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Eng. Marcos Monteiro - Edição Nº. 19 - Junho/04 A Planear foi criada há quatros anos como uma empresa de projetos que atua em duas vertentes. Uma é a área de desenvolvimento de projetos estruturais atuando, principalmente, no mercado imobiliário. A outra é a de consultoria a fornecedores da construção civil, com foco principal no setor da siderurgia. Seu fundador, Marcos Monteiro formou-se pela Faculdade de Engenharia da Universidade Mackenzie, em 1988, e estagiou no escritório de Francisco Graziano e Mauro Wajchenberg. Trabalhou como Assessor Técnico da Gerdau, na Unidade de Aço para Construção Civil e mais tarde tornou-se sócio de Graziano, na Gramont. Por fim, decidiu-se por trilhar um novo caminho. Na Planear, ele trabalha no bairro onde cresceu, o Tatuapé, onde vive com a família. A esposa, arquiteta, é sua parceira na empresa. Com a TQS, outra antiga parceira, hoje divide o desenvolvimento de um software de gestão e produção para empresas de corte e dobra de aço. Em paralelo, ele tem apoiado a ABECE no desenvolvimento do trabalho de valorização profissional que deverá resultar, em breve, em ações que vão auxiliar os projetistas na valorização e formalização das atividades de projeto, visando melhorar as condições de atuação em um mercado altamente competitivo. Como foi que sua carreira começou? Sou formado pelo Mackenzie, em 1988. No 3º ano de curso, iniciei estágio em projetos estruturais no escritório Graziano & Wajchenberg. Logo após formado, consegui ingressar no curso de pós-graduação em estruturas na POLI / USP. Concluí os créditos, mas antes de finalizar a dissertação fui trabalhar na Gerdau. Permaneci por quatro anos na unidade de Aço para Construção Civil, onde elaborava projetos de conversão e pisos, além de assessoria a projetistas, obras e palestras sobre qualidade e produtividade na construção civil por todo o Brasil. Nessa época, conheci vários projetistas que atuam no mercado e acompanhei a criação da ABECE, já que a Gerdau foi uma das patrocinadoras. Este foi um grande passo nesse mercado, pois até então os projetistas não se conheciam. Cada um tinha os seus problemas e sua visão do mercado. Existiam grandes antagonismos e uma disputa nem sempre amigável. No entanto, na verdade, os problemas de uns eram os mesmos dos outros. Com a formação da entidade, os projetistas passaram a se conhecer mais e essa indisposição entre os escritórios diminuiu muito. A competição continua porque esta é uma situação de mercado, mas hoje os profissionais se relacionam muito melhor, compartilham idéias e existe a percepção de que a solução dos problemas do setor passa pela colaboração de todos. Por isso, a ABECE foi de importância vital para essa integração entre os projetistas. Você vêm tendo uma trajetória profissional diferente da maioria dos projetistas. Isso foi planejado? De certa maneira, sim. Saí da Gerdau para montar uma empresa com o Eng. Francisco Graziano. Nós trabalhamos em conjunto por quatro anos, até eu sair para montar a Planear, uma empresa com atuação em projetos, mas também consultoria, aproveitando a minha experiência no relacionamento consumidor-fornecedor do setor da construção civil. Muita gente me pergunta o porquê de, após ter feito uma parceria com o Graziano, um dos profissionais mais renomados do setor, ter desejado mudar de rumo. Não há uma resposta definitiva. A área de desenvolvimento de projetos é bastante complexa, exige muita dedicação e, ao mesmo tempo, não é valorizada. Em um determinado momento de minha vida, em função de problemas pessoais, comecei a pesar todos esses aspectos. Refleti muito sobre as condições exigidas pela profissão e o retorno profissional e pessoal. O projetista estrutural, em geral, é um apaixonado por sua profissão. A preocupação técnica se sobrepõe à questão comercial, e o aviltamento de preços chegou a um ponto alarmante. Hoje, o projetista precisa executar ao menos três vezes mais projetos, para manter um padrão de vida equivalente ao que tinha há 15 anos. Apesar de um certo aumento de produtividade com a informatização, hoje a dedicação tem de ser muito maior, refletindo na falta de convívio familiar e social, ou seja, mais do que dinheiro, o projetista está perdendo qualidade de vida e comprometendo seriamente a relação com seus familiares. Foi por isso que decidi mudar minha rotina de trabalho. Concluí que era preciso buscar uma maior qualidade no meu dia-a-dia, o que implicava em mudanças na forma de fazer algumas coisas. A principal delas, naquele momento, foi a decisão de trabalhar perto de casa, no Tatuapé, onde moro desde os 6 anos de idade, podendo estar mais perto da minha família. Essa decisão trouxe outras aberturas profissionais? Era uma de minhas expectativas. Continuei na área de projetos estruturais, mas voltei a atuar na área de consultoria, que tinha abandonado. Logo