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Edição 22 - Janeiro/06

Edição Nº. 22 - Janeiro/06

Nesta seção, são publicadas mensagens que se destacaram nos grupos Comunidade TQS e Calculistas ao longo dos últimos meses.

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Junta de Dilatação (utilizando o CAD/TQS)

Caros amigos da Comunidade TQS, Fui questionado pelo engenheiro de uma obra que estamos projetando por que eu fiz as vigas do baldrame separadas formando módulos estruturais por meio de juntas de dilatação, ao invés de fazê-las sem juntas uma vez que os blocos de fundação unem as estruturas. Sempre projetei minhas estruturas começando a partição da estrutura (quando necessário) pelo baldrame, na maioria dos casos onde o arquiteto indica a junta de dilatação do piso. Gostaria de saber se estou errado, ou seja, se é possível fazer um baldrame de 5.000 m2 sem juntas de dilatação.

Peço ajuda de vocês para esse esclarecimento e desculpas caso a minha pergunta seja muito simplória.

Obrigado,
Eng. Guilherme M. Almeida, Brasília, DF


Caro Guilherme Almeida
Caros amigos da Comunidade TQS
Guilherme, fiz uma consulta ao seu cadastro e descobri que você tem a versão 11.4, a mais recente dos sistemas CAD/TQS.

Nesta versão, você pode simular os efeitos provocados por variações térmicas e retração com muita facilidade. Na definição do edifício, você estabelece em cada pavimento os parâmetros que serão considerados, através do AVANÇADO.

Estas opções só estarão disponíveis em pavimentos modelados com grelhas de lajes planas ou de lajes nervuradas.

Nos meus projetos, sempre começo o edifício em um pavimento onde temos a região do poço do elevador, e as demais fundações em um pavimento logo acima. Neste pavimento, sempre temos alguma laje, e com isto conseguimos já adotar a definição de grelhas de lajes planas.

A definição adotada no edifício é imposta automaticamente na malha de barras de lajes.

Para as vigas, devemos definir os coeficientes de variação desejada diretamente no Modelador estrutural, no menu de definição de dados de vigas.

Temos também um menu similar na edição de dados das lajes.

A simulação dos efeitos de retração pode ser realizada com a aplicação de uma variação térmica equivalente a (-)15º C.

Quanto à variação térmica, estão 2 tipos disponíveis no TQS:

  • variação transversal - aplicável quando temos diferenças de temperatura inferior e superior em um elemento estrutural, como no caso de frigoríficos.
  • variação uniforme - aplicável para simular alongamentos e encurtamentos uniformes ao longo do eixo longitudinal de um elemento estrutural e é cumulativa com a variação transversal

Na análise estrutural dos pavimentos onde são definidas variações térmicas, o modelo de grelha, que normalmente tem 3 graus de liberdade, na realidade se torna um pórtico espacial com 6 graus de liberdade.

As forças resultantes obtidas nos modelos dos pavimentos, são transferidas ao modelo de pórtico espacial integrado da estrutura completa, e são geradas diversas combinações onde todos os esforços atuantes (Cv, vento, variações térmicas, etc) são ponderados para obtermos os esforços característicos finais dirigidos ao dimensionamento de pilares, e uma grande envoltória de esforços é obtida para o dimensionamento de vigas.

Não podemos esquecer de definir em todos os apoios os correspondentes coeficientes de rigidez (coef. de mola), principalmente os de translação X e Y.

Estes coeficientes são diferentes para cada elemento de fundação, em função da sua rigidez.

De forma simplificada, podemos adotar coeficientes de mola padrão, na edição de critérios gerais de pórtico, no menu pilares> Coeficientes de mola padrão.

Se não definirmos nenhum coeficiente de mola (campos zerados), o programa considerará engastes perfeitos para cada grau de liberdade (rotação X, Y, Z, translação X,Y, Z).

Conclusão, meu caro Guilherme, você, como um “feliz proprietário de uma versão 11”, pode hoje, deixar as suas dúvidas de lado (os famosos SE) e analisar com mais profundidade o funcionamento da sua estrutura considerando todos os efeitos de variação volumétrica.

Nos meus estudos e projetos, tenho sempre procurado analisar esses efeitos e posso dizer a todos que eles podem ser muito substanciais, geradores de fortes solicitações em certos tipos de estruturas.

