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A velada competição entre São Paulo e Rio no concreto

Dr. Eng. Augusto Carlos Vasconcelos - Edição Nº. 17 - Outubro/02

No Velho Mundo, são conhecidas as rivalidades entre paises ou cidades, desde tempos remotos. A peça de Shakespeare, Romeu e Julieta, é baseada na rivalidade entre duas nobres famílias de Verona. A construção das famosas torres de Bolonha resultou também de rivalidades entre poderosos da cidade.

No campo das obras, cidades de todo o mundo sempre procuraram se suplantar em algo que se destacasse. A esse respeito são conhecidas as disputas entre Pisa e Florença, entre Reggio e Catanzaro, entre Munique e Stuttgart, entre Praga e Bratislava, entre outras.

No campo esportivo, as Olimpíadas são testemunho do grande esforço de cada país, que sempre consegue apoio irrestrito de seus governos, exclusivamente para alcançar alguma marca internacional. É o campo em que as disputas pelo melhor atingem toda a população, e onde se consegue colocar o nome do país nas manchetes de jornais de todo o mundo. Daí o empolgamento pelas partidas de futebol, pelas corridas de Fórmula-1 e de atletismo.

O Guiness Book estimula a ânsia pelos superlativos, editando todos os anos, o que existe de maior, mais grandioso.

É, então, natural que entre as duas maiores cidades do Brasil, São Paulo e Rio, exista também alguma rivalidade. Nunca se falou, nem foi divulgada pela imprensa, a existência de qualquer tipo de competição em construções de concreto executadas nessas duas cidades. Algumas evidências, entretanto, mostram que, no subconsciente de todos, aquela velada competição está presente. Quando escrevi a História do Concreto no Brasil, algumas evidências chamaram a minha atenção. A primeira delas foi a construção de edifícios altos. Vejamos como tudo começou.

Na década de 20, em São Paulo, o Comendador Giuseppe Martinelli, de origem humilde na cidade de Lucca, conseguiu formar um vastíssimo patrimônio. Era natural que desejasse aparecer deixando um legado para a cidade: a construção do maior arranha-céu, um edifício localizado no centro da cidade, que tivesse o seu nome, numa área que adquirira em 1914. No princípio, pensou apenas num edifício de 14 andares, tendo contratado para o projeto arquitetônico um profissional, austríaco de nascimento, chamado William Fillinger. A concorrência para a construção foi realizada em 1924, tendo saído vencedores os engenheiros José de Campos Amaral e Raul Silveira Simões formados há apenas sete anos, na Escola Politécnica de São Paulo. As dificuldades nos trabalhos de fundação foram imensos. O terreno ocupava um quarteirão numa ladeira da Avenida São João, com desnível de 9 m entre as ruas Libero Badaró e São Bento. A fundação, por sapatas, seria executada 7 m abaixo do nível do solo da rua Libero Badaró,  portanto, com enorme volume de escavação. A água brotava do terreno como se houvesse uma nascente próxima. A quantidade de madeira no escoramento foi tão grande que se tornou difícil encontrar material suficiente no mercado. Isto levou os dois jovens engenheiros à falência. Martinelli foi implacável exigindo o cumprimento do contrato, sem qualquer ajuda financeira. Quando todos os problemas de engenharia já estavam resolvidos, Martinelli cancelou o contrato com os engenheiros e resolveu tocar a obra sozinho, com a construção já no nível da rua São Bento. Seu sobrinho, Ítalo Martinelli, com quem conversei antes de sua morte, em 1983, recém-formado na Escola de Engenharia Mackenzie, assumiu a responsabilidade do resto da construção perante as autoridades municipais. Em 1928, Martinelli, repentinamente, decidiu aumentar o número de andares de 14 para 20, a partir da rua São Bento (23 andares a partir da Libero Badaró). Preparou novas plantas, assinadas pelo engenheiro José de Freitas e entrou na Prefeitura com o pedido de substituição de plantas. Os engenheiros que haviam começado a obra puseram a boca no mundo, declarando que o projeto primitivo não suportaria o aumento de peso e que a obra desabaria. Por outro lado, o arquiteto Cristiano Stockler das Neves explicou a mudança como sendo uma competição com seu prédio Sampaio Moreira, com mais de 14 pavimentos, construído na mesma rua Libero Badaró. Houve disputa judicial, e o advogado de Martinelli habilmente conduziu a resposta para o campo de ciúmes profissionais. O assunto ficou durante muito tempo na pauta e os jornais passaram para o enfoque sensacionalista do fato. Todos os dias publicavam novos acontecimentos.