que montei a empresa, comecei a prestar consultoria para a Acindar, uma siderúrgica argentina que tinha adquirido uma operação aqui no Brasil. Essa experiência nas duas áreas, conhecimento do setor siderúrgico e o contato direto com a área de projetos e as obras, permitiram uma nova dimensão para o meu trabalho. Eu passei a compreender de uma forma mais abrangente os problemas de execução das obras, bem como, a dificuldade dos encarregados em interpretar os projetos, o que estava bom e o que era preciso melhorar. Quais são os pontos onde mais aparecem problemas? O aspecto mais importante no projeto estrutural é justamente sua conceituação e modelagem, isto é, entender como a estrutura funciona. Por outro lado, o projeto pode ter sido muito bem concebido, modelado e dimensionado, mas se na obra as armações tiverem comprimentos errados e não couberem nas formas, ou ainda, oferecerem grandes dificuldades de montagem exigindo adaptações em campo, então, aquele projeto, que é muito bom, perderá credibilidade junto ao cliente. Ou seja, tecnicamente ele é perfeito mas para a produção na obra deixa muito a desejar. Qual é a solução mais indicada? Minha visão sempre foi a de que o projetista tem de participar da obra, o que não é tradição na nossa área. Além disso, com os preços que estão sendo praticados, o engenheiro não tem muito tempo para visitar a obra e acompanhar o trabalho, o que, a meu ver, é um erro. Eu já ouvi a seguinte frase: "eu não vou à obra para não ver os erros de execução, assim fico mais tranqüilo". Eu penso que nós devemos, sim, ir às obras para ver os erros que estão sendo feitos. Isso serve tanto para melhorar o nosso projeto, como para verificar o que não está sendo respeitado na produção, o que podem ser coisas bastante graves. É claro que o projetista tem de cobrar por essa atividade, mas ele tem de estar presente. A Planear não têm buscado clientes fora da região do Tatuapé: o foco dela é a Zona Leste de São Paulo. Isso permite, que se os clientes tiverem alguma solicitação, podemos nos deslocar rapidamente até a obra para verificar o problema. A questão é ser remunerado por isso, mas acredito que o cliente acaba valorizando esse aspecto e, na hora de fechar um contrato, ele analisa esses diferenciais, além do preço. Você acha que este é um dos pontos críticos entre projetistas e construtores? É muito importante ao projetista mostrar para o cliente que aquele algo a mais é muito importante. O acompanhamento do profissional é um diferencial, seja pela tranqüilidade, segurança e confiança que transmite. Claro que esta aproximação é difícil à medida que a construtora cresce. Quanto maior a construtora, mais distante você está do foco de decisão e a análise passa a ser muito fria, ou, mais exatamente, monetária. Fica mais difícil porque o corpo técnico da obra não tem o poder de decisão sobre a escolha do projetista. Numa construtora menor, em geral, o profissional fala diretamente com o dono e existe um relacionamento, facilitando o reconhecimento desses diferenciais. O projetista pode até ir mais vezes até à obra do que o padrão de mercado, mas há mais chances de ele ser melhor remunerado. Eu diria que para os escritórios menores este pode ser um caminho, ou seja, regionalizar-se e diferenciar o atendimento para ser mais competitivo. Você é um dos participantes do grupo de valorização profissional da ABECE. Como tem sido a evolução desse trabalho? No final de 2001, houve uma reunião na entidade para se discutir sobre a desvalorização do projeto estrutural e a dificuldade do cliente em compreender a importância dessa atividade no seu empreendimento. Percebemos que não adiantava se falar em honorários mínimos, pois, esta a questão era mais abrangente, dizendo respeito, na verdade, à valorização do profissional. Então o grupo coordenado pelo engenheiro Augusto Pedreira de Freitas, que já vinha atuando no trabalho de desenvolvimento do escopo de projeto, agregou também essa causa. Por que os profissionais ainda lidam com esse problema? O comprador reclama muito por não receber do projeto tudo o que ele precisa, enquanto o projetista acha que faz muito mais do que deve pelo que recebe. Existem várias questões mal resolvidas nessa relação. Uma das ações mais acertadas, desenvolvida pela ABECE, foi a definição do escopo mínimo de um projeto estrutural. É uma ferramenta que reúne todas as fases e interfaces de desenvolvimento do projeto, definindo que serviços são básicos e quais são adicionais. Esse trabalho foi desenvolvido em conjunto com entidades como o SINDUSCON e o SECOVI, estando pronto para ser lançado. Além disso, acabou levando a iniciativas semelhantes de entidades como a ASBEA e ABRACIP. Depois de tanto trabalho, quais são as principais conclusões? Nesse período, o grupo se certificou de que a valorização profissional passava pela formalização das atividades de projeto e pela