O tema VARIAÇÕES VOLUMÉTRICAS em estruturas de concreto armado tem me preocupado muito nos últimos meses e pretendo voltar ao tema em outras mensagens.

Um abraço a todos
Eng. Luiz Aurélio Fortes da Silva, TQS, São Paulo, SP


Comentários suplementares respeito ao conteúdo do workshop sobre interação soloestrutura

Já falei na mensagem http://br.groups.yahoo.com/group/comunidadeTQS/message/13312: o workshop foi realmente interessante e o que é ainda mais importante: ele foi MUITO construtivo. Pessoalmente eu gostei muito das exposições e concordei com a postura da maioria dos palestrantes. Em alguns dos pontos não concordei, mas preferi não perguntar devido ao fato de o tempo ser limitado e ser hora de retirarmo-nos a nossas atividades “profanas”. Tenho a certeza de que não faltarão oportunidades nas quais seja possível discutir esses pontos, e a Comunidade TQS é sempre um excelente espaço para isso.

Um dos pontos chaves da discussão se centrou nos avanços das ferramentas de cálculo na área de estruturas, e o fato indiscutível de que hoje é possível modelar as estruturas de maneira muito REALISTA. Em certo momento, quase se culpou os engenheiros geotécnicos por não proporcionar os coeficientes k do solo para que possamos completar nossa representação EXATA do comportamento de nossas estruturas. O engenheiro Moacir Inohue foi mais longe ainda e diz que faltaria receber dos engenheiros geotécnicos os coeficientes de Young e Poisson do solo, e nós (os engenheiros estruturalistas) poderíamos, mediante nossas ferramentas SUPERPODEROSAS, fazer o modelo integrado SOLO-ESTRUTURA.

Eu concordo com o fato de que as ferramentas de cálculo permitem encarar problemas de estruturas com uma facilidade e assertividade extraordinária. Não somente concordo com esse ponto de vista, como também me considero “militante apaixonado” da adoção generalizada dessas ferramentas. Porem, desejaria alertar quanto a certos perigos e ao fato de que lamentavelmente não temos ainda motivos justificados para tanta EUFORIA. O programa, por sofisticado que seja, segue a lei do junk in-junk out. Vou relacionar alguns pontos delicados:

  1. Os engenheiros de solos não poderão nos dar nunca os coeficientes k da maneira que nós desejamos. Acontece que o coeficiente k, mesmo sendo especifico (coeficiente de mola por unidade de área) depende da geometria da fundação. Na realidade, uma sapata que tenha o duplo de área não terá o duplo de coeficiente de mola vertical; terá menos ou bastante menos. Uma sapata que tenha a mesma superfície que outra, mas com forma diferente (lado menor diferente), também terá k diferente. Todo o tempo que as sapatas de um edifício sejam de dimensões similares, tudo bem. Mas se tivermos sapatas grandes e pequenas, deveríamos fazer ajustes. Na mistura de radiers (sapatões se me permitem usar esse termo) e sapatas pequenas o assunto chega a ser muito relevante.
  2. O material “solo” com o qual trabalham os engenheiros geotécnicos não se deixa “engenheirizar” da maneira que nós fazemos com os nossos. Geralmente os parâmetros do solo têm variações importantes de acordo com a cota (mesmo dentro do mesmo estrato) e de acordo com o ângulo de inclinação respectivo à vertical. Supor que o coeficiente k normal a um plano inclinado seja o mesmo que na vertical não será sempre uma boa aproximação, e mesmo sendo diferente, ele deverá também variar com a cota. Depreciaremos os efeitos de fricção entre estrutura e solo? Em muitas configurações poderia não ser nada depreciável, e para levar em conta, deveríamos ter coeficientes suplementários de fricção. Se a isso somarmos os efeitos da presença flutuante da água freática: QUANTOS PARÂMETROS TERIAMOS QUE PEDIR DOS ENGENHEIROS DE SOLO!!!???
  3. Meus sinceros parabéns a Moacir pelos impressionantes modelos integrados de solo e estrutura. Eu tentei construir esse tipo de modelos em casos concretos (sapatas de um prédio com subsolo grudado a um outro prédio existente e com uma parede de pilotes entre eles) e cada vez que mudava o valor do coeficiente de Poisson a variação do resultado era inesperadamente grande. Ou seja, que sempre que tentava interpretar os resultados dava zebra. Desisti de usar essa “metodologia realista” antes de entrar em “desespero”, e voltei às metodologias mais “arcaicas”.
  4. Um modelo de todo um edifício de vários andares carregando seu peso sobre o solo é uma utopia, já que a carga vai se introduzindo à medida que o prédio vai sendo construído. Por isso a interação para parte importante da carga é com estruturas que são os estados parciais da construção e não a estrutura final, e os esforços gerados na superestrutura (e também no solo) ficam invariavelmente como testemunha desse estado parcial. Ou seja, quem quiser ser REALISTA teria que fazer uma história no tempo da construção e ir acumulando os esforços.

