Home » TQS News » Consulta » Entrevistas » Caminho das pedras
Caminho das pedras

Eng. Luiz Cholfe - Edição Nº. 20 - Janeiro/05

Luiz Cholfe diz que o papel do projetista mudou e só a união da classe poderá garantir a valorização profissional.

O engenheiro Luiz Cholfe é um dos mais renomados calculistas brasileiros. Sua empresa, Statura Engenharia e Projetos Ltda., com mais de 1500 projetos desenvolvidos ao longo de mais de 30 anos no mercado, respondeu também pelo projeto de recuperação das estruturas do Estádio do Morumbi. Cholfe é um dos militantes da união da classe participando de várias gestões da Abece (Associação Brasileira de Engenharia e Consultoria Estrutural) sendo hoje um de seus conselheiros. Ele é um dos principais porta-vozes do setor e alerta contra a desvalorização profissional, refletida na baixa remuneração dos projetos.

Pior do que isso, a seu ver, é a própria responsabilidade de segmentos desinformados que aderem a tal atitude predatória, reduzindo preços a ponto de comprometer a saúde financeira das empresas. O custo desse comportamento pode ser alto para a sociedade: “Poderão surgir projetos de má qualidade, com riscos de segurança. E em caso de falência das estruturas, o engenheiro calculista é cobrado pela responsabilidade civil”, destaca.

Qual a principal característica dos projetos estruturais hoje?

Atualmente os projetos se caracterizam pela integração de diversas soluções em um mesmo empreendimento. É comum haver ao mesmo tempo a aplicação de estruturas moldadas no local, pré-fabricadas e metálicas. Por isso, a precisão no detalhamento no projeto é fundamental para a qualidade da obra. Hoje os escritórios de cálculo estrutural precisam ter essa visão multidisciplinar da profissão e, mais que isso, uma visão global de mundo, uma cultura geral. O profissional não pode se dar ao luxo de trabalhar só com um material, seja concreto- armado, estrutura metálica, pré-fabricados, ou elementos de fachada. Às vezes, em um mesmo projeto estão presentes todos esses sistemas.

Qual o perfil das grandes construtoras contratantes?

A competição entre as construtoras criou um regime especial de contratação das obras, o PMG (Preço Máximo Garantido), onde o objetivo é a redução dos preços e o estabelecimento de metas e prêmios de performance que envolvem os fornecedores, parceiros, sub-empreiteiros e a própria contratante. Os engenheiros de obra passaram a ser administradores de contrato, com metas apertadas para cumprir, chamada de engenharia de valores. A pressão é total sobre os fornecedores e os primeiros da lista são justamente os projetistas. As modificações nos projetos para redução de custos partem dos próprios fornecedores pressionados pelos departamentos de engenharia das construtoras, criando uma “guerra” sem controle.

Há ainda as gerenciadoras?

O gerenciamento não deveria ser apenas outro instrumento de pressão. No entanto, exerce esse papel e conta com poder sobre o bloqueio de pagamentos e redução dos honorários. O gerenciamento deveria propor caminhos alternativos de melhor qualidade e não necessariamente de menor custo, buscando o equilíbrio entre as soluções de melhor custo e benefício. Temos de estabelecer um canal de comunicação com as gerenciadoras e defender esse ponto de vista.

Hoje o mercado conta com o fornecedor de soluções. Como ficam os projetistas nesse cenário?

Esse também é um caminho sem volta. Os fornecedores de sistemas prontos são muito competitivos porque embutem os custos de projeto, aparentemente gerando uma economia no valor global do empreendimento. Mas é preciso destacar o seguinte: o contratante não pode deixar toda a responsabilidade por conta do fornecedor. É preciso que o projetista do empreendimento avalie e valide as informações desse fornecedor.

Mas o que se vê são obras entregues em prazos cada vez menores?

É o caso dos supermercados, por exemplo, que são construídos em 100 dias. Como isso é possível? Porque se trata de obra multidisciplinar na qual se aplicam pré-fabricados, estruturas moldadas no local, estruturas metálicas e complementos. A construção é feita em paralelo, com várias empresas atuando ao mesmo tempo. Na verdade, trata-se de um processo de montagem. Mesmo assim precisa ser validado pelos projetistas. Aqui na Statura nós trabalhamos muito nesse campo. Validar significa analisar as hipóteses de carregamento, verificar as deformações previstas e contemplar as interfaces entre os diversos sistemas construtivos. Ou seja, o papel do projetista de cálculo mudou muito em comparação ao que ocorria no passado.

Mas a responsabilidade do projetista não foi reduzida?

Pelo contrário, continua. Algo pode dar errado, sim, e o projetista também é responsável. Ele é um verificador co-responsável. Nós atuamos nessa linha há pelo menos 10 anos e sabemos que a atividade de verificar não representa menor trabalho ou responsabilidade.

O mercado está ficando restrito para o engenheiro que atua de modo tradicional?

Eu acho que sim. O engenheiro que só faz um tipo de trabalho, que não tem essa visão global, acaba ficando à margem do mercado. Ele precisa se enquadrar e se adaptar à realidade atual.

E o que é preciso fazer para se inserir nesse processo, no caso, por exemplo, de um jovem engenheiro?

