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Engenheiro russo "cai do cavalo"

Dr. Eng. Augusto Carlos Vasconcelos - Edição Nº. 14 - Novembro/00

Este caso aconteceu em São Paulo, no final da década de 60. Um engenheiro russo branco, Gleb Lokaiev, recém chegado de sua terra, procurou seus conterrâneos para conseguir algum apoio. Problemático, com trauma de guerra, sem conhecer nosso idioma, tinha dificuldades de comunicação. Grande conhecedor teórico da engenharia de estruturas, faltava-lhe experiência para resolver casos práticos.

Conhecendo Wladimir Tietzakov, velho engenheiro, também russo branco, já estabelecido no Brasil há muitos anos e com grande clientela, aproximou-se dele, pedindo serviço. Conversando com seus sócios, Wladimir conseguiu um posto de consultor em seu escritório, pagando-lhe por serviço prestado. Gleb era de nível muito elevado, para abordar casos de rotina. Entregar-lhe, por exemplo, uma viga contínua para calcular, seria uma humilhação. Ele ficou praticamente "encostado" no escritório de Wladimir, fazendo estudos de casos especiais e preparando tabelas para o cálculo.

Um dia surgiu um caso real em que ele poderia prestar um bom serviço. Tratava-se de uma escada helicoidal num edifício público no centro de São Paulo, já em construção. Essa escada havia sido deixada para trás, pois não atrapalhava o restante da construção, à espera da solução do arquiteto. Foram previstos ferros de espera na base e no topo, para não atrasar a obra. A escada era monumental e ficava bem à vista, entre o térreo e o 1° Pavimento, sem obstruções ou paredes que a escondessem. Sendo 6 m o pé-direito, a escada completa correspondia a um giro de mais do que 360. Com leve corrimão de tubo de aço, ficaria bem visível a partir da rua.

Como não havia muita pressa, Gleb ficou estudando longamente uma solução para a escada. Durante um mês encheu folhas de papel com deduções matemáticas imensas, procurando fórmulas que pudessem ser aplicadas ao caso, com todos os carregamentos possíveis.

Passado todo este tempo, o sócio de Wladimir perguntou-lhe: -- Como vai o cálculo da escada? Já devem estar precisando dele na obra, que se desenvolve a todo vapor!

Wladimir, dirigindo-se ao seu amigo Gleb, cobrou-lhe o serviço. A evasiva resposta não tardou: --Sabe que, o problema é muito complexo e já cheguei às equações de compatibilidade. Agora se trata apenas de quantificar os resultados. Logo, sabe que, começo a parte numérica.

A cobrança do serviço repetiu-se ainda algumas vezes, e a resposta era sempre a mesma. Percebendo que o serviço não saía, Wladimir pressionado pelo sócio, com a prática que tinha, rapidamente resolveu o problema, desenhou os detalhes e mandou para a obra o projeto completo. Estava livre das cobranças do cliente!

Enquanto isto, Gleb continuava com sua matemática sem fim. Passadas mais duas semanas, finalmente Gleb aproximou-se de Wladimir e disse-lhe: Já tenho os valores numéricos dos esforços, sabe que. Agora, sabe que, só falta dimensionar as armaduras e começar a desenhar.

Wladimir não se conteve. Saiu com Gleb em seu carro e dirigiu-se à obra. Parando na rua, bem em frente ao edifício público, já sem tapume, mostrou-lhe:

-- Está vendo aquela bonita escada? Já está pronta e em funcionamento! Gleb ficou tão furioso que nunca mais apareceu no escritório de Wladimir, nem mesmo para receber as horas já trabalhadas .... Nunca mais se soube do que teria acontecido com o pobre Gleb!

Na mesma obra houve diversas polêmicas. Uma delas se refere ao uso de um tipo especial de aço CA-50, denominado Resistahl. Depois do aparecimento dos aços torcidos a frio, Hiltraço, Torsima, Peristahl, uma plêiade de fabricantes lançou novos produtos no mercado com pequenas variantes. Um prefeito de São Paulo, muito conceituado, lançou logo uma objeção contra o emprego do Resistahl naquela obra pública. Foi uma briga sem fim que acabou com a aprovação do Resistahl, que afinal só diferia dos outros por uma questão de marca.

Outro problema surgiu com a armadura de cisalhamento. A obra, com vãos grandes, possuía vigas chatas de grande largura. O cisalhamento era o fator decisivo no dimensionamento. Os russos haviam publicado articos sobre o uso de telas soldadas ou não, que seriam colocadas dentro das vigas, com os estribos ainda abertos, como solução fácil na obra para armação contra o cisalhamento. Essas telas possuíam malhas quadradas, com a mesma armadura tanto na vertical como na horizontal. Cada tela resistia a um determinado quinhão do cisalhamento. Bastava dividir o valor da força cortante total pelo que cada tela resistia, obtendo logo o número de telas que deveriam ser colocadas dentro da viga, antes do fechamento dos estribos. O trabalho russo foi aprovado pelo CEB e chegou a ser incorporado às primeiras "Recomendações práticas CEB" na década de 60, precursoras dos Códigos Modelo. Ensaios posteriores mostraram, entretanto, que as barras horizontais mantinham baixas tensões no aço, até as vizinhanças da ruptura, e que somente as barras verticais contribuíam para a resistência. O artifício matemático de decomposição dos esforços de cisalhamento, inclinados de 45° em duas direções horizontal e vertical, não tinha realidade física.Tais ensaios levaram o CEB a suprimir esses tipos de armadura em tela, de seus Códigos Modelo, a partir de 1970. Em 1974, o Prof. Nilo Amaral, em uma de suas poucas publicações, mostra claramente o motivo do abandono de tais armaduras nas normas internacionais. O fato, entretanto, é que todas as vigas daquele edifício público, muito solicitadas por forças cortantes, foram armadas a cisalhamento com telas de malhas quadradas. Aquelas vigas ali estão como testemunho de sua validade. Aparentemente nunca apareceram fissuras e as vigas nunca foram reforçadas, caso contrário a imprensa já teria colocado o assunto nas manchetes, em se tratando de obra pública! Pelo que se presume, nunca mais foram executadas obras com telas de cisalhamento. Onde estará a verdade?