Home » TQS News » Consulta » Artigos » A poesia no concreto
A poesia no concreto

Eng. Augusto Carlos de Vasconcelos - Edição Nº. 31 - Agosto/10

1. Introdução

Existe a crença popular de que o engenheiro é geralmente um indivíduo insensível, que só pensa em resultados práticos e que lida com projetos visando só a praticidade, a rapidez de execução e a economia. O cifrão domina seu pensamento.

Para mostrar que nem sempre é assim, foi escolhido este tema para chamar a atenção de que muitos engenheiros ainda vêm beleza na Natureza e no sentimento das pessoas. Euclides da Cunha ficou mais conhecido como escritor, mas era também engenheiro praticante. Chegou a executar várias obras, entre as quais um edifício público em São Carlos e uma ponte em São José do Rio Pardo, ambos ainda existentes. Convidado, entretanto, pela direção de um jornal a funcionar como relator, observador e correspondente junto ao palco do problema social surgido em Canudos, desviou-se de sua profissão e escreveu o livro “Os Sertões”, que viria a ser um dos mais importantes marcos da literatura brasileira. No prefácio de sua autoria, cita de maneira muito convincente que o Homem anda do realismo para o sonho e deste para aquele, construindo uma natureza ideal sobre a natureza tangível, fascinado pela miragem das hipóteses. Assim sendo, torna-se difícil diferençar o poeta que espiritualiza a realidade, do naturalista que tateia o mistério.

Depois de fazer uma série de considerações sobre a ciência, mostrando que é ilusório o rigorismo matemático, lembrando que se definem pontos, retas e planos que não existem, ou se reduzem a conceitos pré-estabelecidos, termina seu prefácio da seguinte forma:

“Pelas vigas metálicas de nossas pontes, friamente calculadas, estiram-se as curvas dos momentos, que nos embridam as fragilidades traiçoeiras do ferro. E ninguem as vê, porque são ideais. Calculamo-las; medimo-las; desenhamo-las e não existem...e assim por diante, indefinidamente, em tudo o que fazemos e em tudo o que pensamos, ainda quando lançados na trilha heróica da profissão, vamos pulsar no deserto as dificuldades e os perigos... Porque quando nos vamos pelos sertões em fora, num reconhecimento penoso, verificamos, encantados, que só podemos caminhar na terra com os sonhadores e os iluminados: olhos postos nos céus, contrafazendo a lira, que eles já não usam, com o sextante, que nos transmite a harmonia silenciosa das esferas, e seguindo no deserto como os poetas seguem na existência,... a ouvir estrelas!“

2. A poesia

Quando se fala em concreto, o que se pensa a respeito?

Qualquer pessoa comum imagina imediatamente uma obra, uma construção, uma estrutura. Pensa em características tecnológicas ou em fatores econômicos. Existe, entretanto, certa categoria de pessoas, que têm seu pensamento voltado para um campo totalmente diferente: a dos poetas.

Recordo-me dos anos 60 quando costumava almoçar no “Roof da Gazeta”, época em que essa transmissora estava localizada no largo Santa Ifigênia, em São Paulo. Uma vez por mês havia lá uma reunião de literatos do chamado “Clube dos Estados”, em que comparecia sempre pelo menos um elemento de cada Estado do Brasil. Alheio ao grupo, apreciava de longe as conversas, as declamações, a oratória literária de cada um, e comecei a aprender a apreciar a poesia. Foi nessa ocasião que travei conhecimento com um poeta de grande potencial, sempre dedicado à causa brasileira: Décio Bittencourt. Um dia, conversando com ele, acabei por lhe contar o que fazia, qual a minha atividade profissional.

– Trabalho com concreto armado. Faço cálculos...

Falei desinteressadamente, imaginando com meus botões, que se tratava de uma pergunta vazia, falta de assunto. Na verdade, ele ouviu bem o que lhe disse e, para meu espanto, retrucou:

– Lançando sementes de concreto no asfalto da cidade. Que bonito!

Pela primeira vez na vida senti o que era poesia. Poesia, para mim, era o que um adolescente escreve para sua namorada, procurando palavras com rimas e o plectro adequado. Só então percebi que a poesia pode existir em tudo o que nos rodeia, até mesmo em algo puramente material e destituído de encanto, como o concreto:

“... e os operários nordestinos, sempre mal nutridos, como gotas de chuva, fizeram brotar sementes de concreto, no solo fértil da grande metrópole!“

É necessário que se dê uma trégua às atividades lucrativas para poder apreciar o que existe de bonito à nossa volta.

