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Meio século de experiência

Eng. Navarro Adler - Edição Nº. 27 - Julho/08

O veterano Navarro Adler fala como construiu uma trajetória de sucesso em Cálculo Estrutural, sem abrir mão da segurança e da tecnologia.

O engenheiro Navarro Adler sempre gostou dos números e por isso escolheu a profissão de engenheiro, na década de 1940/50, apesar de as oportunidades de trabalho, na época, serem escassas para o futuro do engenheiro. Já na faculdade, com menos de 18 anos - o caçula da turma - se dedicou com maior ênfase ao cálculo estrutural incentivado pelo catedrático e futuro paraninfo Ernani Sávio Sobral. Foi assim que a engenharia ganhou um novo projetista, hoje na casa dos 70 anos, e que continua ativo com escritório no Rio de Janeiro.

Entre os diversos projetos que ele desenvolveu, destacam-se o Estádio Vivaldo Lima, em Manaus, o conjunto da Suframa (cálculo em casca), os cinco (5) reservatórios de abastecimento de água da cidade de Manaus, além de centenas de edifícios,entre os quais destaco os Condomínios de grande porte como os do Riserva Uno, Cidade Jardim (em andamento a 2ª parte), Hotéis Sheraton, Windsor, e vários outros, muitos dos quais laureados. É sobre a profissão e o desenvolvimento atual do Cálculo Estrutural que ele fala nessa entrevista.

Como o senhor enveredou para a área de Cálculo Estrutural?

A Escola Politécnica da Universidade da Bahia, onde estudei e me formei em 1953, era considerada, na época, a melhor do Nordeste.

Lá fiz paralelamente o curso de Prospecção de Petróleo, ministrado por engenheiros do Conselho Nacional de Petróleo (atual Petrobrás).

Ao me formar, como na época não havia trabalho para Engenheiro Civil, aceitei trabalhar na prospecção de Petróleo, indo parar no meio do mato na região da cidade de Catú, onde perfurei o primeiro poço daquela região.

A vida isolada e sem perspectiva de um trabalho intelectual, mas somente braçal, não me agradava, e dali saí para tentar a vida inicialmente em São Paulo, mas com breve passagem pelo Rio de Janeiro.

Foi um começo de vida em região totalmente nova?

Filho de pais pobres, cheguei ao Rio de Janeiro de ônibus com o equivalente hoje a R$ 100,00 (cem reais). Hospedei-me por poucos dias na casa de uma tia, irmã de meu pai, até ir tentar a sorte em São Paulo. Mas resolvi procurar algum emprego no Rio de Janeiro mesmo, em vista da similiaridade da cidade com Salvador (clima, mar ...). Assim sendo, com pouco dinheiro, ficava dormindo nos bancos da Cinelândia. Com o Jornal do Brasil servindo de cobertor e lendo os anúncios de emprego, voltava para a casa da tia, onde não era bem recebido, praticamente de dois em dois dias.

Era difícil conseguir um emprego na época?

Enfim fui parar no escritório do famoso eng. Odair Grillo com um cartão de recomendação do então Governador Juracy Magalhães, que meu pai conseguiu.

Dr. Odair entrevistou-me e na mesma hora, via telefone, recomendou- me ao escritório de cálculo, que era tudo que eu queria, do Dr. João Alves de Moraes, uma sumidade na área de cálculo. Em seguida, fui ao escritório do Dr. Moraes, que me atendeu e me ofereceu um salário 10 vezes maior do que eu imaginava. Quase desmaiei.

Comecei a trabalhar na mesma hora, e assim iniciei a minha vida profissional de calculista, fazendo projetos de todo tipo: prédios, pontes, viadutos etc., sempre com a ajuda do meu saudoso mestre João Alves de Moraes.

Trabalhar com alguém tão renomado foi fundamental para a sua carreira, então?

Por várias vezes, representei o Dr. Moraes em concorrências públicas de pontes, viadutos etc. Posteriormente, o Dr. Moraes, que também atuava como chefe do setor de cálculos da então Prefeitura da Guanabara, conseguiu que eu fosse nomeado para o cargo de engenheiro da então 1OBE (setor de cálculos da Prefeitura). Nessa ocasião, este setor era responsável pelo cálculo de todos os projetos da Prefeitura, além de liberar os cálculos de muros de contenção e fundações de todos os prédios em construção na Guanabara, uma atividade de caráter obrigatório.