Não se trata de uma postura pessimista. Muito pelo contrario, é com otimismo quase festivo que vejo que existem ainda tantas coisas que exigem de nossa compreensão e criatividade para serem resolvidas com conhecimentos sempre limitados. É ainda necessário pensar, estimar, simplificar e exigir nosso senso de compreensão para reconhecer quais são os parâmetros relevantes e dar um jeito para chegar a uma solução confiável, de desempenho adequado e econômico. Incorporar as novas ferramentas de analise estrutural não significa aspirar a transformar os escritórios de engenharia em farmácias de manipulação de modelos matemáticos. Não confundamos as ferramentas com o produto, que é o projeto. Possivelmente nesse ponto, devido à natureza “rebelde” da matéria com a qual mexem, os engenheiros de solos estejam mais na real que nós. A interface com eles é parte do sucesso dos projetos e esse encontro na IFE exige uma compreensão mútua das limitações e da definição conjunta adequada das estratégias de projeto.

Eng. Sergio Stolovas, Curitiba, PR


Dicas de importação de desenhos

Caros colegas:
Em recente conversa com um amigo engenheiro estrutural, percebi que alguns usuários TQS ainda usam o Autocad ® para plotar plantas elaboradas no CAD/TQS.

Isto pode acontecer porque alguns contratantes solicitam a entrega de plantas com carimbos com fontes de texto e/ou hachuras complexas feitas no Autocad. Embora plotar no Autocad seja um caminho, é muito mais econômico importar estes carimbos para o CAD/TQS e plotá-los lá. Passado o trabalho de importação, o carimbo no formato TQS pode ser reutilizado muitas vezes.

Estou aproveitando para passar uma dica para a importação de desenhos. Acredito que estas dicas já foram comentadas anteriormente, mas não custa lembrar.

Importação via DXFs

O principal objetivo da importação de desenhos via formato DXF é ler a arquitetura para o lançamento da estrutura. Neste ponto, os elementos gráficos importados praticamente atendem a 100% das necessidades do engenheiro estrutural.

A importação de DXFs, entretanto, faz muito mais do que isto. Desde a versão 8.2 do CAD/TQS, o leitor de DXF reconhece estilos de linha, atributos, cotagens associativas, hatchs associativos, elementos tipo LEADER, LWPOLYLINE, MLINE, SOLID, SPLINE, TRACE e outros.

Mesmo assim, nem todas as combinações de elementos e atributos do Autocad podem ser importadas (muitas informações gráficas no DXF são interpretadas internamente no Autocad). E principalmente, os fontes de texto não são levados automaticamente.

Como fazer trazer o carimbo para o TQS quando a importação do DXF não é o suficiente?

Importação via PLT

Um segundo caminho de importação é via PLT. O CAD/TQS tem um interpretador de plotagens preparado para plotagens vetoriais em formato TQS-HPGL2. O Autocad pode ser configurado para gerar estas plotagens.

O resultado final será um desenho onde todos tipos de hachuras e fontes de texto serão discretizados como linhas facilmente importadas. Na tela, certas regiões preenchidas parecerão apenas um conjunto de linhas espaçadas, mas no plotter ganharão espessura e o aspecto esperado.

O segredo na configuração é utilizar o driver HPGL2 genérico disponível no Autocad. Vou passar um roteiro de configuração usando uma versão recente do Autocad.

