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Eng. Augusto P. Freitas - Edição Nº. 18 - Junho/03 Desde de que foi criada, há cerca de 10 anos, a Associação Brasileira de Engenharia Estrutural (Abece) vem desenvolvendo um grande esforço com o objetivo de reposicionar o projetista no mercado. É evidente que o setor nunca poderia dispensar ou substituir esse profissional. Mas achatou-se a remuneração a um ponto tão insustentável, que se reflete principalmente na qualidade dos projetos. Foi para enfrentar esse problema que a entidade criou há três anos um grupo de estudo - hoje chamado Grupo de Valorização Profissional - que reúne escritórios de São Paulo e de todo o Brasil. O trabalho, coordenado por Augusto Pedreira de Freitas, vem conquistando importantes adesões, como as do Sinduscon-SP, Secovi-SP e Asbea, e vai resultar em duas publicações fundamentais para a sobrevivência do segmento. Uma sobre os escopos exigidos na formulação de propostas e outra que aponta valores de referência para remuneração. É sobre esse desafio que o engenheiro Augusto Pedreira trata nesta entrevista. Da ala jovem, Pedreira vem liderando um luta aguerrida que passa pela conscientização não somente de contratantes, mas principalmente dos próprios projetistas. Como começou esse trabalho visando a valorização da atividade? O que se vem notando é uma grande desvalorização do engenheiro estrutural, com a banalização da profissão. A nossa luta é para reverter esse quadro e voltarmos há 20 anos atrás, quando a engenharia estrutural era muito valorizada dentro da cadeia de desenvolvimento de projetos, tanto pelo projeto civil como pela área de execução. Por isso, começamos esse trabalho há três anos dentro da Abece. Num primeiro momento, o objetivo era fixar qual o escopo que deveria ser utilizado para se contratar um projeto de estrutura. A intenção inicial era colocar diretrizes de atuação? Exatamente. Esse trabalho durou um ano e terminou com um texto base que apontava as fases de projeto e os escopos dos serviços de determinado tipo de projeto. Ou seja, o que era essencial e o que era opcional. E descrevia todos os insumos necessários em cada fase para garantir um bom trabalho. Entendíamos que a contratação tinha de ser uniformizada, realizada a partir da mesma base de princípios. E a entrega dos projetos também deveria ter um mínimo de apresentação comum. Esse trabalho envolveu todas as interfaces. Esses critérios facilitam o trabalho dos projetistas? O que ocorria e ainda ocorre é que o orçamento é realizado pelo construtor, que apresenta elementos que nem sempre são completos. Na hora de orçar, o profissional acaba se baseando na sua própria experiência. Isso gera uma diferença muito grande de valores, pois um projetista A, em virtude de seu conhecimento da construtora, do terreno e da região, pode incorporar elementos que um outro não levou em conta. Ou seja, são projetos de uma mesma obra, mas de conteúdo e, por conseqüência, valores às vezes muito distintos. Isso acaba confundindo o cliente, que não percebe a diferença entre os escopos apresentados. Então esse trabalho deverá fornecer e esclarecer os escopos de serviços mínimos necessários para diversos tipos de empreendimentos. Acreditamos firmemente que essa é a melhor solução para todos os lados, contratantes e contratados. Esse desequilíbrio acabou nivelando os projetos pelo menor preço? O cliente compra pelo menor preço, mas exige o maior escopo. E assim achatam-se os preços de toda a categoria. Colocado contra a parede, o projetista acaba aceitando. Esses conflitos são muitos comuns. Mas esse não é um trabalho só para a Abece. Precisa haver um acordo amplo que integre toda a classe. Uma espécie de acordo setorial. Por esse motivo é que procuramos outras entidades representativas como Asbea (Associação Brasileira dos Escritórios de Arquitetura) e a Abrasip, de instalações, além das entidades patronais Sinduscon-SP e Secovi. Tivemos uma conversa franca, num diálogo que levou pelo menos seis meses. Nosso objetivo era convencê-los de que esse trabalho era importante para eles também. O escopo de projetos estrutural e de projeto de instalações já