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O ciúme entre gigantes

Dr. Eng. Augusto Carlos de Vasconcelos - Edição Nº. 22 - Janeiro/06

A História da Humanidade está repleta de casos de ciúmes entre pessoas ilustres, que já galgaram postos privilegiados no prestígio internacional, que não precisavam se preocupar com questões de prioridade. Nossa política atual apresenta casos incríveis que, se nada fosse mencionado, não traria conseqüências desastrosas que nem precisariam existir.

A intenção deste artigo é chamar a atenção para diversos casos curiosos. Devemos evitar a citação de eventos que ainda estão em foco para evitar melindres e discussões desnecessárias.

O primeiro caso que me ocorre é o do ciúme doentio entre Robert Hooke e Isaac Newton. Pelos relatos históricos, Hooke, como membro da Royal Society de Londres, tinha a função de verificar como Curator of Experiments os pedidos de patentes antes de sua publicação nas Transactions. Acontece que ele, que também fazia pesquisas, às vezes se interessava tanto pelo artigo que lia, que atrasava sua publicação para se inteirar melhor do assunto e confirmá-lo com pesquisas próprias. Isto ocasionou grande mal estar com Christian Huygens, já famoso físico da Holanda, que se viu prejudicado e acusou Hooke de plágio. O mesmo aconteceu com Newton, que também julgou Hooke um indivíduo de mau caráter, que arrogava para si o mérito de várias descobertas das quais tomava conhecimento através de seu cargo. Hooke era conhecido como um indivíduo polêmico, que sempre procurava alguma briga. A História conta que existem retratos ou desenhos ou bustos de todos os homens famosos da ciência, menos o de Hooke. Argumentou-se que, ou Hooke era muito feio e nunca se deixou retratar, ou Newton que com o prestígio que tinha e como presidente da Royal Society de Londres, mandou queimar ou rasgar todas as figuras representativas de Hooke...

As disputas entre Newton e Hooke chegaram ao ponto de Newton praticamente impedir que qualquer pesquisador se interessasse pela “elasticidade” dos materiais pois aquilo era assunto sem importância que estava sendo analisado com futilidade por Hooke. Não valia a pena deter-se em assunto tão insignificante pois isso significava apoiar Hooke. Com essa atitude, Newton conseguiu atrasar a “Teoria da Elasticidade” na Inglaterra por mais de 100 anos. Como Hooke morreu 27 anos antes de Newton, seus estudos ficaram “esquecidos” porque ninguém se atreveria a abordar um problema que Newton repudiava. Somente depois da morte de Newton é que Thomas Young retomou os estudos de Hooke e criou a noção de módulo de elasticidade, que até hoje ainda é conhecido na Inglaterra como “módulo de Young”. A própria teoria da elasticidade foi desenvolvida na França, onde os pesquisadores não se sentiam influenciados por Newton. Note-se que as primeiras conquistas naquele campo se devem a matemáticos e físicos franceses, como Cauchy, Poisson, Saint-Venant, Navier, não existindo entre eles nenhum pesquisador inglês contemporâneo de Newton.

Newton dedicou muito tempo ao estudo da ótica. Simultaneamente Hooke estudou as células por meio de lentes de aumento, tendo sido considerado como o inventor do microscópio ótico, que, na realidade foi descoberto por Janssen. Quando Newton percebeu que a luz branca era um conjunto de radiações (ou corpúsculos) de diferentes cores, depois de suas pesquisas com prismas e com os anéis coloridos no contato entre uma lente e um plano, Hooke tomou para si essas experiências e se arvorou como descobridor. Este fato enfureceu Newton, que se lançou com toda a virulência contra Hooke.

Parece que Newton era um indivíduo rancoroso, que não podia discutir com Hooke, que era um criador de “casos”. Também com Leibnitz a disputa foi bastante acalorada. Newton descobriu uma maneira matemática de cálculo de áreas num trabalho denominado De quadratura curvorum. Isto levou à descoberta do cálculo integral que então denominava de fluxões. Ao invés de publicar logo suas descobertas, deixou passar muito tempo antes de divulga- las. Só se tem notícias disso através de algumas cartas que foram preservadas onde falava da determinação das tangentes. Por outro lado, Leibnitz se preocupou com o cálculo diferencial, que era o problema oposto ao estudado por Newton. Leibnitz também se correspondeu com Newton e não se sabe até onde ele conhecia as descobertas de Newton. Na ocasião em que Leibnitz solicitou prioridade para seu cálculo, Newton ficou uma fera.

