caso de estruturas moldadas in loco, o próprio transporte do material exige cuidados com os traços, por exemplo, para evitar prejuízo de certas características do concreto.

Então o projetista precisa estar atento a gargalos do processo, que podem dar margem a erros?

É isso mesmo. Procuramos saber da construtora qual é o sistema construtivo que ela tradicionalmente aplica, qual o ciclo de execução das lajes, o tipo de equipamento utilizado como, guinchos, gruas, o uso de sistemas pré-moldados, etc. É importante conhecer o perfil do construtor, seu modo de trabalho, para adequar o projeto à cultura da empresa. O que eu percebo é que, do início da minha carreira até aqui, muita coisa mudou na relação entre o projetista e o cliente.

O que, por exemplo?

Na época em que eu comecei, o projetista era o dono incondicional da solução estrutural. Hoje cada construtora tem a sua cultura, muitas são parecidas, mas o projetista precisa “dançar conforme a música”. Tem de levar em consideração as práticas de cada empresa. Quando se trata de um novo cliente, é preciso perceber qual é o seu perfil e interpretar isso no projeto. É comum ainda fazer o projeto para uma incorporadora, quando ela ainda não sabe quem será a construtora. Esta é uma dificuldade adicional, pois a construtora contratada poderá, depois, achar que aquela não é a melhor solução, ou que, dentro de sua análise de custos ou cultura, tem soluções mais baratas. Cada construtora tem o seu poder de negociação e uma forma de construir. Às vezes, ela aplica uma curva de desembolso que favorece o uso de certos sistemas, em detrimento de outros.

E, nesse caso, ele busca uma parceria com o calculista?

Há algumas situações diferentes. Nós temos clientes que surgiram na mesma época em que nós iniciamos. Eles confiam no nosso trabalho. Hoje é comum oferecer ao cliente mais de uma proposta estrutural para o mesmo projeto, dando maior liberdade ao construtor na hora em que a obra for efetivada. Há um espaço longo, às vezes, entre o projeto e a execução da obra, o que pode exigir mudanças no conceito estrutural, alongando ou reduzindo prazos. O calculista precisa ter essa flexibilidade para interagir com tantas situações diferentes.

Em que nichos a Monteiro Linardi costuma atuar?

Preponderantemente, na área de edifícios residenciais e comercias em São Paulo, Capital e Litoral Paulista; entretanto, temos atuado de maneira menos freqüente em outras cidades do Estado de São Paulo como Campinas, Ribeirão Preto, São José dos Campos, Jundiaí e também em cidades de outros estados como Belém do Pará; Maceió, Palmas e Manaus.

Qual é a tendência nesse setor?

O que está acontecendo hoje é uma elevação da altura dos edifícios residenciais e comerciais. A verdade é que, até poucos anos atrás, a média era da ordem de 18 a 20 andares. Atualmente, eles estão chegando a 30 e até 40 andares. Projetamos dois com 40 andares recentemente.

A que altura corresponde 40 andares?

A cerca de 120 m de altura. Do ponto de vista estrutural, o nível de tensão nos pilares, para dar um exemplo, são muito maiores do que antes. Estão sendo empregados concretos de alta resistência em geral, pois, obviamente, tanto os esforços provenientes dos carregamentos verticais como os horizontais devido à ação do vento são maiores, quanto maior for a altura do edifício. Essa é uma das principais diferenças. O que exige do calculista uma formação adequada para analisar esses elementos estruturais. Incluindo os subsistemas porque, no edifício alto, é preciso avaliar com cuidado especial os deslocamentos gerados. Alvenarias, vedações, revestimentos, etc., tudo ganha uma nova dimensão.

Que cuidados o Sr. acredita serem fundamentais?

Para a elaboração do projeto estrutural desses edifícios, temos sugerido a análise com modelo reduzido em túnel de vento, de forma a se obter mais subsídios para o dimensionamento estrutural. Em termos de execução da estrutura, recomendamos muita atenção no correto posicionamento das armaduras dentro das formas; cuidados na manutenção das características especificadas para o concreto em projeto e na aplicação, no que diz respeito ao transporte tanto horizontal quanto vertical, lançamento, vibração, cura e tempo de manutenção do escoramento.As formas evoluíram substancialmente nos últimos anos, permitindo estruturas com geometria muito boa, com desaprumos e desalinhamentos muito pequenos. Recomendamos ainda que nos demais subsistemas sejam contratadas empresas especializadas.

São os detalhes que fazem a diferença?

É preciso ter esses cuidados para evitar “patologias”, porque o refinamento do processamento do cálculo leva a estruturas mais arrojadas, e se não houver uma execução compatível e correta, dentro do que foi projetado, poderão sim surgir “patologias”.

Mas a remuneração também não acompanha esse processo?

A remuneração não vem acompanhando as crescentes exigências feitas aos projetistas de estruturas É preciso preservar a mão de obra e isso só é possível com honorários condizentes, para que o processo de constante evolução tecnológica dos recursos e dos profissionais envolvidos no desenvolvimento desses projetos, seja mantido. O canibalismo do próprio mercado tem sido um obstáculo para a elevação da remuneração, afetando a todos por igual, grandes e pequenos, bem ou não preparados. A nossa área é a primeira a sentir a queda no nível de atividade do mercado e se a retomada for lenta, pode ser que a empresa tenha de desmobilizar sua equipe.