terminou. E agora estamos concluindo o escopo dos projetos de arquitetura. Assim vamos fechar um tripé e formatar uma linha de raciocínio que serve a todos, sem distinção. Quais são os problemas mais comuns que ainda ocorrem? Um exemplo bastante normal é do projetista que recebe um quadro de áreas para executar o orçamento, acompanhado de uma planta básica do pavimento-tipo. Como não se trata de informações com bases mais realistas, ele não consegue identificar, por exemplo, os volumes de contenções necessários, ou se a obra vai pedir sistemas, como parede diafragma, lajes de transiçäo, ou outros procedimentos. Como a informação inicial é mínima, caberá ao projetista, devido à sua experiência, prever sistemas que somente no futuro se comprovarão adequados ou não. Então os valores estão presos a elementos de avaliação pessoal. Por isso, dois projetos podem apresentar preços tão diferentes, não sendo possível julgar de antemão qual deles é o mais coerente. Trata-se de um orçamento realizado com base em itens subjetivos? Por enquanto, sim. Mas a publicação desse trabalho deverá trazer um grande benefício para os contratantes, ao esclarecer pontos até então obscuros na contratação dos projetos. Para orçar, será preciso avaliar algumas condições de vizinhança, de subsolo. E se o projetista não conhece a característica do construtor, ele terá de ser mais investigativo para montar um perfil mais completo do projeto. Na hora de montar o caderno de contratação, o contratante poderá exigir esses itens. Os projetistas por sua vez estarão assegurando os serviços incluídos no seus orçamento. Esse trabalho vai ser publicado pela Editora Pini e as entidades Sinduscon-SP e Secovi tratarão de divulgar essa prática junto aos seus associados. Afinal quem precisará exigir são eles, os contratantes. Como projetistas, nós temos de exigir a definição e o volume dos insumos a serem orçados para produzir um projeto mais realista. Houve alguma resistência a essa iniciativa? Na hora em que começamos a falar dos escopos, a primeira idéia, dentro do próprio Sinduscon-SP foi de que era algo ligado à remuneração. Tivemos de provar que não estávamos ali para aumentar o preço do projeto. Estamos preocupados em agregar valor ao projeto, em oferecer mais subsídios para os contratantes poderem avaliar melhor no momento da escolha. Claro que naturalmente, quanto mais informações e serviços a serem executados, mais complexo o projeto se torna e ganha mais valor. No entanto, dentro de um propósito realista e claro para todos. Não deverá haver perdas para os projetistas? Para muitos significa fazer o mesmo que estão fazendo hoje. Entretanto, os concorrentes terão de atuar da mesma forma oferecendo ao contratante condições de melhor avaliar o projeto. Hoje isso não é feito e ele não sabe o que está ou não embutido ali, o que o orçamento está agregando de valor. Outra discussão diz respeito à remuneração dos serviços. O senhor acredita que possa haver uma modificação nesse campo? Uma vez definidos os insumos de escopo, passamos a estudar a questão da remuneração adequada. Até hoje, o que rege a nossa remuneração é uma tabela, produzida pelo Instituto de Engenharia. O que ocorre é que depois de cálculos prontos, são dados descontos de 40 ou 50%. Ou seja, um tabela de honorários mínimos que ainda leva desconto. O próprio contratante acha isso até estranho. E se pergunta: "como é que vocês fazem isso, se eu não consigo dar nenhum desconto?". E logo deduz que os valores não estão corretos. Nas reuniões com o Sinduscon-SP, percebemos que a preocupação deles muitas vezes não é o valor, mas sentem-se enganados pelos projetistas. Pois fazem uma tomada de preço, onde recebem propostas cinco vezes diferente uma da outra. O construtor até acha o valor do projeto barato, mas por que pagariam mais se há quem ofereça preços abaixo da média? Há outras razões para esse problema? O escritório está com um problema de pouco serviço e, ao invés de reestruturar-se internamente, quem sabe mudando até mesmo o tipo de administração, opta por abaixar os preços de seus serviços. E isso vira uma bola de neve. Na verdade, o escritório é que está inviável. Talvez