Para configurar o plotter, acione o comando abaixo ou equivalente. Este comando pode ter outro nome (Plotter Configuration), dependendo da versão do Autocad. Procure a opção para adicionar novo plotter. Siga as telas do Wizard até chegar na tela de escolha do modelo do plotter. Nesta tela, escolha um plotter HPGL genérico. Na tela acima, LHPGL é o Large, SHPGL Short. Escolha o primeiro para obter os formatos A0/A1. Complete a configuração especificando plotagem em arquivo, formato da plotagem e atribua um nome para este plotter. Ao plotar a folha com o carimbo, especifique este modelo de plotter. O Autocad pedirá então pelo nome do arquivo .PLT a ser gerado. Escolha um nome e pasta de que você se lembre, preferencialmente uma do edifício onde este carimbo será usado. Basta agora apontar o gerenciador TQS para esta pasta, e fazer a conversão do PLT através do menu “Plotar”.

A versão 12 possui uma facilidade adicional: o arquivo PLT é mostrado no painel direito, e basta editá-lo para convertê-lo automaticamente.

Concluindo

Tempo é o que o engenheiro estrutural não tem sobrando atualmente. Importar arquivos gráficos para trabalhar somente no ambiente TQS evita trabalhos adicionais e uso de outras ferramentas e ambientes. O pouco tempo utilizado neste trabalho retorna rapidamente ao longo do projeto.

Espero ter ajudado.
Um abraço
Eng. Abram Belk, TQS, São Paulo, SP


Lajes treliças

Colegas do Grupo Calculistas,
O uso de lajes treliçadas está causando uma confusão no mercado de construção pois as fabriquetas de “fundo de quintal” não estão fabricando-as com as exigências da nova norma NBR 6118. A norma NBR 6118 prescreve que devem ser utilizadas a normas de pré-moldados. Mas o espírito na norma NBR 6118 não está sendo atendido por aquelas normas de pré-moldados. O problema diz respeito a duas exigências:

a. concreto de resistência elevada e fator água-cimento baixo para diminuir a permeabilidade
b. Cobrimentos muito mais elevados do que a praxe usual.

Usualmente os flanges inferiores das lajes treliçadas são construídos com alturas de 2,5-3 cm e o concreto com resistência “desconhecida”.

Em obras próximas à orla maritima, situação típica de muitas capitais estaduais brasileiras, as exigências da NBR 6118 são perfeitamente lógicas e necessárias. O grau de agressividade é de nível III. Já vi na Barra da Tijuca, Rio de Janeiro, prédios recentemente construídos com a armadura inferior toda corroída.

Não adianta espeficar, desenhar, escrever em notas que o cobrimento deve ser elevado, e que o concreto deve ter resistência e fator água-cimento diferentes do usual. Os construtores e fabricantes partem da idéia de que sempre fizeram assim e se recusam a modificar as suas formas e construir de outra forma. E o projetista sem a força de um contrato de fiscalização, fica olhando a estrutura bem projetada e mal executada intencionalmente, sem poder de veto.

Mesmo reduzindo o cobrimento especificado na NBR 6118 em 1 cm (definido para eliminar variações usuais), os cobrimentos MÍNIMOS (sem a variabilidade de 1 cm) não são atendidos, pois para isto seria necessário aumentar a espessura do flange das vigotas treliçadas.

Realmente me dá pena ver os cobrimentos de 5 mm a 10 mm, e muitas vezes constatar que as armaduras das lajotas encostam na face inferior. O proprietário, não técnico, não sabe o que fazer e os construtores “experimentados” dizem que sempre fizeram assim e ignoram o projeto intencionalmente. Afirmam que não encontram fabricantes especializados e com formas adequadas para aumentar a espessura do flange das vigotas treliçadas e que, de outra forma os custos seriam muita mais elevados.

O errado em tudo isto é emitir uma norma NBR 6118 moderna e coerente, sem modificar as normas de lajotas pré-moldadas e de peças em geral pré-moldadas. Toda uma parafernália de manuais, tabelas, cobrimentos, formas, desenhos, precisa ser modificada urgentemente.

Olhar as estruturas bem projetadas sendo mal executadas é um trauma para o projetista. E o proprietário só terá a desagradável surpresa de ver a sua obra com problemas de oxidação da armadura daqui a alguns 1-5 anos E ele nem vai se lembrar dos avisos dados pelo projetista.