Em primeiro lugar, precisa adquirir uma cultura geral. O engenheiro hoje precisa ter uma visão global de sua atividade. Ele não pode entender só de concreto. Ele tem de compreender todos os sistemas construtivos existentes. O projeto é composto de diversos itens, inclusive na área dos prédios residenciais. Neles se encontram atualmente componentes como banheiros, fachadas e caixilhos prontos para instalação na obra.

O projetista precisa estar antenado, pesquisar, conhecer esses materiais e já ir se inteirando de suas possibilidades, antes mesmo de utilizá-los. A estrutura deve ser pensada para receber tais componentes e a oferta e diversidade deles vai aumentando, com as novas tecnologias que surgem. Este é um processo irreversível e se o profissional não tiver essa capacitação, fica para trás.

Como o engenheiro pode manter sua integridade diante desta pressão predatória, que reduz sua remuneração e amplia o riscos?

Só existe pressão predatória quando os prejudicados a aceitam. Os engenheiros de projeto têm de saber e conhecer o seu valor, têm de marcar sua posição. Uma obra não pode dispensar o projetista. Se é assim, é preciso reconhecer o seu valor. Mas quem tem de definir esse valor é o próprio profissional, que não pode se submeter a algo imposto de cima para baixo. Quando ele não aceita isso, automaticamente ele valoriza no mercado.

Essa pressão reverte-se no valor dos honorários e interfere na qualidade do trabalho. Para uma construtora, R$ 20 mil a mais ou a menos, não representam muito. Mas ela não vai pagar a mais, se puder pagar a menos. Se na cotação do projeto, o preço médio for R$ 150 mil, ela pagará tal valor. Mas se surgir uma proposta de R$ 80 mil, ela buscará o menor preço. É o projetista que permite a redução dos seus honorários.

Escritórios estão sendo fechados?

Não chegam a fechar, mas reduzem seu tamanho. E vão ficando em pior condição, sem capacidade para atender a um grande projeto. Mesmo para um grande escritório, o custo do projeto chega a ser maior do que os honorários. E para manter a estrutura em funcionamento, é preciso conquistar novos projetos para cobrir os deficitários. É um círculo vicioso que só traz malefícios para a empresa.

Há alguma solução possível?

A solução é simples. Os escritórios precisam de uma reserva técnica e uma reserva financeira, um capital de giro para manter a saúde da empresa. Mas acontece justamente o contrário. Ao invés disso, estão tendo prejuízo.

Só a união resolve?

A Abece está fazendo um trabalho nesse sentido há tempos, a partir do Grupo de Valorização Profissional. Mas os resultados ainda não foram alcançados por culpa dos próprios engenheiros. Se não houver uma mudança de mentalidade em toda a classe, não haverá melhoria. O engenheiro de estruturas representa uma elite intelectual dentro do setor da construção. Ele precisa investir em atualização constantemente. Por isso a base financeira precisa melhorar para todos. Se esse comportamento for homogêneo, os contratantes também aceitarão, normalmente. Se todos os projetistas se unissem e cobrassem o preço justo dentro da atividade, haveria uma melhoria significativa da classe.

A busca desenfreada pela redução dos custos é um caminho perigoso?

A otimização deve atender limites de qualidade, de segurança e desempenho. Esses limites nem sempre são levados em conta. A tendência da engenharia é colocar a redução dos custos em primeiro lugar. Mas o custo é uma decorrência da melhor solução adotada. Quando se busca uma otimização visando apenas a racionalização dos custos, automaticamente se elevam os riscos. É preciso buscar uma condição de equilíbrio, sem comprometer a qualidade e o desempenho da estrutura. E a posição do engenheiro é problemática porque ele responde por eventuais falhas do edifício.

Os engenheiros mais jovens são mais vulneráveis a tal processo?

Com certeza. Eles entram em um mercado desfavorável e pensam que isso é normal. Não têm a visão global do projeto que o engenheiro experiente já possui, uma vez que vivenciou diversas situações. Só essa vivência antecipa situações de riscos. O ideal é buscar o equilíbrio entre custo e qualidade e defender essa postura para o cliente. Um bom projeto agrega valores de segurança, desempenho e qualidade ao empreendedor.

Como o engenheiro pode utilizar a tecnologia da informatização em seu benefício próprio?

Nossa empresa, por exemplo, está executando projetos de clientes que estão na Alemanha, o que só é possível graças ao avanço da tecnologia. Os ambientes colaborativos “on line” permitem a comunicação entre diversos fornecedores, em diferentes locais. Mas exige um controle muito grande. Em nosso escritório, há profissionais que se dedicam somente a isso, pois qualquer alteração tem de ser colocada para todos os demais componentes do grupo.

Pode-se abrir um novo mercado aos projetistas brasileiros?

Claro, assim como pode abrir o mercado brasileiro para profissionais estrangeiros. Isso já está acontecendo. É inevitável. É o resultado da evolução das comunicações. Por isso os profissionais têm de se preparar para interagir com todas essas mudanças.

Qual o futuro dos escritórios de projetos estruturais?

Considerando-se todos esses aspectos, a garantia do sucesso profissional dos escritórios de projetos estruturais dependerá de uma conscientização geral. E ações que visem a proteção da nossa atividade dentro das regras existentes no mercado brasileiro. A dignidade profissional está vinculada a uma nova relação de parceria com os contratantes, contra a antiga posição de “fornecedor” de projetos. É fundamental ainda o investimento em tecnologia e no treinamento dos profissionais, a fim de incorporar o caráter multidisciplinar dos projetos modernos.