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Entrevista - Eng. Francisco Paulo Graziano

Eng. Francisco Paulo Graziano - Edição Nº. 17 - Outubro/02

As mudanças nos sistemas construtivos refletem-se também na postura da engenharia estrutural. Os profissionais devem ficar atentos tanto às mudanças dos processos de construção assim como a compatibilização entre elementos cujas características estão mudando com muita velocidade. Essa é a opinião de Francisco Graziano, diretor da Abece.Ele adverte sobre a ocorrência de patologias diversas em virtude de deficiências na compatibilização entre materiais ? como alvenarias e fechamentos ? e a estrutura. Diz ainda que os profissionais precisam se aperfeiçoar para acompanhar e buscar soluções à altura das novas dificuldades. A seu ver, jovens engenheiros deveriam atuar como colaboradores de projetistas experientes. Mas correm muitos riscos ao se lançarem na elaboração de projetos estruturais sem concluir um estágio maior de experiência. Nessa entrevista, Graziano diz ainda que os engenheiros estruturais erraram ao tratar os softwares como instrumento de marketing e colocando a experiência profissional em segundo plano.

Quais foram os sistemas e tecnologias que mais influenciaram o projeto estrutural nos últimos anos?

Na verdade, podemos citar as paredes de gesso acartonado e as paredes de fachada arquitetônica de concreto. Por serem produtos industrializados, esses elementos interferem bastante no desenvolvimento da obra e do projeto.

Nesse caso incluem-se os módulos, como banheiros reforçados com fibras, utilizados por algumas empresas?

É outro caso que também necessita de uma abordagem específica para o projeto da estrutura. Porque esses banheiros pedem um outro revestimento, seja de parede de gesso acartonado ou de outro tipo. É uma inovação a ser considerada. Eu diria que a maior influência desses módulos é o fato da unidade já chegar pronta à obra. O que obriga a se manter uma passagem pela fachada interferindo com as vigas da estrutura. Além disso, muitas vezes também é preciso deixar um rebaixamento nas lajes, o que altera de alguma forma o detalhamento. Mas ainda não existe uma grande difusão desses módulos.

Então, a grande novidade, mais empregada hoje no mercado, são as paredes de gesso acartonado?

Sim. O que o mercado está empregando em maior escala é o dry-wall, material que realmente causa impacto na estrutura devido ao seu menor peso. Por outro lado, as placas arquitetônicas em concreto pré-moldado empregadas nas fachadas são mais pesadas do que as paredes de alvenaria. A própria forma de fixar requer um estudo e uma forma diferente de se detalhar, em comparação ao habitual.

A ampliação desses sistemas industrializados exige uma nova visão do engenheiro estrutural?

Há o avanço do pré-moldado na construção e a possibilidade cada vez maior de se industrializar as peças. Ou ainda de se terceirizar uma parte do trabalho de mão-de-obra. Um exemplo são as empresas de corte e dobra de aço. Há um forte crescimento desse tipo de terceirização. E a tendência é que se dê um passo à frente, fazendo com que essas empresas façam esse serviço dentro do próprio canteiro. Ou seja, a armadura de todas as lajes, vigas e de todos os pilares já viriam prontas da usina e seriam colocadas na fôrma por uma equipe terceirizada.

Então, isso muda o método de construção e interfere também no desenvolvimento do projeto estrutural?

Sem dúvida. Quando isso ocorrer em maior escala, poderemos acompanhar uma tendência já consolidada em muitas regiões do mundo, em que o projeto estrutural é mais conceitual. O engenheiro de estrutura se encarregará de definir a forma e os detalhamentos de uma maneira mais básica, não executando o detalhamento final. Isso vai ficar a cargo das empresas fabricantes, que vão buscar detalhes mais coerentes com o seu processo de industrialização. É lógico que vão ter de submeter esse detalhamento ao projetista estrutural. Ele pode propor novos detalhes e aperfeiçoar o conjunto. Mas será um novo sistema de trabalho, diferente do modelo atual.

Isso não deve implicar diferenças nos custos e na qualidade?

Com certeza, deve mudar um pouco o panorama dos custos internos de projeto. Mas os maiores custos estão na engenharia e não no desenho em si. Talvez isso cause um pequeno decréscimo dos valores de projeto. Mas não acredito que possa ser significativo. O que vai ocorrer na verdade é mudança do processo, uma vez que esses mesmos projetos deverão voltar ao escritório para serem verificados e aprovados pelo projetista.

Esse processo deve ser benéfico, então?

O que se deve entender é que as construtoras vêm tentando se aproximar do conceito de montadoras e, assim, minimizar ao máximo a mão-de-obra envolvida. Então, se lembrarmos que há uma forte rotatividade de mão de obra na construção, podemos pensar que essa mão-de-obra pode fluir para essas empresas de montagem, ao invés de ficar na dependência das construtoras terem ou não novas obras. Porque essa rotatividade acaba prejudicando o treinamento e a formação de uma mão-de-obra qualificada. Ao passo que, se houvesse equipes fixas, com serviço continuado, haveria um salto de qualidade. Essas pequenas empresas teriam maior capacidade de absorver mudanças do que uma empresa de construção. Esta é uma tendência mundial e eu acredito que ela venha a se aplicar também ao Brasil.