Eng. Ernani Diaz, Rio de Janeiro, RJ


Contra-flechas em lajes treliçadas

Colegas,
As contra-flechas estão sendo bastante utilizadas no projeto de lajes treliçadas. Porém, as contra-flechas reduzem apenas a deformação final em relação ao nível da laje. A deformação absoluta será a mesma, com ou sem contra-flecha. Assim, para que a contra-flecha seja realmente eficiente, acredito que deve ser levada em conta a cronologia dos carregamentos, para que paredes e pisos sejam executados após a laje já ter sofrido uma parcela considerável da deformação. A minha dúvida é exatamente como definir estas etapas de carregamento para a execução da obra. A não-observância destas etapas de carregamento pode provocar fissuras nas paredes e nos pisos, mesmo que a deformação final da laje (com contra-flecha) atenda aos limites da NBR 6118:2003?

Eng. Marcos Pereira Pinto, Salvador, BA


Caro Marcos
O recurso da contra-flecha realmente tem sido bastante utilizado, mas nem sempre de forma coerente, como fica claro em sua mensagem.

Como já disse o colega Alio: “As flechas não são calculadas, mas sim estimadas”. Ora, se estimarmos as flechas já é complexo, que dirá com relação às contra-flechas.

Uma boa indicação para utilização deste recurso é limitarmos o valor da contra-flecha a l/350. Entretanto, tendo a disposição um software, como o TQS, por ex, que faz a análise não linear das lajes com diversos carregamentos, tenho adotado para contra-flecha o valor da flecha devido ao carregamento do peso próprio + cargas permanentes, obtida com análise linear.

Assim, a flecha final estimada para a laje, será o valor obtido com a combinação quase-permanente (g1+g2+0,3q), acrescida da parcela diferida, menos a contaflecha obtida com o carregamento (PP+Perm, linear), limitada a l/250.

Acrescentamos que a combinação quase-permanente é utilizada para as lajes onde não há predominância de pesos de equipamentos que permanecem fixos por longos períodos de tempo, ou de elevada concentração de pessoas.

Eng. Carlos Roberto Santini, Itapeva, SP


Caros Marcos e Santini
Penso que você está certo, Santini: É exatamente isso que eu sempre fiz e sempre deu certo.

Mas falta um aviso para os menos experientes e isso merece uma pequena história: Nos idos de 1979 (ou 1980, não me lembro bem), o saudoso Prof. Aderson Moreira da Rocha, em breve passagem por São Luís, contou numa palestra que, ao verificar um projeto de engenheiro novo, encontrou uma indicação de contra-flecha de 2,34 cm. Quatro décimos de milímetro em obra civil de concreto armado é fogo. Segundo o professor, o cara achava que estava calculando rota de foguete espacial.

Eu sempre aproximo as contra-flechas para múltiplos de 0,5 cm.

Abraços
Eng. Antonio Palmeira, São Luís, MA


Patologia em piso cerâmico

Colegas,
Estou avaliando uma patologia no piso cerâmico de um colégio. A cerâmica está “descolando” em vários trecho. A estrutura do colégio é toda pré-moldada. As lajes são do tipo treliçada com EPS. O vão livre das lajes, na menor direção, é de 7 m. Para este vão foi utilizada uma laje TR 21(16+5). Vocês têm utilizado esta espessura de laje para este vão e nível de carregamento? Porém o que mais intriga é que este problema ocorreu em salas de aula que não estavam sendo utilizadas, ou seja, onde não havia carga acidental atuando que pudesse provocar maiores deformações na laje. A construtora está alegando que o problema foi ocasionado justamente pela falta de utilização das salas. A construtora se baseou em um estudo do Building Research Establishment, segundo o qual há uma amplificação dos efeitos de variação térmica na estrutura em ambientes fechados. Alguém já passou por alguma situação parecida? Como avaliar o efeito da variação térmica na estrutura?

Eng. Marcos Pereira Pinto, Salvador, BA


Marcos,
O descolamento de pisos cerâmicos está associado, em grande número de casos, aos encurtamentos com o tempo (retração hidráulica) da argamassa sobre a qual foram assentados. Quando os ladrilhos ou lajotas cerâmicas estão assentados sem juntas entre si, esses encurtamentos promovem esforços sobre esses elementos, levando-os ao descolamento. Realmente, como a base em que se assentam adquiriu um comprimento menor com o encurtamento da argamassa, só lhes resta encurvar-se para cima, descolando.