No Brasil, na década de 30, no Rio de Janeiro, destacou-se um professor, muito estudioso e interessado em publicar tudo o que era novidade. Era Felipe dos Santos Reis. Era outra criatura polêmica. Um verdadeiro criador de caos e metia-se em diversas confusões com todos os que o criticavam. Não suportava a idéia de que alguém fosse melhor do que ele. Desde os bancos escolares, era assediado pelos colegas nas vésperas dos exames, para esclarecimentos das aulas. Apenas Emilio Baumgart nada lhe perguntava. Um dia, na véspera de um exame de estruturas, Emilio aproximou-se dele, dizendo que necessitava de seu auxílio. Finalmente, o único colega esquivo, vinha pedir-lhe auxílio. O auxílio entretanto era apenas a tradução de diversos têrmos que Emilio somente conhecia em alemão, pois não assistia às aulas e só estudava em livros alemães!

A maior polêmica surgiu quando Felipe resolveu publicar, em 1930, no Boletim do Instituto de Engenharia de São Paulo, um artigo denominado “Os erros dos theoremas de Castigliano nos sistemas isostáticos e hiperestáticos”. O artigo, sendo longo demais, foi publicado em duas partes, a segunda saindo no número seguinte. No número subseqüente, Felipe continuou insistindo no mesmo tema com o artigo “Ainda algumas ponderações sobre as nossas pesquisas relativas aos theoremas de A.Castigliano”, onde faz algumas generalizaçòes, procurando aplicar o teorema na determinação de reações isostáticas. Finalmente, em janeiro de 1931, termina sua série de publicações com o artigo “Os nossos últimos resultados sobre as derivadas dos trabalhos de deformação, obtidas de um dos theoremas recentemente descobertos”. Foi então que o professor Affonso de Toledo Pisa, da Escola Politécnica, não se conteve. Publica em maio de 1931, na mesma revista, sua réplica: “Sobre as derivadas do trabalho de deformação”. Felipe poderia ter ficado quieto ao perceber seu erro. Mas, vaidoso como era, escreveu para a revista uma carta solicitando que fosse publicada sua réplica, o que se fez no número 76 de julho. Não contente com a resposta, Toledo Pisa volta à carga e publica no número 77 de setembro e começa com a frase: “Na redação de nosso artigo de maio não fomos suficientemente claros de modo a sermos compreendidos pelo prezado articulista do Boletim” e procura explicar com detalhes as contradições encontradas. Em seu extenso artigo publicado em dezembro “Contribuição ao estudo dos systemas em geral pelo theorema do trabalho mínimo” procura amenizar a briga declarando: Ao Doutor Felipe dos Santos Reis apresentamos nossas excusas pelo facto de só o citarmos em pontos em que estamos em desacordo com os seus trabalhos.Tal não envolve, como diria Poincaré “quelque intention malveillante”.

Com isto termina a polêmica, em que somente Santos Reis saiu perdendo...

Santos Reis vivia polemizando e esta não foi a última. Com o professor Maurício Joppert houve uma discussão a respeito do cálculo do empuxo de terra encharcada, de um muro em Niterói. Contra tudo o que se fazia até então, Santos Reis foi contra o projeto, calculando o empuxo separando a fase sólida do solo da fase líquida. Na fase sólida ele descontava o empuxo de Arquimedes. Na fase líquida ele descontava a fração ocupada pelos grãos de terra. Resultava um empuxo muito menor do que o habitual. Os alunos de Joppert começaram a perguntar-lhe o que era certo, colocando Joppert em dificuldade diante dos alunos, pois estaria ensinando de maneira errada. Joppert que era sempre ferino em disputas, ficou com o dilema: ou desmascarar Santos Reis, criando inimizades, ou perder seu prestígio diante dos alunos. O fato é que a pendência se prolongou durante meses, criando situações muito delicadas...