Na mesma época, no Rio, estava sendo construído o edifício do jornal “A Noite”, com 22 andares, no centro da cidade. Martinelli morava no Rio e provavelmente teria tomado conhecimento daquela construção. É possível que isto tenha tido alguma influência em sua decisão de aumentar a altura de seu edifício. Conversei pessoalmente com o engenheiro Ítalo Martinelli em 1982, nos últimos anos de sua vida. Quando levantei a suspeita de que o Comendador teria desejado construir o edifício mais alto da América do Sul, Ítalo Martinelli imediatamente contestou, dizendo que ele nunca havia mencionado essa intenção. A construção do prédio foi gradativamente tomando conta de seu entusiasmo, e ele se sentiu apaixonado pelo empreendimento. Nunca se saberá.....

A verdade é que, confrontando as datas do projeto da cobertura do edifício “A Noite”, assinado por Emilio Baumgart, e a da planta substitutiva de entrada na Prefeitura de São Paulo, espantosamente se percebe a diferença de poucos meses, de Abril a Setembro de 1928. Sou obrigado a pensar, ainda que erradamente, que Martinelli, sabendo que o edifício “A Noite” chegaria ao 22o. pavimento, não se conteve e quis também chegar lá! O fato é que acrescentaram posteriormente ( 1930?) mais dois pavimentos, não servidos por elevadores, no edifício do Rio. O edifício Martinelli chegou, entretanto, ao 30º andar!

Os dados numéricos das alturas dos dois edifícios são os seguintes. O edifício “A Noite” possui, depois da execução dos dois últimos pavimentos, desde a calçada até o topo, a altura máxima de 102,8 m, tendo sido então um recorde mundial. O Prédio Martinelli chegou à altura de 105,6 m, ultrapassando todos os edifícios de concreto armado do mundo.  O Martinelli possuía, desde a calçada da rua Libero Badaró até a cobertura no 26o andar, a altura de 90,24 m e, na mesma ocasião, “A Noite” possuía a altura de 95,45 m. Foi então que o Comendador decidiu a construção de “uma casa” a partir do 26o andar, ocupando apenas a parte central da construção. Atingiu assim o 30o andar, perfazendo o total de 105,65 m, em 1929 - não obstante a construção se estender com os acabamentos até 1934. Um ano depois, em 1935, seria construído em Buenos Aires o Edifício Cavanagh, com 120,35 m de altura, passando a ser durante vários anos o recordista mundial em altura.

Muitos acontecimentos técnicos a respeito desses dois edifícios brasileiros podem ser lidos na literatura brasileira, sendo sua leitura recomendável para todos os que têm interesse em saber o que já se fez de notável em nosso país.

O caso dos edifícios “A Noite” e “Prédio Martinelli” não constitui um fato isolado. A competição percebe-se de maneira velada, não declarada em nenhum lugar e apenas suspeitada em numerosas outras obras. Sejam citadas as marquises das tribunas do Joquey Clube do Rio com 22,4 m (Maio 1926) e as do Joquey Clube de São Paulo com 25,2 m (1939), ambas recordes mundiais em suas datas, com intervalo de 13 anos; os estádios municipais do Rio ( Maracanã) e de São Paulo (Pacaembu)  quase  da  mesma  data; o  elevado  de São Paulo  ( apelidado de Minhocão) e a Av. Perimetral do Rio, projetada logo em seguida. O Metrô do Rio seguiu o de São Paulo com pequena diferença de data. Quando foi feito o Sambódromo do Rio, nem se cogitava fazer algo parecido em São Paulo. Como a imprensa noticiou aos quatro ventos o sucesso do empreendimento e sua repercussão foi, politicamente, muito favorável, na gestão da Prefeita Erundina, foi sugerida a execução de um sambódromo também em São Paulo. Nunca houve qualquer tipo de objeção em São Paulo, pois já havia o precedente do Rio. Provavelmente a construção de São Paulo nunca teria sido executada se a do Rio não a houvesse precedido. Recentemente, o Brasil entrou na era das pontes estaiadas, iniciadas na Suécia em 1953. O surto das pontes estaiadas na Europa foi intenso, mas só chegou ao Brasil por volta de 1993, cerca de 40 anos depois. No inicio do concreto armado ou protendido, o que se fazia na Europa chegava ao Brasil com atraso relativamente pequeno. O concreto protendido chegou ao Brasil em 1947 com a patente Freyssinet, com cerca de 10 anos de atraso. Todas as novidades chegavam ao Brasil com intervalo análogo. As pontes estaiadas demoraram mais a chegar. A primeira foi projetada e detalhada pela firma A.A.Noronha –Serviços de Engenharia por volta de 1992, mas só começou a ser executada em 1998, sobre o rio Paraná, em Porto Alencastro. Em 1999, foi executada uma ponte estaiada em São Paulo, sobre o Rio Tietê, para a passagem de uma linha do Metrô, pela firma Enescil com a assessoria da J.Mueller da França. É curioso este fato: durante 40 anos, as pontes estaiadas não despertaram o menor interesse dos brasileiros e, de repente, no mesmo ano surgem duas pontes desse tipo, uma projetada no Rio e outra em São Paulo, muito menor, porém aderindo à novidade. Qual o motivo?