V. observa com propriedade:
“Porém o que mais intriga é que este problema ocorreu em salas de aula que não estavam sendo utilizadas.” De fato, o tráfego de pessoas sobre pisos cerâmicos que tendem a elevar-se sob efeito do fenômeno acima descrito tende a promover a separação entre os elementos cerâmicos, estabelecendo descontinuidades que antes não existiam. A minha experiência pessoal coincide bem com essa sua observação: as áreas de descolamento são preferencialmente as áreas menos pisoteadas, que se situam nos cantos ou setores não acessados pelas pessoas. Ao fazer uma inspeção para identificar possíveis áreas de descolamento, é possível transformar a inspeção em medida cautelar, preventiva, pois pisando, separamos os elementos e evitamos a elevação brusca do revestimento cerâmico.

É freqüente que o fenômeno, nessas áreas, se dê bruscamente, acompanhado de ruído, algumas vezes com fraturas dos elementos cerâmicos.

V. poderá perguntar se esses encurtamentos levam realmente tanto tempo para se integralizar, já que esse fenômeno ocorre, muitas vezes, após anos de uso do piso. Eu responderei afirmativamente, pois a retração hidráulica é um fenômeno lento, e a depender da exposição (ou da proteção contra a evaporação da água de amassamento) pode levar muitos anos para ser capaz de descolar o piso. Para v. ter uma idéia relativa, ensaios feitos com placas de concreto de 60 cm de espessura, inteiramente expostas nas suas duas faces, em ambiente relativamente seco (50% de umidade relativa do ar), identificaram que, após 2 anos de exposição, só 30% da água que podia evaporar-se tinha de fato evaporado. E pois como vê um fenômeno lento.

V. associa o fenômeno às deformações (flechas) do piso. Eu estou à distância e não tenho como avaliar sua suspeição, que pode bem estar correta. Mas, pela minha experiência e pelo jeito com que v. descreveu o fato, tenho boas razões para acreditar que essa versão acima tem boas chances de explicar seu problema.

Abraços,
Eng. Antonio Carlos Reis Laranjeiras, Salvador, BA


Sobre a influência da retração em lajes com pisos cerâmicos é sem dúvida um fator importante no problema de desprendimento, como explicou muito bem o prof. Laranjeiras. Vejamos quais as deformações em jogo e tentemos qualificá-las e quantificálas. Depois de algum tempo (3 anos), o concreto retrai e se deforma também por fluência.

A deformação de retração pode-se assumir (depende da cidade) como sendo 0,00010 e o coeficiente de fluência 1,5 (variável).

Numa laje de grande vão, 7 m, as tensões no concreto em serviço devem ser altas (deve ser feito um cálculo do estádio II).

Aproximadamente podemos assumir em serviço que a tensão no concreto seja de 0,85*20000/1,4/ 1,4=8673kPa para um fck = 20 MPa. Como as cargas acidentais não devem estar sendo aplicadas, adotaremos uma tensão de 6000kPa.

Depois da instalação das placas e com um fator de fluência de 1,5, a deformação adicional no concreto (ou na placa) pode ser 6000/30000000*1,5=0,00030.

Ou seja, a deformação de fluência pode ser 3 vezes mais alta do que a retração (vai depender do caso em questão e do local da estrutura). Cálculos devem ser feitos para avaliar quais as tensões no concreto para as cargas permanentes, determinar o tempo desde a construção e quando as placas foram instaladas, calcular a retração e a fluência (função de inúmeros parâmetros), determinar o Ec e examinar onde os descolamentos se manifestaram.

Embora sejam importantes as deformações de retração, o que quero evidenciar é que as deformações de fluência não devem ser desprezadas, já que normalmente elas são significativas.

Eng. Ernani Diaz, Rio de Janeiro, RJ


Armadura negativa em beirais

Aos amigos da Comunidade TQS,
O projeto estrutural deve conter os detalhes das armaduras negativas dos beirais das lajes pré-moldadas. Ou a empresa que forneceu as lajes deve se responsabilizar por estes detalhes?

Atenciosamente
Henri F. Legriffon, Maringá, PR


Caro Henri,
Na minha opinião, o projetista estrutural deve especificar a laje por completo. Só ele pode compatibilizar a laje com as hipóteses de dimensionamento que adotou no projeto. É prática do mercado, principalmente em edificações de pequeno porte, deixar por conta do fabricante de lajes essa especificação.