fosse preciso repensar a viabilidade desse escritório diante das ferramentas que existem hoje. Ferramentas como os softwares de projeto e outros? A verdade é que o marketing dos softwares foi muito mal explorado pelos projetistas. Quando os profissionais começaram a utilizar essa ferramenta, que agilizou etapas e permitiu ganho de tempo, muitos passaram a vender a idéia de varinha mágica de condão. Tudo passou a ficar mais fácil e rápido, por causa do software. Em vez disso, o marketing deveria ter sido feito com base na idéia de que os projetos ficaram mais elaborados com uma ferramenta que facilita cálculos mais complexos. O senhor quer dizer que essa ferramenta virou uma panacéia e sucumbiu o valor do trabalho do projetista? Tinha gente que dizia: "me entrega o seu projeto de arquitetura que eu entrego o meu de estrutura daqui a uma semana". O que pode ser possível, mas a que grau de qualidade? E além disso, o cliente começou a achar que essa industrialização do projeto reverteria em custos mais baixos. Daí veio a idéia, que para muitos persiste até hoje, de que para desenvolver um projeto estrutural, basta apertar um botãozinho, independente de quem seja o projetista. Na época, ainda não se utilizavam os softwares da TQS, que vieram depois. Mas, por causa de uma frase mal feita, comprometeram-se anos de desempenho de toda a classe de projetistas, imagem deturpada que agora tentamos derrubar. Como o cliente deve encarar essa relação entre projetista e software de engenharia? O cliente tem de saber que a ferramenta que temos é, sim, muito poderosa e permite desenvolver muito mais engenharia do que antes. Os softwares permitem análises que consumiriam meses, caso fossem feitas manualmente. Essa ferramenta eliminou serviços manuais e repetitivos ao profissional, que pode agregar mais inteligência ao projeto. Com ela, os projetistas poderiam fazer um trabalho melhor do que antes. Mas o que está ocorrendo é o contrário. Por conta de preços muito achatados, o projetista não consegue entregar um trabalho melhor porque precisa cortar itens, por exemplo, a verificação ou procedimentos administrativos, que podem comprometer a qualidade do serviço. Estamos acendendo o sinal de alerta. O achatamento da remuneração já ultrapassou o seu limite suportável. E pode-se dizer que entrou numa linha de risco, resultando em projetos abaixo do nível de qualidade mínima necessária. Como essa realidade pode ser alterada? Essa tabela de referência para remuneração da Abece, com valores diferenciados por categorias de edificações, é um dos passos para reverter essa situação. São valores acordados em função dos custos de um escritório em funcionamento e a partir de um modelo de projeto com qualidade. Já há até um programa da TQS, que poderá ser utilizado por projetistas e contratantes, que vai facilitar esse cálculo tão logo os valores estejam definidos. O cliente poderá, por exemplo, pesquisar o custo referencial de qualquer projeto de edificação. Se, pela nossa tabela, esse valor girar em torno de R$ 50 mil, poderá avaliar com as propostas que estiver recebendo e questionar sobre o escopo dos serviços apresentados. E os projetistas que não fazem parte da Abece? Estarão contemplados? Esse Grupo de Valorização já conta com 52 escritórios em São Paulo. É uma base respeitável e corresponde a 90% dos projetos do Estado. Se o valor de referência for utilizado por todos, os demais naturalmente deverão se incorporar ao grupo. Imaginamos que os valores possam passar de 15 ou 20% a menos ou a mais, dependendo da situação do escritório, da política de comercialização, e de sua experiência. Mas haverá uma comparação com base em valores mais realistas. Essa é uma forma de valorizar a atividade e trazer a remuneração para um nível mais razoável e próximo das nossas necessidades. Esse trabalho também será seguido pelas demais entidades? Essa tabela deverá ser publicada junto com o trabalho dos escopos. A da Asbea está em sua fase final. Essa entidade, por sinal, já havia realizado um trabalho nesse sentido .Com isso, esse trabalho ganhará muito mais peso e força no mercado. Foi um longo percurso até aqui, com reuniões