Esse trabalho era feito juntamente com os outros engenheiros de nível como José Luiz Cardoso, Wilson Fadul (Joaquim Cardoso), Alaôr Botelho e meu chefe Dr. Moraes.

Daí foi um passo a começar a atuar sozinho?

Em pouco tempo, meu nome foi sendo reconhecido pelo meio técnico. Já hospedado em uma pensão, comecei a ser procurado para executar cálculos com o total conhecimento do meu mestre.

Assim, ao sair do escritório do Dr. Moraes, comecei a executar cálculos em um canto de sala emprestado do irmão do Dr. Anderson Moreira da Rocha e retribuia atendendo seus recados na sua ausência sempre prolongada.

Depois de vários cálculos em andamento, consegui comprar parceladamente uma sala no Edifício Av. Central, marco no Rio de Janeiro, onde efetivamente comecei a minha carreira solo.

Quais os edifícios que o senhor destaca durante sua trajetória?

Como destaque de projeto de minha autoria posso citar o Estádio Vivaldo Lima, em Manaus, o conjunto da Suframa, vários SESIS e SENACs do país, os cinco reservatórios de abastecimento de água da cidade de Manaus, além de centenas de prédios, alguns laureados, como os grandes condomínios: Riserva Uno, Cidade Jardim, Hotéis Cadeia Sheraton, Windsor, etc.

O senhor foi acumulando sua experiência profissional aos poucos, passando por diversos tipos de projetos. Isso lhe permite uma visão global de um profissional. Qual é, a seu ver, um desafio permanente para um projetista de cálculo manter atualizado?

Todos os dias enfrento desafios técnicos tendo sempre em mente uma máxima do qual não me afasto: “Quando não estou seguro do que estou realizando, pergunto a quem sabe”. Isto eu passo para todos os engenheiros que estão ou passaram por meu escritório.

Os projetos de hoje contam com recursos computacionais que nos permitem calcular e recalcular um edifício em pouco tempo, chegando a resultados próximos do ótimo. Mas a visão de um engenheiro como eu, que calculava com régua de cálculo, permite ter uma noção melhor do aspecto global do projeto, onde os atuais formandos sentem dificuldades.

Os projetos atuais também impõem maiores dificuldades?

Projetos atuais são mais arrojados e requerem o apoio de sistemas mais velozes. Em alguns casos, eu diria até que, somente com o programa da TQS, uma ferramenta maravilhosa, é possível obter a solução dos problemas das estruturas de hoje. Sou um pioneiro no uso do programa da TQS com o qual me identifiquei muito bem desde 1986. Os projetos antigos eram feitos com régua de cálculo, o me deu uma ótima sensibilidade de conjunto, como já disse, porque tudo era feito aos poucos, peça por peça. Mas é evidente que, por ser um método manual, carecia de tempo para verificação, o que é totalmente possível e viável com os recursos atuais.

E quais são, a seu ver, os pontos positivos e negativos da profissão?

Um dos pontos favoráveis é que, aos poucos, nossa profissão está alcançando o reconhecimento devido, reconstituindo seu papel preponderante na execução de qualquer obra. Mas ainda há pontos negativos, como a inexperiência dos profissionais que se dedicam a esta área da engenharia, face à falta de tempo para o amadurecimento do profissional.

Na minha opinião, o jovem formando tem de ter um período obrigatório de trabalho num bom escritório de cálculo (como os médicos) antes de seguir a carreira. Os jovens projetistas também. O mercado de hoje, em grande parte, não consegue enxergar os riscos de colocar um jovem formando para calcular uma obra, por exemplo, um edifício residencial de 22 pavimentos.

A questão financeira acaba sendo relevante no papel de formação dos profissionais, não?

Alguns contratantes subvalorizam o lado financeiro, do custo do projeto. Claro que as conseqüências virão e toda classe sofrerá com isso. Mas acredito que o mercado, de um modo geral, está mudando de conceito.

O jovem tem de ter seu espaço sim, mas no devido tempo, pois lidamos com vidas humanas, e essa é a principal questão que deve ser avaliada ao se buscar um bom projeto.

Tenho muito orgulho de dizer que meu escritório, já com 53 anos de existência, bem conceituado, continua a realizar cálculos estruturais de porte, quer utilizando o TQS ou programas por mim elaborados, sempre com base nesse conceito.