Particularmente, especifico minhas lajes, detalho as armaduras necessárias e exijo que o fabricante cumpra as especificações. Dá mais trabalho, mas evito as surpresas desagradáveis e irresponsabilidades que tenho visto no mercado.

Um abraço,
Eng. Marcos Monteiro, São Paulo, SP


Caro Henri,
Vou compartilhar minha experiência pessoal no assunto:
Por muito tempo, julguei competência de nós, calculistas, esse dimensionamento, mas deparei-me, para as obras de pequeno ou médio porte, com uma defasagem brutal com o que o mercado oferta.

Em uma porcentagem alta, as “especificações” dos fornecedores não coincidiam com o projetado (ainda que valendo- se de programas consagrados de mercado que os próprios fabricantes de laje alegam utilizar!). Em particular as armaduras negativas! (Aliás, já reparou que a maioria dos fabricantes de lajes padronizam os detalhes de negativos, independentemente de cargas, vãos, espessuras, etc.?).

Como agravante, não raro tinha minha competência questionada pelo “fabricante” de lajes pois “eles só fazem isso, tem mais de 20 anos de experiência, nunca tiveram nenhum ‘pobrema (sic) e nunca viram isso antes! (projeto)”. A isso some-se o “preço especial para se fabricar sob encomenda” que fica fácil imaginar a posição do proprietário/ empreendedor, até porque eles fornecem a “ART”.

Bom, pintei deliberadamente um quadro com cores fortes, mas que mostra, generalizando, a enorme lacuna técnica que existe nesse segmento.

Atualmente, elaboro os projetos (de maior responsabilidade) onde ocorrem lajes pré-moldadas em parceria com alguns fornecedores sérios que conheço, até por questão de respeito profissional, pois são empresas que têm responsável técnico competente, responsabilizam-se pelo que fornecem e têm nível técnico para discutir engastamentos, momentos torsores, deformações, concentrações e/ou distribuição de cargas e, por serem especialistas no assunto e saberem da realidade de mercado, sempre se mostram mais competentes para sugerir soluções!

Vamos ouvir outras opiniões!
Um forte abraço
Eng. Afonso Pires Archilla, Sorocaba, SP


Prezado Colega Henri,
Nos projetos desenvolvidos em nosso escritório, apresentamos o detalhamento completo. No entanto, ainda se vêem muitos projetos com apenas a indicação do sentido da treliça ou da vigota pré-moldada. Não sei como é que certos engenheiros calculam as cargas somente com este procedimento, pois se a empresa fabricante calcular as lajes como contínuas, as cargas podem ser muito diferentes. Em certos casos o projeto (formas e vigas) já está detalhado e aí o proprietário é que vai procurar o fornecedor das lajes, sem falar em altura e tipo de enchimento. A minha opinião é que o autor do estrutural deve desenvolver todo o projeto, inclusive planta de montagem e escoramento.

Espero ter ajudado.
Eng. Mario G. Ritter e Eng. Ederson R. Antonini, Chapecó, SC


Prezados Henri, Afonso e caros colegas.
Recentemente fomos abrilhantados por uma execelente palestra a respeito de lajes treliçadas promovida pela Associação dos Engenheiros e Arquitetos do Médio Vale do Itajaí, em parceria com a Toniolo Pré-Moldados, Puma e Tecnocell.

Na ocasião, tivemos a oportunidade de manifestar nossa opinião a respeito deste assunto, concordantes plenamente com as opiniões do Afonso e do Marcos Monteiro expressadas nesta comunidade.

O projeto estrutural deve contemplar o detalhamento de todas as peças, ficando a cargo da empresa de pré-moldados a fabricação.

Alguns problemas estão ocorrendo exatamente pelo excesso de simplificações na fabricação das lajes, sem o controle do projetista da estrutura.

Mesmo reconhecendo a boa vontade dos fabricantes de armaduras treliçadas (Puma, Gerdau, etc) que, num esforço de “popularizar” o produto, colocam à disposição do mercado programas para cálculo dessas armaduras, temos de concordar que essas ferramentas são muito limitadas e não reproduzem o comportamento estrutural. Mesmo que o programa preveja o funcionamento da laje como nervurada e armada nas duas direções, não contempla o funcionamento em grelha de todo o pavimento e o comportamento não-linear adequadamente.