Mais recentemente, ou mais precisamente, no Natal de 1981, recebo surpreso uma mensagem de fim de ano, que guardarei para sempre, de um colega nosso: engenheiro Sérgio Vieira da Silva. Para os que não sabem, o Sérgio, projetista de grande porte de estruturas de concreto armado, foi dos primeiros a usar, em São Paulo, o computador como máquina de desenhar. E o fez com grande vantagem econômica e de tempo, levando com isso grande dianteira tecnológica. Ao mesmo tempo, mostrou que o Homem está sendo, cada vêz mais depressa, expulso do palco da vida para dar lugar à máquina. Mas, para mostrar que ainda não está totalmente materializado, que consegue ainda apreciar a beleza da vida, transcreve em sua mensagem, uma linda poesia de Billy Blanco, que aprendi a admirar. Peço licença a este grande poeta para repetir aqui sua poesia “O Homem e a Máquina” que tanto apreciei e, duvido, possa existir alguém que não goste:

Começou pela roda rolando caminhos encurtando distâncias entre céus e países. A roda na roda engrenada em polia no moinho de vento na noite, no dia, na barca, no barco, na roldana de vela rolando roletas de volta e de ida, de sorte, de morte, a roda deu vida a cada sistema que a vida exigiu. Então veio a máquina posta no espaço em órbita certa, liberta do braço e do ponto de apoio. A máquina é livre em seus compromissos com as clãs, os governos, com as coisas do mundo. A máquina é o Homem em saber mais profundo trazendo a verdade contida no exato, na foto, no fato. A máquina existe em cada habitante da face da terra. A máquina encerra o aperfeiçoamento. Vem tudo da máquina que hoje é perfeita amanhã mais ainda, mutatis mutandis, a máquina é linda levando às cidades a razão de crescer sem riscos e medos a incrível memória a mão de mil dedos que o Homem lhe deu no melhor conceber calculando em segundos as moradas do mundo. Procurando o caminho do mais que perfeito cada ano se escoa e a máquina anda e a máquina voa tornando o infinito que quase se vê cada vêz bem mais perto. É que o certo está certo entre o Homem e a Máquina entre Deus e Você.

Billy Blanco

3. O professor de concreto protendido T. Y. Lin

O famoso professor chinês T. Y. Lin, radicado há muitos anos nos Estados Unidos, não é apenas um renomado especialista e autor de livros em concreto protendido, mas também um ser sensível aos acontecimentos quotidianos com a raça humana. Numa palestra proferida durante um Congresso Internacional em São Francisco, em 1957, ele atraiu a atenção de numeroso público, com uma paródia preparada a respeito de uma frase de Shakespeare: “As you like it”. Traduziriamos esta expressão por “Como você gosta que seja”. Ele aproveitou a mesma idéia numa convenção recente do American Concrete Institute, fazendo uma adatação para o pré-moldado do que havia criado para o concreto protendido. Aqui está uma tentativa de interpretar em português suas palavras em inglês:

O mundo inteiro não passa de um palco Os atores são as técnicas do concreto, entrando e saindo no instante certo.

O pré-moldado entra com suas faculdades numa peça onde os atos são sete idades. No início é a infância nas fôrmas dos moldadores. Vai o pré-moldado misturando todo dia e depois sazonando.

Segue-se o estranho estudante com esmero preparado por engenheiro criativo e por contratista forte e pujante.

Com sucesso evolui mas consome muito alimento ativo.

Surge então o enamorado cuja vida raramente é suave.

Apreciado por uns, por outros rejeitado, em cima de andaime simplificado é verdade, mas tem movimentações tolhidas, ligações sísmicas pouco desenvolvidas.

Agora entra em cena o soldado em massa no mundo pré-moldado.

Cabos de protensão enrijecem as aduelas e o epóxi segura todas elas.

Logo vem o sucesso e a euforia e o dinheiro rola para os fabricantes enquanto o pré-moldado contenta a maioria.

Na sexta idade penetra nas estruturas portuárias, marítimas ou lunares enfim.

Sonhos de visionários e de homens em suas torres de marfim.

Último ato: após uso geral entra no esquecimento termina a história do pré-moldado rica de evento,
como uma história de processos e de materiais, igual à da madeira,do aço, dos concretos tradicionais, como outra coisa qualquer.

T.Y. Lin

É oportuno mencionar que Lin foi muito aplaudido pelas suas palavras, que, em inglês, possuem um charme todo especial, impossível de imitar em outro idioma.

4. A tecnologia do concreto também tem lugar na poesia.

A revista editada pelo ACI, Concrete International de março de 1982, publicou um poema de Harry Butler, gerente de serviços técnicos do Australian Portland Cement. Esse poema, que é uma queixa do concreto em face das inovações, foi denominado “O lamento da durabilidade do concreto armado”. Eis sua tradução livre para o português:

Primeiro surgiram novos aditivos 10 por cento de água de minha mistura voaram. Veio então o Pozzolon E outros 10 por cento sumiram. Agora vários milímetros devem esconder Meu aço em baixa alcalinidade Para da hostilidade química proteger E dar a mesma velha durabilidade Que eu tinha em dias piores Quando os teores de cimento eram maiores.