A velada competição não se restringe às obras. Pode ser pressentida também em outros setores, como por exemplo, o de normas técnicas. O primeiro Regulamento para construções de concreto armado surgiu no Rio em Julho de 1931, preparado pela ABC – Associação Brasileira de Concreto, sob a direção de José Furtado Simas. Cerca de cinco anos depois, foi fundada a ABCP – Associação Brasileira de Cimento Portland. Imediatamente essa associação procurou preparar uma “norma”, pela primeira vez com esse nome, superando o regulamento da ABC. Este trabalho saiu em 1937, como edição especial do Boletim de Informações da ABCP. Esta norma tinha inovações em relação ao que se fazia no resto do mundo: incluía pela primeira vez, o cálculo de estruturas em regime plástico (Estádio III), proposto por Telemaco van Langendonck. Isto só viria a ser aceito pela Alemanha em 1972, depois de 35 anos ! Entretanto o inicio da normalização no Brasil começou realmente com o acontecimento mais importante, do qual poucos brasileiros se dão conta: o das Reuniões  dos Laboratórios Nacionais de Ensaios de Materiais. Elas, que conseguiram atrair todos os profissionais ligados ao concreto, desde tecnólogos até construtores e professores, começaram em 1938 no Rio. A segunda reunião, como não podia deixar de ser, foi realizada em São Paulo. A terceira voltou a ser no Rio. No final desta reunião, em Setembro de 1940, foi criada, por iniciativa de Paulo Sá, a ABNT – Associação Brasileira de Normas Técnicas, um grande passo para a engenharia no Brasil. A primeira norma, oficialmente com este nome, foi a NB-1/40. Esta norma, iniciada no Rio, vem sendo reformulada periodicamente a cada 10 a 20 anos, tendo sido editadas as revisões de 1950, 1960, 1978, 2002 (?). Ao ser fundada a ABNT, cogitou-se adotar como texto básico a “norma” de 1937 da ABCP. O pessoal do Rio não aceitou. João Batista Bidart, (INT do Rio) preparou um texto básico, publicado na Revista CONCRETO, que serviria de ponto de partida para as discussões. Parece estar aí escondida alguma competição, pois nenhum dos textos básicos foi aceito e se decidiu-se partir do zero. Em 1963, foi organizada no Rio uma comissão para a preparação de uma norma de concreto protendido, apenas seis anos após a preparação da norma alemã DIN 4227 de 1951. Por se tratar de assunto novo, ainda pouco difundido em nosso meio, julgou-se preferível dar-lhe o nome de PNB-116, a letra P com o significado de “Projeto”, podendo ser interpretada também como “Provisória”. A comissão que preparou esta norma era constituída somente de 8 elementos do Rio. As discussões começaram em 1962 e somente depois de concluído o texto, é que decidiram ouvir a opinião do pessoal de São Paulo, constituído de seis elementos. A inclusão posterior dos paulistas na comissão foi uma questão de rivalidade velada. Em Novembro de 1975, essa norma foi revista, sendo a comissão formada somente de paulistas. Imediatamente, resolveu-se revisar também a norma de pontes ( NB-2) , com uma comissão constituída apenas por profissionais do Rio. Deveria existir entrosamento entre as normas de concreto protendido e de pontes, pois os assuntos são correlatos. Isto infelizmente não aconteceu, sendo inevitáveis algumas incompatibilidades. Atualmente, está em fase final de revisão a NB-1, incluindo na comissão elementos do Rio, São Paulo, Belo Horizonte e São Carlos. A comissão foi instalada em 1993 e perdura até hoje. Espera-se, após a divulgação do texto, muita disputa entre  profissionais de lugares diferentes...