Outro fato polêmico criou-se entre o professor Lauro Modesto dos Santos e o famoso professor Telemaco van Langendonck, ambos participantes da redação da NB 1/78. Lauro havia publicado na revista ESTRUTURA, de dezembro de 1980, um artigo de grande ajuda aos escritórios de projeto: “Um novo processo aproximado de dimensionamento à flexão oblíqua composta”. Para mostrar que o processo era realmente bom, comparou os resultados com outros 10 processos aproximados conhecidos, dentre os quais o do professor Langendonck. Este, já famoso e prestigiado internacionalmente, não se conformou ao ver seu nome publicado com um processo aproximado dando erros maiores do que o novo processo de Lauro, e publicou comentários no número seguinte da revista, na seção “Correspondência”, usando frases como estas: “...devia mostrar ao autor em pauta que não podia ser usado...para tirar as conclusões... em face de sua substancial inadequação”. Lauro resolveu responder à carta de Langendonck, ponto por ponto, o que foi publicado no número subseqüente da revista. Tudo não passou de um mal entendido pois que Langendonck se referia a armaduras distintas nos cantos da seção, quando Lauro pensava apenas em armaduras simétricas, como sempre se faz na prática. Este acontecimento deplorável não precisava ter acontecido e Langendonck perdeu uma oportunidade magnífica de elogiar um belo trabalho de seu pupilo, crescendo ainda mais na admiração de seus contemporâneos!

Fora do Brasil, são inacreditáveis os ciúmes nas reuniões do CEB durante as discussões dos Códigos Modelos, porém mais por causa das nações envolvidas do que das pessoas. São os chamados ciúmes patrióticos, principalmente envolvendo Alemanha e França.

No campo do concreto ficaram famosas as discussões, desde os primórdios, entre Emil Mörsch, o criador do cálculo do concreto armado, e Dischinger, outro estudioso e participante da firma Dickerhoff & Widmann, concorrente da firma Weyss & Freytag à qual pertencia Mörsch.

Em Munique, o professor Hubert Rüsch, por volta de 1955, tinha um ciúme doentio de Fritz Leonhardt a quem chamava de charlatão. Leonhardt ficou famoso pelas numerosas contribuições ao concreto protendido, com numerosas obras e cálculos importantes. Rüsch, como consultor da Dickerhoff & Widmann, entrava constantemente em conflitos com Leonhardt. Muito ligado às normas de concreto protendido que estavam começando a surgir, com muita participação de Rüsch e com divergências de Leonhardt, constituiam freqüentemente motivo de disputas e desentendimentos. O fato é que eram os dois maiores gigantes do concreto protendido do mundo, em desavenças sem fim...

Na França, ficaram célebres as altercações entre Eugène Freyssinet e Paul Abeles. Este, após executar dormentes de concreto protendido com fio aderente, chegou à conclusão de que as resistências eram as mesmas caso todo os fios fossem esticados com a força máxima ou se uma fração deles ficasse sem protensão. Em ambos os casos a carga de ruína era a mesma, porém a peça com protensão total apresentava na ruína fissuras menores e flechas reduzidas.

Decorridos alguns anos, entretanto, a protensão residual na peça com protensão total era muito mais baixa por causa das elevadas perdas lentas. Freyssinet insultou Abeles no Congresso de Liège, dizendo que, ao instalar as rodas de seu carro, ele procurava apertar as porcas sempre com a máxima força possível e nunca apertar algumas e deixar as demais frouxas. Isso causou hilariedade geral e Abeles sentiu- se menosprezado. Ele não viveu o suficiente para perceber que o mundo seguiu suas idéias e não as de Freyssinet!

Se V., caro leitor, conhece alguns casos de disputas, guarde-os para si. Não haverá qualquer vantagem em torná-los públicos. Sempre irritará alguns ânimos e V. pode passar por mentiroso... Ninguém gosta de ser criticado e prefere ficar na ilusão de que seu erro não foi percebido.