operacionalização das diversas ações que vêm sendo desenvolvidas pela ABECE, além de uma orientação sobre honorários de referência. A idéia não foi de formatar uma tabela, mas sim mostrar aos projetistas como é a formação de preços de um projeto estrutural. Para isso, foram feitas consultas a vários escritórios de diversos tipos e portes. A partir de tipologias pré-estabelecidas foram levantados custos de desenvolvimento de projeto para uma empresa inserida no mercado formal, ou seja, com atuação regular, legalmente estabelecida, corpo fixo de funcionários, softwares regularizados e com condições de desenvolvimento. Qual a credibilidade de um projeto estrutural se a empresa que o elabora é totalmente informal? Nessa situação, a empresa pode até sobreviver mas não consegue se desenvolver. Por meio do escopo mínimo e da tabela de valores de referência, o cliente poderá saber o que é e qual o valor justo para um projeto de boa qualidade, mesmo que haja pequenas variações para cima ou para baixo. Por outro lado, se o valor estiver muito abaixo dessa referência, provavelmente, alguma coisa não está certa. É importante destacar que um escritório que não consegue se manter, fecha ou muda de nome. E a construtora ficará desassistida, caso venha a correr algum problema em seu empreendimento. O trabalho evoluiu em outros campos? Foram desenvolvidas planilhas de gerenciamento, colocadas de uma maneira muito simples, para que o projetista levante os custos do seu escritório de maneira rápida e fácil. Ele pode verificar, por exemplo, que existe um valor mínimo, abaixo do qual é melhor não pegar o projeto, senão haverá grande risco para a empresa. Assim, é possível para cada escritório avaliar seus custos e definir um patamar abaixo do qual não se pode descer. Outra planilha que será distribuída permitirá ao cliente, com base em seu projeto de prefeitura e em alguns fatores adicionais (K), a determinação do valor de referência do projeto estrutural. O fator K contempla o número de subsolos, de pavimentos adicionais, existência de transições, contenções, entre outros elementos, e levam a um valor base do projeto compatível com a condição da obra. Saliento novamente que o importante é que esses valores foram definidos com base na realidade de custos de diversos escritórios e compatíveis com o objetivo de formalização da atividade de projeto estrutural. Quais serão os próximos passos? Estudamos uma forma de integrar ao projeto a questão do seguro, do escopo, de um modelo de contrato padrão e da validação do projeto estrutural. O seguro profissional, em caso de algum problema na obra ocasionado por erros de projeto, garante ao cliente o ressarcimento de custos adicionais gerados por intervenções na estrutura. O escopo elenca as fases do projeto, dando transparência ao processo e evitando discussões futuras. Um outro problema é que o setor ainda peca por não utilizar contratos, não havendo formalização da contratação. Por fim, a validação dos projetos poderia definir, para projetos a partir de determinado porte, limites de deformações, condições de análise de estabilidade entre outros parâmetros a serem respeitados, seja com base nas normas brasileiras ou internacionais, a fim de garantir ao cliente que seu projeto foi desenvolvido dentro das recomendações da boa técnica. Há grande dificuldade do cliente em compreender o projetista e seu trabalho? Com a informatização, o resultado gráfico é muito parecido. Mesmo que os trabalhos sejam diferentes do ponto de vista conceitual e de segurança, graficamente podem parecer semelhantes. Isso não é culpa das empresas de software, mas é a percepção do cliente. A análise da qualidade do projeto, muitas vezes, só pode ser comprovada dali a alguns anos. Há dificuldades em se avaliar corretamente a qualidade de um projeto , implicando riscos aos moradores, pois, é comum encontrarmos projetos que não respeitam as normas ou conceitos básicos de equilíbrio. Por que hoje isso acontece com maior freqüência? No passado, fazer um projeto era quase uma Arte. O projetista de formas, profissional que era formado ao longo dos anos pelo escritório, ajudava o engenheiro a lançar as fôrmas do edifício, o que fazia como se pintasse um quadro. Existia maior envolvimento. Com o intenso processo de informatização, perdeu-se muito desse romantismo. Claro que este é um processo global, que envolve aspectos econômicos, mas preocupa porque o processo antigo se fundamentava em várias etapas de verificação e revisão dos projetos. Hoje os escritórios enxugaram demais seu corpo técnico e, por vezes, o próprio engenheiro que modelou a estrutura, desenhou as armaduras e fez a verificação. É a mesma pessoa que está fazendo tudo, e isso é muito prejudicial porque aumenta a possibilidade de erros passarem sem serem notados. Os escritórios que estão há mais tempo no mercado estão sentindo esse problema. Eles têm consciência