Não me importo em usar água tratada Se a taxa de sais dissolvidos é limitada Outros podem emitir um lamento Mas isto mantém meu pH alto no momento. Assim, com controle de qualidade mantido Verifico se o grau de resistência é obtido Provando que tenho a possibilidade De uma elevada durabilidade Que eu tinha em dias piores Quando os teores de cimento eram maiores.

Por favor não me concrete com excessivo abatimento Principalmente quando usar bombeamento Pois isto provoca maior exsudação Que depois acarreta alta permeabilidade Reduzindo a durabilidade Que eu tinha em dias piores Quando os teores de cimento eram maiores.

Mantenha minha cura pelo menos uma semana Cuja falta pode me causar dano Que vai entre si meus poros ligar Causando excessiva retração ao secar Expondo meu aço à susceptibilidade

De corrosão que reduz a durabilidade Que eu tinha em dias piores Quando os teores de cimento eram maiores

Eu já me habituei com esbeltas colunas Não gosto desses lascamentos frequentes Com pedacinhos de mim caindo por ai Para longe dos painéis ou colunas Que tornam todos os Arquitetos receosos Que transformam os Engenheiros em duvidosos Sobre o que com seu projeto está acontecendo Como se tivessem usado a probabilidade Do velho concreto possuir a durabilidade Que eu tinha em dias piores Quando os teores de cimento eram maiores.

Continuem construindo com aquelas normas De um material que é armado em concreto Para que possa o Engenheiro ou Arquiteto Ou o Tecnologista de concreto proteger. Então o Químico do cimento em data a acontecer Brindará prazerosamente encantado Ao ver de seus produtos a conhecida habilidade De me dotar de permanente durabilidade Que eu tinha em dias piores Quando os teores de cimento eram maiores.

5. Sobre a revisão da NB-1

O autor, não se conformando com o tamanho das normas atuais, tanto estrangeiras com as nacionais, resolveu repetir o “lamento” de Harry Butler como um desabafo, escrevendo então o poema, parafraseando Casimiro de Abreu:

Saudades das normas curtas

Ah! que saudades que sinto daqueles tempos queridos que os anos não trazem mais! As normas eram curtas e concisas tão fáceis de consultar tão rápidas de aplicar!

Mas veio o progresso faminto para completar itens reduzidos com novos ensaios e tudo o mais. As normas hoje são longas e precisas tão difíceis de consultar tão chatas de aplicar!

Como dizer tudo e ser sucinto com tantos outros materiais produzidos: novos aços, polímeros, fibras, já é demais ! As normas ficaram completas e complexas tão difíceis de consultar tão chatas de aplicar!

Para serem lidas em qualquer recinto é preciso ouvir especialistas preferidos pela didática, simpatia, e não temais mostrar-te ignorante e sem competência, pois elas são difíceis de consultar e muito chatas de aplicar!

Esforços em pequenos recintos em regiões de descontinuidade exigidas por arquitetura que não programais. Estabilidade global e flechas mais precisas tão difíceis de manejar tão chatas de aplicar!

Todos os concretos num só labirinto de cláusulas e regras esculpidas das normas estrangeiras muito formais. As conquistas brasileiras ficam sem divisas tão difíceis de aceitar tão chatas de manipular!

Perdendo sua identidade em volume retinto de caracteres com textos reproduzidos, nossas normas não permitirão nunca mais realizar estruturas nunca dantes concebidas, tão difíceis de projetar tão chatas de detalhar!

Para entender todo o abordado assunto são precisos “Comentários” extensos e redigidos com muitas referências para evitar erros e (falhas). Tais normas necessitam softwares precisos porque são difíceis de consultar e muito chatas de aplicar!

6. Outro tipo de poesias

Até agora falou-se da poesia efetiva no concreto. Existe, entretanto, outro tipo de poesia, muito mais disseminado, em que os projetistas usam os computadores como se fossem deuses, apresentando os resultados dos cálculos numéricos com enorme número de decimais, sem qualquer sentido com a realidade, dificultando até mesmo a leitura. Já tive ocasião de receber uma memória de cálculo de um silo circular, cujas medidas geométricas (diâmetros e espessuras) do concreto apareciam em metros com 8 decimais! É muito comum o cálculo de armaduras em cm2 com 4 decimais. Isto é o que estou chamando, ironicamente, de poesia no concreto!

Não cabe aqui entrar no mérito de tal tipo de “poesia”, que bem mereceria alguns comentários numéricos de alerta aos usuários do computador. Cada um terá que descobrir sozinho até onde irá sua “poesia”, que não se restringe somente ao campo numérico, mas à obediência cega a normas. Algumas cláusulas explícitas de algumas normas que, desejando ser excessivamente abrangentes, recomendam a consideração de certos tipos de carregamentos ou suas combinações, deixando por conta do bomsenso do usuário, o seu abandono ou não. O engenheiro novato, depois de muito tempo perdido, acaba encontrando o “caminho do coelhinho”...