todas as semanas, discutindo e ajustando item por item. Por isso se trata de uma grande conquista para todos nós, projetistas e arquitetos. Qual deverá ser o próximo passo? Percebemos que todo esse trabalho requer ainda a mudança da imagem do papel do projetista. Por esse motivo, contratamos o trabalho de um profissional de marketing, o Enio Padilha, que vem nos auxiliando a conscientizar os escritórios sobre a necessidade de mudança de linguagem. Esse é um trabalho a longo prazo que inclui a catequese das bases. É preciso atuar até na formação dos engenheiros. É preciso mostrar para os profissionais que o marketing de uma escritório não deve se concentrar somente no item preço, hoje responsável por 90% do marketing dos escritórios. É preciso fazê-los compreender que o melhor marketing é aquele em que o mix está bem dividido sem sobrecarregar somente o preço. Há uma dificuldade grande nisso. Porque tem muita gente que não crê na mudança do mercado contratante. Mas ela poderá ocorrer, a partir da valorização do profissional e da atividade. Haverá riscos para o projetista? Risco ele corre hoje. Vou citar um exemplo. O contratante chama um escritório e pede que ele auxilie a desenvolver um projeto. O profissional faz os estudos preliminares, presta assessoria ao arquiteto e discute uma solução estrutural. Na hora de discutir preço, o contratante diz: "ah, você tem a preferência na concorrência desde que apresente o menor preço". Como ele já estava no projeto, e para não perder mais, se sujeita ao menor preço. Senão, o cliente procura outro escritório que oferece preços mais baixos. Isso é muito comum. E muitas vezes, o escritório nem sabe que um colega já estava atuando no projeto. Então é preciso mostrar para o contratante que não é assim que se trabalha. Por isso, estamos elaborando uma espécie de pacto. O projetista precisa adotar um contrato de honorários para esse tipo de serviço. Se, posteriormente, o contratante quiser outro escritório, deve remunerar os serviços inicialmente prestados. Apesar de ser óbvio, não é o que acontece. No entanto, é um procedimento que precisa ser acordado por todos, pois haverá quem procure por um escritório que trabalhe no risco total. E nesse caso, o maior risco é do próprio escritório. E quem está começando na carreira? Esse profissional deve buscar um tipo de trabalho adequado ao seu know-how, pois ele terá de passar por uma evolução natural até se credenciar a desenvolver trabalhos mais complexos. Sabe-se que há projetistas inexperientes fazendo projetos de edifício de 20 pavimentos. Ele pode até estar fazendo um bom trabalho, mas não tem a bagagem para enxergar possíveis problemas. O ideal seria esse profissional poder trabalhar em condições normais, evoluir com o tempo e obter experiência. Por exemplo, tem muitas obras que nem têm projeto estrutural. É o mestre que faz o trabalho com base no seu conhecimento. Se conseguirmos conquistar essa fatia, mostrando a esse cliente a economia produzida por um projeto, poderemos criar uma boa área de atuação para quem está começando. Esse é o trabalho de base, institucional, que passa por uma comunicação com o público leigo. Aliás, quando se fala para esse público sobre o projetista, ele nem sabe do que se trata e confunde-o com o engenheiro civil. O projeto estrutural é um ilustre desconhecido? É mais ou menos isso. No entanto, toda a nossa vida está baseada em um projeto estrutural. As propagandas de empreendimentos no jornal mostram o projeto de paisagismo, de arquitetura, mas omitem o projetista estrutural. Pergunte-se aos moradores do Edifício Palace II se eles não se preocupariam com a solidez da estrutura hoje. Não que tenha sido um problema estrutural, mas é algo fundamental que deveria fazer parte das preocupações e exigências de quem compra um imóvel. O resgate da profissão passa por todos esses pontos de vista. Um mercado mais organizado, honesto, vai trazer credibilidade na hora da negociação. E isso vai resultar em benefício na qualidade, no relacionamento entre profissional e cliente e, principalmente, na segurança para toda a sociedade.
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