No que diz respeito a livros, não existe muita rivalidade entre as contribuições de São Paulo e do Rio. Em matéria de livros de texto, o Rio sempre foi mais produtivo do que São Paulo, sendo as obras editadas no Rio preferidas pelos engenheiros de escritório, que nelas encontram soluções mais imediatas para seus problemas práticos. Logo surgiu em São Paulo um livro, supostamente para fazer frente ao mercado conquistado pelo Prof. Aderson Moreira da Rocha, intitulado “Concreto Armado – Eu Te Amo”, de autoria de Manoel Botelho, visando tornar o assunto mais acessível para os que não quisessem estudar muito.

No campo da História há um fato curioso, que não pode nem deve ser levado para o campo das competições. Um professor do Rio, Pedro Carlos da Silva Telles, publicou em 1984 uma obra notável, abrangendo todos os ramos da engenharia: “História da Engenharia no Brasil – Séculos XVI a XIX”. Esta obra, editada pela Livros Técnicos e Científicos Editora, é de leitura obrigatória para todos os profissionais e alunos de engenharia.  Constitui a maior pesquisa histórica já feita no Brasil, tendo sido um verdadeiro trabalho de sacerdócio, até então nunca realizado entre nós. Em 1993, foi editado o 2o volume: “História da Engenharia no Brasil – Séculos XX”, por Clavero – Editoração, Assessoria e Marketing, com o patrocínio do Clube de Engenharia do Rio. Logo em seguida, escrevi  “O Concreto no Brasil – Recordes, Realizações, História” , editado por Copiare em 1985. Até aquela data, eu ainda não tinha tido conhecimento do livro de Silva Telles. A semelhança dos assuntos, que não se superpunham, aproximou-nos. Estabeleceu-se logo uma amizade entre nós e uma profunda admiração mútua. Nunca houve competição entre nós, tendo havido numerosas trocas de informações, extremamente benéficas para ambos. Curiosamente, Silva Telles continuou seu trabalho, estendendo suas pesquisas para o Século XX, quando então entraria no campo do Concreto. Não sendo especialista neste ramo da engenharia, ele se utilizou de muitas informações que lhe passei. Por outro lado, forneceu-me ele preciosas indicações bibliográficas com as quais jamais sonhara.  Continuamos  trocando  idéias  e  informações até hoje. Em meu 2o volume ( “O Concreto no Brasil – Professores, Cientistas, Técnicos” – editado por PINI em 1992), existem muitas informações obtidas por intermédio de Silva Telles. Por outro lado, no 2o volume de Silva Telles, o Cap. 8 é dedicado ao Concreto Armado, e ali ele incluiu algo extraído do meu livro, prestigiando-me com sua menção de origem. Pergunto agora: houve em nosso subconsciente alguma rivalidade ou alguma competição? Posso afirmar que não. Algum leitor desavisado poderá perguntar a si mesmo: Porque nunca foi escrito nada sobre a Engenharia no Brasil, e de repente aparecem dois livros quase simultaneamente, editados um no Rio e outro em São Paulo, com assuntos correlatos? Um teve a idéia e o outro resolveu imitar? Os primeiros volumes das duas obras nada têm a ver entre si e os autores não possuíam qualquer informação um do outro. Os segundos volumes já foram escritos depois de certa convivência, porém existem poucos pontos comuns, sendo o assunto abordado de maneira diferente. Não há muita superposição, sendo contudo obrigatória a menção das primeiras obras, de alguns nomes importantes, de como se faz em cada capítulo e dos recordes alcançados.

Terminando este texto, é feita novamente a pergunta inicial: houve na história do concreto algum ciúme, competição regional ou rivalidade entre os profissionais do Rio e de São Paulo?

A resposta a esta pergunta fica na citação da famosa frase de Pirandello:

Cosí è se vi pare