Nas lajes mais simples, a coisa até que funciona, mas em outras, o que se verifica são deformações e fissurações inesperadas. Além disso, tem o fato de o produto final do projeto estrutural (e a laje é uma grande parcela deste produto) ficar fora do controle do projetista.

Depois do advento do módulo de lajes treliçadas do TQS, não admitimos mais que um projeto estrutural nosso, quando em lajes treliçadas, saia sem o devido detalhamento das treliças. Naturalmente que não dispensamos a estreita colaboração de fabricantes sérios (na nossa região temos a Toniolo, por exemplo).

Abraços.
Eng. Luiz Carlos Cabral, Blumenau, SC


Colegas,
É exatamente isso que escreveu o colega Afonso Archilla. Também tenho tido muito problema com lajes compradas na quitanda da esquina. Mas o pior de tudo é que, pelo menos por aqui, o CREA fiscaliza essas fabriquetas de fundo de quintal e, pasmem, estão todas legalizadas, com responsável (???) técnico e tudo o mais.

O que fazer, se os caras vendem baratinho?

Abraços
Eng. Antonio Palmeira, São Luis, MA


Caro Henri e demais colegas da comunidade,
Também sou a favor de que o projeto das lajes pré-moldadas seja fornecido pelo engenheiro estrutural da obra. É cada macaco no seu galho:
Projeto estrutural >> calculista
Fabricação de laje >> fabricante de laje

Além dos problemas relatados pelos colegas nos e-mails anteriores sobre a incompatibilidade do projeto estrutural (vigas e pilares) com o projeto da laje pré-moldada (isolada), temos o GRANDE problema, que é a concorrência desleal no mercado. Em um mesmo projeto obteremos (com certeza!) inúmeras soluções de lajes, muito delas ARROJADAS (leia-se com pouca armadura e/ou altura), e infelizmente estas quase sempre vencem a batalha pela venda do seu produto.

Agora, se o projeto detalhado chegar ao fabricante de laje A, B ou C, as lajes deverão ficar com preço muito próximo uma da outra, e sua responsabilidade será a de fornecer seu produto de acordo com o projeto e com materiais de qualidade. A “disputa” ficará mais equilibrada.

Não estou querendo com isso anular os projetos realizados pelos bons fabricantes de lajes, pois muitos possuem ótimos conhecimentos teóricos e práticos, rotinas de cálculo etc, mas este conhecimento deveria ser compartilhado com os engenheiros estruturais e vice-versa.

Pode ter um pouco de utopia neste meu comentário, mas acredito que seria o caminho ...

Saudações,
Eng. Alonso Droppa Júnior, Curitiba, PR


Prezado Archilla:
O seu segundo parágrafo (e sei que não foi esta sua intenção) me assusta, pois pode dar a entender (... julguei competência nossa, mas ...) que hoje não é mais competência do calculista o dimensionamento, o que não é possível aceitar. Vejo que a intenção correta é dizer que, permanece esta responsabilidade mas o mercado, erradamente, aceita e dá espaço para o “dimensionamento” errado e padronizado, dos próprios fabricantes, o que é simplesmente ... ilegal.

Atenciosamente,
Eng. Egydio Hervé Neto, Porto Alegre, RS


Caro Egídio,
Você tem razão! De fato, esse parágrafo dá a entender, num primeiro instante, que estaria admitindo não ser mais minha (nossa) essa responsabilidade.

Não fui claro ao expor que houve um período em minha vida profissional onde questionei também, tal qual a pergunta do Henri Legriffon, se seria realmente nossa essa responsabilidade.

Creio que, no parágrafo final, deixo claro que esse dimensionamento e detalhamento é feito nos projetos e hoje faço-o em parceria (ou co-responsabilidade) com profissionais e/ou empresas sérias e competentes do ramo.

Aproveito a oportunidade para descatar o profissionalismo e competência de empresas como a própria TQS (um forte abraço, Nelson!), a Toniolo, a Puma, a Tatu, a Imperial, entre outras que sempre mostraram-se parceiras e prestativas.

Não obstante, reitero também meu verdadeiro espanto pela grande quantidade de empirismos e empresas “de fundo de quintal - com responsável técnico e ART” presentes em nosso meio, corroboradas pela grande quantidade de colegas nossos que “lavam suas mãos” para esses dimensionamentos e especificações!

Grato por sua atenção!

Um forte abraço
Afonso Archilla, Sorocaba, SP