Os projetistas precisam se preparar para essa nova realidade. E como fica a alta competitividade do setor?

Isso é muito claro. Nós temos de aceitar as mudanças propostas pelo uso de sistemas on-line, pela informatização dos processos e as mudanças no perfil dos métodos de trabalho. Essas mudanças foram muito violentas nos últimos anos. Aliás, parte dessas mudanças devemos a TQS. A partir do desenvolvimento dos softwares, houve uma alteração muito grande na maneira como o projetista é visto hoje. E de lá para cá também houve uma mudança na forma de se encarar a profissão. O software de certa maneira desmistificou um pouco a nossa especialidade. Aparentemente abriu uma porta para que qualquer pessoa possa exercer essa função, não digo com sucesso, mas com alguma facilidade de se apresentar. Por outro lado, a gente percebe que uma parte da responsabilidade pela perda de imagem é do próprio projetista que descuidou da atualização e da sua formação pessoal e de sua equipe.

A informatização está tirando espaço do projetista?

Num primeiro momento, quando se começou a ter a possibilidade de se empregar de maneira mais racional o software para projeto de estrutura, o projeto ficou mais visível e compreensível para o cliente, com gráficos e desenhos. A nossa atividade sempre se lastreou nesses pontos, mas somente nos últimos 10 ou 20 anos, é que esse trabalho ficou mais aparente devido aos recursos proporcionados pelos sistemas. Mas o erro principal, a meu ver, foi dos próprios projetistas, que passaram a divulgar isso como um lance de marketing. O objetivo era demonstrar superioridade com relação ao seu colega concorrente.

Essa estratégia teria deturpado a relação entre projetistas e ferramenta?

Sem dúvida. Foi uma estratégia errada, que teve o apoio de algumas empresas de software. Passou-se a idéia de que desenvolver projeto era uma atividade muito rápida, ágil, bastava ter um software nas mãos. Mas o que está ocorrendo é o contrário disso. As coisas se complicaram muito mais do que antigamente. Porque hoje se analisam estruturas complexas como se isso fosse um fato corriqueiro. Hoje se fala em laje cogumelo e laje protendida como se fossem sistemas convencionais e conhecidos, porque na concepção destas pessoas, os softwares resolvem tudo. Por trás disso, é necessário ter um embasamento de conhecimento, de experiência, de estudo para avaliar corretamente a estrutura. Nenhum software pode dispensar o conhecimento originado da experiência. Essas estruturas exigem um tipo de análise própria, pois são elementos mais sensíveis a defeitos de execução.

O construtor tem parte nesse processo?

Alguns pecam por ignorar as complexidades e as responsabilidades que estão envolvidas em todas essas decisões. Não conseguem enxergar as diferenças entre um bom ou mau projeto.

Qual é o resultado disso? Pode-se imaginar deficiências em projetos por causa disso?

Temos percebido, sim, o avanço de patologias estruturais em edifícios novos. Há uma falta de capacidade da construtora em analisar esse processo. Temos de entender que está havendo uma mudança em todos os âmbitos, inclusive nas escolas de engenharia. A verdade é que a engenharia estrutural vem perdendo seu espaço na formação dos novos engenheiros. E isso vem acarretando uma deficiência na formação dos profissionais. De um lado, uma formação deficiente e de outro, ferramentas mal empregadas.

Qual é o risco desse profissional?

Veja bem, erros podem ocorrer com qualquer um. Mas se o engenheiro não tiver uma certa experiência, ele pode ficar excessivamente dependente do que o software lhe propuser como solução. Porque a maioria dos softwares dá critérios sobre os quais se desenvolve uma linha de raciocínio. Mas, para adaptá-los a cada tipo de obra, é preciso mexer em alguns parâmetros. O software da TQS, por exemplo, tem alguns parâmetros de adequação do programa que são bastante amplos. Mas podem ser mudados de acordo com o detalhamento. Fica a cargo de cada profissional enxergar a melhor solução. Isso nunca será padronizável. A própria forma de discretizar a estrutura está nas mãos do projetista. Se esse profissional não tem um certo domínio desse processo, algum detalhe pode dar errado. E essa capacidade de avaliação é que depende da dose de conhecimento obtido com o tempo. O projeto pode dar em uma estrutura deficitária do ponto de vista do comportamento.

Que tipos de deficiências seriam estas?