de que a confiabilidade do projeto hoje é inferior, mas precisam se adaptar-se às condições do mercado. Eu tive a felicidade de viver o final dessa fase romântica e a da pré - informatização. Vi os benefícios dos sistemas na absorção do trabalho braçal. Mas observo também que há distorções que devem ser corrigidas. No passado, como não havia ferramentas muito sofisticadas, era preciso simplificar o modelo de cálculo do edifício aplicando-se as bases e conceitos tradicionais da engenharia de projeto. Hoje um engenheiro recém-formado tem acesso a uma ferramenta extremamente poderosa, que envolve conceituação de projeto muito pesada, complexa. E por não ter vivência, por não ter essa base teórica muito forte, não tem como analisar se os resultados são consistentes. Este é o lado perigoso. Que risco é esse? Se, por um lado, há uma ferramenta que consegue dar uma rápida resolução para os problemas, por outro, nem sempre quem está operando esse instrumento tem a capacidade de avaliar todos os conceitos envolvidos e seus limites de validade, empregados na solução da estrutura. Já vi situações em que a estrutura poderia ter sido levada à ruína por modelagem inadequada, mas que passou, porque ninguém pegou as falhas do projeto. Esta é uma situação que envolve risco de segurança para quem depois vai utilizar a estrutura e aponta para o uso inadequado das ferramentas disponíveis. A Planear fez uma parceria com a TQS. Qual é o objetivo? Dentro de sua filosofia de prestação de serviços e consultoria, a Planear detectou a necessidade de desenvolvimento de ações junto às empresas de corte e dobra de aço: elas precisavam de uma ferramenta para auxiliar a produção, bem como para gerenciar a empresa como um todo, seja área de vendas, logística ou gestão. A TQS já tinha algo nessa linha, o CORBAR, mas carecia de continuidade de desenvolvimento. Fiz um contato com o Nelson Covas, mas sem muita expectativa, achando que não fosse interessar a ele em função do grande volume de trabalho com as inovações em curso dos programas de cálculo. Contrariando minha expectativa inicial, ele se interessou e acreditou na idéia. Foi assim que iniciamos o desenvolvimento da família G-Bar. Família G-Bar? Sim. Durante nossas conversas, idéias surgiram e se concretizaram, tanto que hoje temos algumas soluções inovadoras em nível mundial. O G-Bar INT é uma ferramenta completa para produção e administração das empresas de corte e dobra de aço. Tem gerenciamento, controle de estoque, produção, vendas, tudo de forma integrada, possibilitando um controle completo da empresa. O G-Bar OR contempla apenas as atividades de produção da central de corte e dobra, sendo indicado para empresas que estão satisfeitas com seu software de administração e necessitam otimizar as atividades de produção. Uma grande vantagem do sistema é que, por ser desenvolvido sobre plataforma de banco de dados, permite o intercâmbio de informações com outros softwares administrativos. Além disso, as ordens de produção já são geradas com códigos de barras bidimensionais, permitindo a programação automática das estribadeiras, reduzindo muito o tempo e os erros de programação das mesmas. Por fim, o G-Bar IGV irá permitir a racionalização das atividades dos departamentos técnicos das centrais de corte e dobra, através da importação digital de dados de projetos gerados pelo sistema TQS e de uma série de facilidades para verificação da consistência dos projetos e gerenciamento das entregas. Parece interessante, mas isso não trará acréscimo de trabalho aos projetistas? Estamos muito atentos a esse aspecto. Essa importação digital não é feita em nível mundial, em função da complexidade na geração de informações das armaduras de forma padronizada e consistente. Várias ações vêm sendo desenvolvidas para que nada mude na rotina do projetista. Assim, desde que opere o sistema CAD/TQS corretamente na geração das armaduras, a central de corte e dobra terá condições de importar essas informações para o G-Bar IGV e, posteriormente, enviá-las para qualquer software de gerenciamento da produção. Temos sido muito enfáticos com as centrais no sentido de mostrar que o projetista é peça fundamental para o sucesso do projeto. E como está a andamento desse processo? Criamos uma empresa, a TQS-Planear, apenas para desenvolver e comercializar o G-Bar, com grande preocupação em dar suporte adequado aos clientes. Eu acredito que estamos dando um grande passo para auxiliar a integração da cadeia produtiva que envolve as construtoras, os projetistas e os fornecedores do serviço. Essa ferramenta consegue agilizar drasticamente a comunicação e, principalmente, reduzir muito as possibilidades de erros, o que é interesse de todos. Esse é o caminho: utilizar as ferramentas computacionais para melhorar a produtividade e a qualidade de vida dos envolvidos.
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