São patologias na estrutura ou em outros elementos que estejam sendo suportados por ela. Imagine um edifício muito esbelto representado com a rigidez do concreto, sem levar em conta de forma adequada a fissuração e a deformação lenta. A deformação obtida pelo programa para aquele edifício, que aparentemente era boa, não representa a realidade, portanto o produto final obra executado sob aqueles critérios sai diferente do que estava previsto. Essa estrutura pode apresentar fissuras, deformações excessivas em paredes, mau funcionamento de portas e janelas, entrada de umidade por alvenarias, uma série de patologias que advém de uma deformação superior àquela prevista.

Mas hoje já há uma lei de defesa do consumidor. E custos de reparação.

Esse problema deve-se em parte ao sistema Confea-Crea, porque permite que um recém-formado esteja habilitado para exercer a profissão autonomamente, ao sair da faculdade. No meu ponto de vista, é tão ampla a gama de conhecimento necessário na engenharia civil que não há como esse recém-formado saber o necessário para assumir tal responsabilidade. O engenheiro recém-formado poderia ser um colaborador em um projeto, em uma obra. Mas ele não tem condição de elaborar um projeto com esse nível de complexidade por conta própria. O sistema Confea-Crea dá a ele esse poder, a meu ver, uma armadilha para o profissional e para o mercado.

O risco é muito grande?

No caso da engenharia estrutural, dá para perceber que existe alguma coisa muito errada. Porque a responsabilidade que assumimos é muito grande. Tem um caso de um projeto, em que fomos chamados pelo proprietário para verificar a obra. Havia muitas patologias. A surpresa foi muito grande quando se descobriu que o projetista da estrutura era também o construtor, que para isso comprara um software. Ele executou todo o projeto. E gastou uma fortuna com peças superdimensionadas. Surgiram pilares e vigas rompidas. O cliente já estava praticamente insolvente.

Há como pegar esses problemas numa verificação de projeto?

Não há como verificar isso a olho nu, mesmo que se passe para um especialista. Porque só mesmo refazendo as hipóteses, avaliando o desempenho, verificando numericamente a estrutura, é que se pode tomar uma posição. Imagina então a dificuldade para um engenheiro civil, mesmo com experiência, porém não especialista em estruturas. Ele não tem a sensibilidade de julgar se aquilo é adequado ou não.

Qual a solução?

A resposta está no campo do conhecimento. Hoje os honorários de projetos estão bastante arrochados. Cobra-se em real o que se cobrava em 1994. Há uma grande ignorância com respeito à responsabilidade assumida. A verdade é que nenhum profissional consegue responder civilmente perante um dano. Qual projetista tem capacidade de ressarcir o construtor pela falência completa de uma estrutura? Mas do ponto de vista criminal, ele vai responder. Eu vejo a necessidade de cursos de especialização, de graduação, de pós-graduação e palestras. É preciso aumentar a comunicação e a informação do engenheiro de estruturas.

Quais seriam as patologias mais comuns nesse campo?

Temos notado cada vez mais patologias na interação entre alvenaria e estrutura. Esse tópico deve ser melhor considerado pelos engenheiros porque o número de patologias nessa área é muito grande. Hoje há muitas reclamações de fissuras ou esmagamento. Houve uma subseqüente modificação dos sistemas de vedação. O concreto também sofreu mudanças ao longo do tempo. A sua rigidez e capacidade mudaram. Estamos vendo aí um excesso de patologias com respeito ao desempenho dessas alvenarias aliadas a uma busca cada vez maior de racionalização da parte da construtora.

Pode dar um exemplo de como essa deficiência ocorre?

As construtoras passaram a usar a laje zero. O desenho dos blocos mudou, assim como o sistema de fixação. Isso levou a uma alteração na maneira de se projetar e no desempenho da estrutura, porque as resistências aumentaram, as cargas diminuíram e a rigidez tornou-se o grande foco do projeto. Antes se agregava à laje uma espessura de 4 ou 5 cm de argamassa rica em cimento, o que conferia massa à laje. Quisesse ou não, aquilo participava da estrutura de alguma maneira.

O excesso contribuía para o equilíbrio da estrutura?

Sim, além de >contribuir para o conforto acústico. No quesito deformabilidade, a carga era maior mas estava prevista. A espessura do contrapiso tinha a função de enchimento e, no entanto, contribuía para a rigidez. Depois entramos no processo de racionalização das alvenarias. Ao diminuir essas espessuras, também foi diminuída a resistência do conjunto como um todo. Isso muda o comportamento da estrutura. Ou seja, havia menos riscos de deficiências pois a estrutura é um mix da viga, laje, alvenaria, pilar. E todos esses elementos ficaram mais leves, a alvenaria menos resistente.

Como é possível conciliar essas mudanças ao uso do software?

Não há limite para o desenvolvimento do software, pois a meta dessa ferramenta é racionalizar os procedimentos. Mas um software jamais poderá substituir a análise do profissional. A estrutura não depende somente da lógica para obter um bom desempenho. Estão aí implicados diversos aspectos, que não são avaliados dentro de nenhum sistema. O software vai continuar evoluindo como ferramenta. Mas os profissionais ainda terão sobre ele o poder de decisão.